quinta-feira, 31 de julho de 2014

A IGREJA NO MUNDO FEUDAL


Fora da Igreja não havia salvação


A Igreja era a mais importante instituição do mundo feudal; do ponto de vista religioso, era única. Os membros mais elevados de sua hierarquia, bispos e abades, eram recrutados entre os nobres. Naquela época, tinha-se o costume de fazer com que o segundo filho de uma família nobre seguisse a carreira eclesiástica — o primeiro filho herdava o feudo, segundo o direito de primogenitura.

O papa no alto do clero católico
Até mesmo o tempo era regulado pela religião — as pessoas marcavam o ritmo de suas vidas pelo toque do sino das igrejas. Completamente voltadas para as práticas religiosas, acreditavam que a vida na Terra era apenas um momento antes da eternidade, que seria vivida ao lado de Deus.
Colocando-se como a única intermediária entre a humanidade e Deus, a Igreja passou a deter o monopólio da salvação - quer dizer, fora da Igreja não havia salvação. Sua organização hierárquica, no topo da qual estava o papa, era extremamente centralizada e rígida. A serviço de Deus, os membros do clero cumpriam um rigoroso regime de obediência e disciplina.
Seu raio de ação, entretanto, não se limitava à vida espiritual. Na verdade, ao longo dos séculos, a Igreja tornou-se proprietária de grande patrimônio — possuía terras, vassalos, servos —, acumulado graças às doações feitas por aqueles que queriam, por seu intermédio, ser libertados da condenação divina. Por outro lado, a Igreja ajudava os mais pobres, mantinha hospitais e servia de refúgio e abrigo.
Em meio a uma sociedade constituída de pessoas iletradas, a Igreja mantinha o controle absoluto do saber erudito. Detendo informações e conhecimentos importantes, garantia que seu domínio se estendesse ao longo de séculos de maneira quase inabalável.
Aqueles que questionavam as práticas instituídas pela Igreja eram considerados seus adversários. Em outras palavras, os que interpretavam os ensinamentos cristãos de maneira diferente daquela que a Igreja pregava passaram a ser chamados de hereges.

Excomunhão e Inquisição


A tortura foi adotada pela Igreja como
forma de extrair confissões
do acusados de delitos
contra a fé.

Com o intuito de manter-se soberana nos assuntos espirituais, a Igreja desencadeou uma guerra sem tréguas contra os hereges. Como forma de reprimi-los, criou a excomunhão e o Tribunal do Santo Ofício, mais conhecido como Inquisição. Pela excomunhão, o cristão era excluído da Igreja e ficava impedido de receber os sacramentos e outros benefícios indispensáveis à salvação, concedidos por seu intermédio. A Inquisição, por sua vez, oficializada pelo papa em 1231, julgava hereges e dissidentes. Aos que se recusavam a se retratar, ou seja, renegar as ideias e práticas condenadas, eram punidos de maneira implacável - em geral, condenado à morte na fogueira.

Monasticismo

Desde o final da Antiguidade, a hierarquia do clero era constituída pelo papa e pelos arcebispos, bispos, abades e padres. Eles formavam o clero secular (do latim saeculum, mundo), expressão que designava os sacerdotes que desenvolviam atividades voltadas para o público.

A cópia de manuscritos foi uma das principais contribuições
dos monges, chamados "monges copistas".
Paralelamente, desenvolveu-se o clero regular, formado pelos religiosos que viviam em mosteiros (monges e abades), em regime de reclusão ou semirreclusão, isto é, afastados do mundo material.


O hábito de viver em mosteiros — chamado monasticismo — começou a existir no Ocidente no século VI, quando Bento de Núrcia fundou o mosteiro do Monte Cassino, na atual Itália. Bento foi santificado como São Bento (também chamado de São Benedito) e deu origem à ordem (ou irmandade) dos beneditinos. A ordem beneditina tinha por lema a expressão latina "ora et labora" (reza e trabalho). 

Vista geral de um grande mosteiro
São Bento criou uma regra para disciplinar a vida de seus monges, que foi aprovada pelo papa e serviu de modelo para outras ordens surgidas posteriormente, como a dos franciscanos, a dos dominicanos, etc. O modelo dos mosteiros masculinos, dirigidos por um abade, foi logo instituído para as mulheres.

Os mosteiros ou monastérios desempenharam importante papel na Europa medieval, cristianizando povos, cultivando terras, organizando e mantendo escolas e bibliotecas.



quarta-feira, 30 de julho de 2014



LEMBRANÇAS DE TEMPOS FELIZES

Uma infância vivida no sertão

Quando criança, vivi no sertão. Não era bem um sertão típico, como a gente imagina quando fala do sertão nordestino. Mas a verdade é que lá não tinha luz elétrica, nem água encanada. Éramos pioneiros e, como costuma acontecer nesses casos, a vida não era nada fácil. Ao contrário: era difícil obter as coisas e, quando dava, elas custavam caro. Então, a mãe criava galinhas e porcos e fazia o próprio pão de cada dia; também costurava nossa roupa e cortava nosso cabelo.
Aos poucos, entretanto, acabamos nos acostumamos ao lugar e logo aprendemos a tirar proveito do nosso “sertão”. Havia muitas coisas gostosas para fazer. O melhor de tudo eram as caminhadas que eu, irmãos e colegas fazíamos através das roças, das pastagens e das matas que ainda restavam na região. Havia os riachos, e muitas vezes seguíamos por dentro deles, topando aqui e ali com uma cachoeira.

Muitas vezes passávamos o dia inteiro nessas andanças, comendo o que a gente encontrava pelo caminho. Era fácil encontrar frutas nas roças. Também a natureza oferecia uma variedade de frutas silvestres: ingá, marolo, gabiroba, jatobá, piúna, jaboticaba e outras de que as crianças de hoje nem imaginam existir.

Bem pensadas as coisas, aqueles foram tempos muito felizes, apesar de os perigos serem muitos, sobretudo quando se anda descalço no meio das matas e dos córregos. Eu mesmo passei por maus bocados, por exemplo quando um galho seco me caiu na cabeça ou quando caí de uma árvore e uma farpa de madeira me fez um buraco nas costas. Nessas ocasiões, só restava ir pra casa e receber os curativos caseiros aplicados pacientemente pela mãe.
O momento de maior perigo, creio, foi no dia em que aprendi a nadar... na marra. Devia ter então uns 9 ou 10 anos. Os garotos estavam nadando num açude e eu estava na beirada com medo de entrar. E eis que um garoto, desses que tem parentesco com o diabo, me empurrou para dentro d´água. Imaginai, amigos, desespero deste filho da dona Dolores, batendo os braços e perninhas. Felizmente deu certo: consegui sair da água, com o coração a mil! Durante algum tempo fiquei ali, na beirada, recuperando fôlego e esperando passar o susto. Então, senti um afago na cabeça, e naquela hora pensei que fosse o vento acariciando meus cabelos. Concluí depois que na verdade havia sido meu anjo da guarda que passara a mão pela minha cabeça e compreendi o que ele me disse na ocasião:
- Garoto, nada tema. Vou estar sempre perto de você.


AS CRUZADAS


Os cristãos disputam a Terra  Santa


No século XI, grande parte dos domínios árabes, incluindo a Terra Santa — que englobava Jerusalém e outros lugares onde Jesus viveu e pre­gou sua doutrina —, caiu em poder dos turcos seldjúcidas, um povo vindo do Oriente, que se convertera ao Islã. Dife­rentemente dos árabes, que nunca haviam se oposto às pe­regrinações dos cristãos à Terra Santa, os turcos as tornaram mais difíceis.
Diante disso, o papa Urbano II, falando aos nobres reunidos em Clermont, na França, em 1095, fez-lhes um apelo pela libertação da Terra Santa. Por trás do apelo religioso do papa estava o interesse da Igreja em aumentar seu prestígio e restabelecer a união da cristandade rompida pelo Cisma do Oriente, ocorrido em 1054.
A adesão dos nobres ao apelo do papa foi quase imediata. Para eles, as expedições à Terra Santa seriam uma forma de conquistar terras, prestígio e riquezas no Oriente. Afinal, muitos estavam empobrecidos por causa do direito de primogenitura.
Assim, no ano seguinte, tiveram início as Cruzadas. Costurando cruzes vermelhas sobre as roupas, nobres, camponeses, pobres, mendigos e até mesmo crianças partiram da Europa em grandes expedições militares com o objetivo de conquistar a Terra Santa, tomando-a dos muçulmanos.
A primeira Cruzada (1096-1099) conseguiu conquistar Jerusalém após três anos de lutas. A vitória permitiu a criação de alguns Estados cristãos na Palestina, nos quais as terras foram distribuídas como na Europa feudal. Pouco tempo depois, entretanto, a Terra Santa foi novamente tomada pelos muçulmanos.
Fizeram-se outras sete Cruzadas, a última das quais em 1270. Todas fracassaram. Apesar disso, como consequência delas, o Mediterrâneo foi reaberto à navegação eu­ropeia e os contatos culturais e comerciais entre o Ocidente e o Oriente foram restabelecidos.



As Cruzadas contribuíram ainda para aumentar a circulação de pessoas e de riquezas na Europa. Por meio delas, o comércio se fortaleceu e acabou estimulando o povoamento das cidades.




MOÇA COM BRINCO DE PÉROLAS


Uma paixão  platônica




Sou apaixonado por esse quadro, desde que o vi pela primeira vez. É considerado a obra-prima do pintor renascentista holandês Johannes Vermeer, do século XVII. O artista explora a técnica do claro-escuro e utiliza a luz natural para realçar os traços de sua modelo. A luz se espalha pelo rosto e pela cabeça da jovem e desce sobre seus ombros, e se reflete no brinco de pérola. Ela está de perfil, tem na cabeça um lindo turbante de duas cores, e o conjunto cria uma imagem ao mesmo tempo encantadora, sensual e poética.
Sabe-se pouco sobre o trabalho e a vida do pintor. Isso levou a escritora Tracy Chavalier a escrever o romance Moça com Brinco de Pérola e preencher com sua imaginação os buracos da história. Segundo a autora, a modelo se chamava Griet e era criada da família do artista. Em 2003, a história virou filme, estrelado pela deliciosa Scarlett Johansson.

Quando passei pelo Louvre, comprei uma cópia, que mandei enquadrar e pendurei na parede em frente da minha cama. Quando me deito e olho para o quadro, sinto que a Griet olha diretamente para mim e está me dizendo, quase sussurrando: “Boa noite, bonitão”.


TEODORO GARCIA


Um filho da Andaluzia no Brasil


Essa é uma foto do meu pai, Teodoro, quando ele tinha aproximadamente 25 anos. Ele fazia aniversário em maio e, estivesse vivo, em 2014,  ele estaria completando 115 anos . Em sua homenagem, hoje, resolvi compartilhar, neste blog, algumas lembranças que dele guardo.


Infelizmente, não são muitas. Lembro que era uma pessoa simples, de poucos hábitos, e que gostava de pitar seu cigarro de palha, que eu muitas vezes preparei para ele. Era um homem honesto e apegado à casa e à família. De seu casamento com minha mãe nasceram onze filhos.

Não tinha medo do desconhecido. Tanto que saíra da Espanha, sozinho, quando tinha apenas de 20 anos para vir para o Brasil. Do porto de Santos, foi diretamente para o interior do estado de São Paulo, e ali passou a maior parte de sua vida, ocupando-se dos mais diversos afazeres. Entre outros, foi cortador de lenha para ferrovias, cultivou a terra, plantou roça e trabalhou em engenho de açúcar. Era o que se pode chamar de um “homem trabalhador”. Para ele, todos os dias eram dias de trabalho. Não tinha exceção.

Por volta dos 50 anos de idade, mudou-se com a família para o estado do Paraná e se estabeleceu como pequeno comerciante. Na casa que ele mesmo ajudou a construir, edificou, na frente, um pequeno salão e ali montou um empório, onde se vendia de tudo, de fumo de corda a sabonete. Com esse pequeno armazém, ele alimentou a numerosa família, mesmo que nessa época alguns dos filhos já tivessem saído de casa para cuidar da própria vida.

O curioso é que se dedicasse ao comércio mesmo não sabendo ler nem escrever. Apesar dessa limitação, ele identificava as mercadorias, fazia contas e era suficientemente esperto para não se deixar enganar. Nunca foi capaz de ler um livro, mas reconhecia a importância do saber e fez questão que os filhos frequentassem a escola.

O pai não tinha religião, não frequentava nenhuma igreja e não revelava nenhum interesse por esse assunto. O máximo que se podia ouvir dele era a máxima “Yo no creo en brujas, pero que las hay las hay”. Mas não era ateu, não. Na verdade, ele tinha lá sua própria maneira de se relacionar com o sagrado. Me lembro de haver entrado no armazém uma ou outra noite, já quase na hora de dormir, e vê-lo com os cotovelos apoiados no balcão e o rosto enfiado nas mãos, mantendo um monólogo de cunho religioso. Nessas ocasiões, dava para perceber, na sua fala (misturando espanhol e português como era o seu costume), que fazia agradecimentos a Deus pelas graças recebidas.

Portanto, para ele, a morada de Deus estava em todas as partes, mesmo ali, cercado de mercadorias, iluminado pela luz bruxuleante de uma lamparina a querosene (a luz elétrica só chegou mais tarde). Não necessitava de templos nem de uma religião organizada. Nem de intermediários: a relação que ele mantinha com o divino era uma coisa pessoal. Creio que ele podia fazer isso porque era uma pessoa de coração puro, absolutamente em paz com sua consciência. Acho que essa maneira de encarar a religião foi uma influência importante que dele recebi.


A FÁBULA DO BEIJA-FLOR


Conta-se que, certa vez, ocorreu um incêndio na floresta e todos os animais se puseram a correr de um lado para o outro, apavorados. Um beija-flor, porém, voava até o rio e voltava com gotinhas de água no bico e a despejava sobre o fogo.

O leão, vendo aquilo, perguntou para o beija-flor:

– Beija-flor, você acha que vai conseguir apagar o incêndio sozinho?

 E o beija-flor respondeu:

– Eu não sei se vou conseguir apagar o incêndio. Estou apenas fazendo a minha parte.

......................

Assim como o beija-flor, se você, eu e cada um de nós fizermos a nossa parte, o mundo poderá ser bem diferente.


UM DESBRAVADOR INTRÉPIDO


Que não está nos livros de história




A foto mostra um importante desbravador que permaneceu anônimo na história do nosso país. Era um indivíduo que se aventurava pelos sertões, sem medo de cobras, de índio ou de qualquer outra criatura que andasse ou rastejasse. As onças eram seu bicho preferido. Aliás, ficou conhecido como “Caçador de Onça”. Às vezes viajava de barco, pelo rio; outras vezes caminhava a pé, quase sempre sozinho. Em algum momento do dia, parava, fazia um acampamento, de preferência ao pé de uma grande árvore, e ali permanecia uns bons dias.

Adicionar legenda

Na hora do rango, juntava um pouco de lenha e improvisava um fogão. Nas poucas panelas que levava consigo fazia um cozido, que podia ser um peixe que fisgava ali mesmo, ou a carne de algum animal, que inadvertidamente, naquela noite, tinha caído numa das armadilhas que ele armava nas imediações. Tinha sempre à mão, uma cachacinha, porque afinal ninguém é de ferro. Todos devem estar se perguntando quem era esse bravo aventureiro. Pois bem, seu nome é Ari Garcia Figueira, meu irmão, com muito orgulho.

UMA AVENTURA NOS ANDES


Recordações de um mochileiro


Nos longínquos anos das décadas de 60 e 70, conheci um cara que gostava muito de viajar. Era um aventureiro sonhador: queria conhecer muitos países e subir nas montanhas mais altas, na esperança de tocar o céu com os dedos. Numa dessas saídas, viajou para os Andes bolivianos e chegou até o Titicaca, o lago mais alto do mundo, na divisa com o Peru.
Lá em cima, olhando para o infinito e encantado com aquela imensidão de água e céu azul, sacou essa foto que vemos nesta página. Ele me deu uma cópia, e me pediu:

- “Guarde-a com carinho, pois esse foi momento em que mais me amei”.

Foi o que eu fiz: guardei a foto. 

Entretanto, passados tantos anos e com a idade já avançando – sinto muito dizer - até esqueci o nome dele. 
Hoje, ele deve estar bem mudado mas, se você o reconhecer, diga-lhe que mando um abraço com muita saudade daqueles bons e velhos tempos.


É COISA DO DIABO!


Minha primeira experiência com a religião

Eu estudei numa escolinha rural até o terceiro ano. Era uma construção de madeira com apenas duas salas, separadas por um espaço de circulação. Numa delas estudavam os alunos do primeiro ano. Na outra, os do segundo e do terceiro, juntos.

Não entrei na escola aos sete anos como todas as crianças, mas sim quando já tinha oito anos, e nunca entendi por que isso aconteceu. A única explicação que me ocorre é que me achavam muito burrinho e precisava esperar um pouquinho mais. Mas, uma vez matriculado, não fiz feio. Passei fácil pelo primeiro ano e no segundo passei em primeiro lugar. Até ganhei da professora um livro, “Mowgli, o menino lobo”, o primeiro que li na vida. E no terceiro ano passei em segundo lugar. Não fiquei em primeiro porque estava com o braço direito engessado e tive de fazer provas orais, e a professora achou um jeito de me tirar uns pontos.



Quando passei para o quarto ano, fui obrigado a me transferir para o Grupo Escolar, que ficava na cidade. Estranhei muito a nova escola; era enorme, com muitos alunos e tinha práticas bem diferentes.

Uma dessas práticas é que na quarta-feira a classe toda tinha de ir à Igreja. Eu podia não ter ido, pois minha família nem era católica. Meu pai não ligava a mínima para religião, e minha mãe tinha um pé no espiritismo. Mas fui, e foi a primeira vez que entrei numa igreja.

Na primeira semana, correu tudo bem, embora eu não tenha lembrança de nada que tenha ocorrido ou do que me tenha sido ensinado. Mas na segunda semana, tudo foi diferente. Fomos recebidos pelo frei Henrique, tido como um sacerdote muito severo. Ah, amigos, que sorte vocês tiveram por não ter de enfrentar o frei Henrique! Era uma figura assustadora: sanguíneo, gordo e totalmente coberto por uma batina vermelha, e falava com um forte sotaque estrangeiro, talvez alemão.

Para começar ele chamou um de nós para ir até a presença dele. E chamou justamente o menino que estava sentado ao meu lado. Uma vez lá na frente, o frei ordenou: “faça o sinal da cruz!”. Mas aí aconteceu uma coisa muito estranha: em vez de fazer o que o padre pediu, o menino teve uma crise incontrolável de riso - talvez por nervosismo, talvez por ignorância. O frei ficou muito brabo, mas tão brabo, que deu uma bofetada na cara do garoto! O pobrezinho rodopiou e só não caiu por que era um menino muito forte.

O frei, então, perguntou qual era a religião da família dele. O menino respondeu que era espírita. Bem, aí o frei ficou realmente possesso. Parecia que ia explodir. Ele falou que para os espíritas o sinal da cruz era o sinal do diabo! E fez outras acusações terríveis contra os espíritas.

Imaginai, amigos, a minha situação. Se o padre tivesse me chamado é provável que também tivesse levado um bofetão, pois também não saberia fazer o sinal da cruz. De tanto medo, me enterrei na carteira e procurei ficar invisível para que o padre não me chamasse. Felizmente, ele não me chamou e escapei do vexame. Nunca mais voltei à igreja, a não ser como turista quando já era adulto.



QUANDO ME AMEI DE VERDADE


Charles Chaplin


Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato. E, então, pude relaxar.
Hoje sei que isso tem nome... Auto-estima.

Quando me amei de verdade, pude perceber que minha angústia, meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra minhas verdades.
Hoje sei que isso é... Autenticidade.


Cena do filme "Luzes da Cidade"

Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento.
Hoje chamo isso de... Amadurecimento.

Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo.
Hoje sei que o nome disso é... Respeito.

Quando me amei de verdade comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável... Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo. De início minha razão chamou essa atitude de egoísmo.
Hoje sei que se chama... Amor-próprio.

Quando me amei de verdade, deixei de temer o meu tempo livre e desisti de fazer grandes planos, abandonei os projetos megalômanos de futuro. Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo.
Hoje sei que isso é... Simplicidade.

Quando me amei de verdade, desisti de querer sempre ter razão e, com isso, errei muitas menos vezes.
Hoje descobri a... Humildade.

Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo o passado e de me preocupar com o futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida acontece. Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é... Plenitude.

Quando me amei de verdade, percebi que minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando a coloco a serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada.
Tudo isso é... Saber viver!!!





DONA DOLORES

Esta senhora da foto era minha mãe, Maria Dolores Figueira. 

Havia nascido em 1909, de uma família que recentemente havia chegado da Espanha. Ela foi o primeiro dos filhos a nascer no Brasil.
Casou-se com meu pai aos dezessete anos, e com ele teve onze filhos, e a todos criou com dedicação e carinho. Nunca bateu num filho, nem ela nem meu pai. E todos os filhos se tornaram adultos de boa índole, o que prova que bater nos filhos é uma violência tola e desnecessária.

A mãe era uma pessoa muito prendada. Fazia sempre questão de ter um forno no quintal para assar pão e uma torta muito saborosa, que só ela sabia fazer e cuja receita levou com ela quando partiu. Além de cozinhar, ela costurava as nossas roupas, cortava os cabelos do marido e dos filhos e escrevia as cartas que meu pai queria mandar para os parentes na Espanha. Escrevia em espanhol, em lugar do pai, que não podia escrever por não ser alfabetizado.

Nunca a vi triste ou deprimida. Ao contrário, estava sempre disposta para fazer o que tinha que ser feito, o que quer que fosse.

Era uma pessoa extremamente bondosa. Uma daquelas pessoas que vieram ao mundo para fazer o bem.

Em sua mocidade, havia sido uma grande dançarina. Mais de uma vez ela nos falou, com emoção, das rosas que ganhava nos bailes por ser a que melhor sabia dançar. Em casa, às vezes, ela ensaiava uns passos, fazendo gestos como se tivesse castanholas nas mãos!

Era, também, uma exímia contadora de histórias, a melhor que conheci. Quando éramos crianças, à noite, ela nos reunia à sua volta para contar histórias. Com seus olhinhos brilhantes, cheios de ternura, ela nos falava com tanto sentimento, que a gente se deixava levar pela sedução de suas palavras e acreditava, por mais absurdas que fossem as histórias. E a gente ia para a cama feliz, com a alma inundada de magia e encantamento. Momentos mágicos, inesquecíveis.

Além de contar histórias, a mãe também gostava de declamar versos e citar frases que ela havia aprendido ao longo da vida. Por exemplo, quando a gente se aproximava dela, reclamando de alguma dor, ela dizia, com seu bom humor de sempre:

- No me pasme, Galindo!

Se viva fosse, hoje, dia 15 de agosto, ela estaria completando 104 anos. Mas ela nos deixou ainda jovem, quando tinha apenas 92 anos.

Pois é, mãe, a gente não se esqueceu de seu aniversário. E aproveitando a data, quero dizer que gostaria de lhe dar uma abraço muito apertado, cheio de amor - o abraço que nunca lhe dei em vida. E agradecer por tantas coisas boas que você nos deu a todos, filhos e netos - e todos nos lembramos de você com muita saudade.
Feliz aniversário, mãe querida!




"MEDO  SEM  RAZÃO


 SÉCULOS  DE  OPRESSÃO  CALARAM  MINHA  HUMANIDADE"


"Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor do nosso jardim
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores, 
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia, 
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada."
(Eduardo Alves da Costa)

terça-feira, 29 de julho de 2014

JAPÃO  

DA  PROSPERIDADE À RECESSÃO

A Segunda Guerra Mundial deixou em ruínas a economia japonesa: em 1946, por exemplo, a produção industrial do país caiu para um sétimo do que fora em 1941. Mas o auxílio estadunidense (incluindo os gastos durante a ocupação militar), aliado ao esforço dos próprios japoneses, garantiu a recuperação econômica. O início da Guerra da Coreia (1950-1953) também ajudou nesse processo, pois foram crescentes as encomendas às indústrias japonesas no período. Conhecida como “milagre japonês”, a recuperação da economia se apoiou principalmente no rápido desenvolvimento de setores industriais, como a construção naval e a produção de equipamentos eletrônicos e fotográficos. Mas setores tradicionais, como a indústria têxtil e a siderúrgica, também cresceram.


Em menos de vinte anos, o Japão não só conseguiu alcançar os mais adiantados países ocidentais, como também chegou a ultrapassá-los. Na década de 1960, superou os suíços na produção de relógios e os alemães na produção de aparelhos fotográficos. Na década de 1980, deixou para trás os Estados Unidos na produção de aço, robôs e automóveis. Em 1997, seu PIB se tornou o dobro do PIB da Alemanha e o segundo maior do mundo - atrás apenas dos Estados Unidos. (Em 2010, o PIB do Japão foi superado pelo da China, que se tornou, portanto, a segunda maior economia do mundo.)
Uma das características do modelo econômico japonês foi a intervenção do Estado na coordenação e na implementação de projetos nacionais de desenvolvimento. As autoridades estatais passaram a orientar e coordenar as empresas, ajudando-as com políticas de comércio, tecnologia e crédito. Com esse apoio, as empresas se capacitaram para competir com sucesso no mercado mundial.
Ao mesmo tempo, o país deixou de ter gastos militares, já que os termos da rendição de 1945 para os estadunidenses proibiam a reorganização das forças armadas. Isso permitiu ao Estado japonês canalizar os saldos favoráveis de sua balança comercial tanto para investimentos produtivos quanto para o aumento dos salários reais, melhorando o padrão de vida da população. Esse processo foi acompanhado de elevados investimentos em pesquisas tecnológicas. Em consequência, o Japão conseguiu assumir uma posição de liderança nos setores de tecnologia da informação, no momento em que estes se tornavam essenciais na economia globalizada.
Mas nenhuma explicação do “milagre japonês” estará completa se não se levarem em conta as características peculiares do seu sistema de trabalho. Eis algumas delas:
·        o trabalhador japonês é solidário com a empresa onde trabalha, com a qual tem um pacto: ele se compromete a permanecer fiel à empresa durante toda sua vida ativa e a empresa se compromete a não demiti-lo;
·        o salário se compõe de duas partes — uma fixa, outra variável. Esta última depende dos resultados econômicos obtidos pela empresa. Os sindicatos acompanham com atenção os índices de aumento da produtividade e dos lucros e negociam com os patrões o montante adicional do salário a ser pago;
·        quando decidem pressionar os patrões, os trabalhadores japoneses primeiramente recorrem a um ato simbólico, que pode consistir, por exemplo, na colocação de uma faixa em torno da cabeça. Apenas nos casos mais graves eles entram efetivamente em greve, com a paralisação do trabalho.
Essas características das relações de trabalho no Japão levam o trabalhador a se sentir uma espécie de “sócio menor” da empresa, comprometido com seu sucesso. Para isso, ele é capaz de fazer sacrifícios, que chegam ao extremo da redução voluntária dos dias de descanso.
Depois de mais de trinta anos de crescimento quase ininterrupto, no fim da década de 1980 a economia japonesa começou a apresentar sinais de esgotamento e rapidamente caminhou para a recessão, quer dizer, uma redução acentuada das atividades econômicas.



A QUEDA DA MONARQUIA 

A expulsão da família imperial  do Brasil


A queda da Monarquia, de imediato, não teve oposição. Mas os republicanos temiam que pudesse haver alguma reação dos monarquistas (o que de fato ocorreria alguns anos mais tarde). Por isso, uma das primeiras medidas do Governo Provisório foi o decreto do dia 16 de novembro, estipulando o prazo de vinte e quatro horas para que D. Pedro II e sua família deixassem o Brasil. Sem oferecer nenhuma resistência, na madrugada do dia 17, a família imperial acatou a ordem de expulsão e partiu para a Europa. D. Pedro II faleceu em Paris, no dia 5 de dezembro de 1891, três dias depois de completar sessenta e seis anos de idade.

A última fotografia da família imperial no Brasil, 1889

PLEBISCITO NO BRASIL, EM 1993
Vitória da República e do Presidencialismo

Em 1993, realizou-se no Brasil um plebiscito, isto é, uma consulta popular. O povo foi chamado a comparecer às urnas para escolher a forma de governo e o sistema de governo que preferia para o país. Quanto ao primeiro item, o eleitor devia dizer se queria a permanência da República ou a volta da Monarquia. Quanto ao segundo, o eleitor devia escolher entre o presidencialismo e o parlamentarismo. A decisão de fazer o plebiscito era uma forma de cumprir uma promessa feita mais de um século antes, pelos líderes da proclamação da República, em 1889.

Cédula utilizada no plebiscito de 1993

E qual é a diferença entre República e Monarquia? De um ponto de vista técnico, a diferença é que a primeira tem um presidente eletivo e periódico, enquanto a segunda se caracteriza por ter um governante hereditário e vitalício (rei, imperador, príncipe, etc.). Na Monarquia, apenas os membros da família real podem aspirar ao trono, já na República, está implícita a idéia de que nenhum cidadão é portador de privilégio. Por isso que se pode dizer que a República é coisa do povo.
Quanto à etimologia, palavra República vem do latim res publica e significa coisa pública. Ela foi criada pelos romanos para designar a forma de governo instituída em 509 a.C., quando os habitantes de Roma expulsaram o último rei, Tarquínio, o Soberbo, por estar abusando do poder. Substituíram, então, a Monarquia pela República, querendo dizer que o governo passava a ser coisa do povo e não do rei.
Muito tempo depois, já no século 18, foi a vez dos colonos ingleses da América do Norte fazerem a opção pela forma republicana de governo, quando proclamaram a independência e constituíram os Estados Unidos da América. Em seguida, essa foi também a forma de governo adotada na França e nos novos países surgidos na América Latina. E, em 1889, finalmente no Brasil.

GUERRA DO PARAGUAI

II – Segunda parte: as causas do conflito

Não é fácil explicar os porquês dessa guerra. Mas podemos começar dizendo que até 1864 o Brasil mantinha relações normais com o governo paraguaio, dirigido por Francisco Solano López. Sabemos que as hostilidades foram iniciadas pelo próprio governo paraguaio. Podemos admitir que Solano López tinha como certo que, mais cedo ou mais tarde, haveria uma guerra com os vizinhos e para ela ele vinha se preparando, de maneira silenciosa mas decidida. E foi a intervenção do Brasil no Uruguai que o fez vislumbrar que a hora havia chegado.
De fato, ainda em junho de 1864, o ministro das Relações Exteriores do Paraguai enviara notas tanto para José Antônio Saraiva, que se achava em missão diplomática junto ao governo do Uruguai, quanto para o governo brasileiro, oferecendo a mediação de López para a solução do litígio entre o Brasil e o Uruguai. Em resposta datada de 24 de junho, Saraiva dispensou a oferta do ministro paraguaio, alegando que esperava resolver diretamente os problemas com o governo de Aguirre.


No final de agosto, o governo paraguaio manifestou-se novamente. Desta vez para protestar contra o ultimatum de Saraiva, e contra qualquer ocupação do território uruguaio por tropas brasileiras. Uma medida como essa seria considerada “como atentatória do equilíbrio dos Estados do Prata, que interessa à República do Paraguai”. Novo protesto foi feito no mês seguinte. Como nenhum deles foi atendido, López decidiu iniciar as hostilidades contra o Brasil: no dia 11 de novembro, capturou, nas imediações de Assunção, o navio brasileiro Marquês de Olinda. A bordo se achava o novo governador da província do Mato Grosso, Frederico Carneiro de Campos, e estava a caminho para assumir o cargo. Ele foi feito prisioneiro (viria a morrer numa prisão paraguaia), bem como os demais passageiros e toda a tripulação do navio. Em seguida, o embaixador brasileiro recebeu uma carta em que o governo paraguaio comunicava o rompimento das relações com o Brasil.
No mês de dezembro, López ordenou a invasão do Mato Grosso. Suas tropas não tiveram dificuldade para ocupar e saquear uma grande parte do sul da província, até Corumbá. No mês seguinte, López solicitou ao governo argentino autorização para atravessar o território daquele país para atacar o sul do Brasil. Seu objetivo era unir-se aos blancos do Uruguai. O presidente argentino, Bartolomeu Mitre, negou a autorização, declarando-se neutro. Diante disso, no mês de abril, López ordenou a invasão da província argentina de Corrientes por um exército de 25 mil homens, capturando dois navios e ocupando a cidade do mesmo nome.
Em face dessa agressão, Mitre decidiu abandonar a neutralidade, e o Brasil pôde então contar com o apoio da Argentina, e também do Uruguai, em cujo governo agora se encontrava Venâncio flores, que, como vimos no texto anterior, era aliado brasileiro. No dia 1º. de maio de 1865, os três países assinaram o Tratado da Tríplice Aliança para fazer a guerra contra Solano López. Os objetivos textualmente expressos nesse tratado eram: 1) derrubar Solano López; 2) acertar definitivamente as questões de fronteira ainda pendentes com o Paraguai; 3) assegurar a livre navegação dos rios Paraná e Paraguai.

Bartolomeu Mitre
Acreditava-se naquele momento que a guerra seria rápida. Os dois lados tinha essa convicção. López estava otimista: tinha uma confiança ilimitada no soldado paraguaio e não acreditava no poder militar do Brasil. Por outro lado, o otimismo dos aliados (Tríplice Aliança) pode ser avaliado pela proclamação de Mitre ao falar a uma multidão em Buenos Aires, no dia 16 de abril: “Em 24 horas aos quartéis, em três semanas em Corrientes, em três meses em Assunção”.

Mas as coisas aconteceram de maneira totalmente diferente. Somente um ano depois, em abril de 1866, os aliados conseguiram por os pés em território paraguaio. E levaram outros três anos para avançar até Assunção, e mais um ano para encerrar a guerra, o que se deu no dia 1º. de março de 1870, com a morte de Solano López.
Durante a guerra, o Brasil dobrou sua frota naval, passando de 45 para 94 navios de guerra. Além das forças navais, organizou três corpos de Exército. O primeiro Corpo do Exército foi aquele que realizou a intervenção no Uruguai, e dali passou para o território argentino. Foi durante muito tempo comandado pelo general Manuel Luís Osório. O Segundo Terceiro  Corpo.

O número de homens em armas aumentou rapidamente. Ao iniciar a campanha contra o Paraguai, o Brasil contava com 10.857 soldados. Na travessia do Passo da Pátria (divisa entre Argentina e Paraguai, esse número havia subido para 33.122 homens, alcançou 45.283 em agosto de 1867 e chegou ao total de 48,5 mil, em maio de 1868. No decurso dos 5 anos da guerra, foi preciso mobilizar cerca de 200 mil homens. Desses, 139 mil foram levados para os campos de combate, sendo que 33 mil morreram, principalmente de doenças . Muitos, recrutados à força, preferiam desertar, originando o refrão “Deus é grande, mas o mato é maior”, que o senso de humor característico de nossa gente logo cunhou.
A guerra, que todos imaginavam rápida, consumiu cinco longos anos. Como os demais envolvidos, o Brasil fez um grande esforço para armar, municiar, alimentar, vestir e dar assistência médica aos seus soldados. Esse esforço implicou em despesas enormes. Uma parte das despesas –cerca de 10%  - foram cobertas por dois empréstimos externos, ambos tomados aos ingleses. O primeiro, no início da guerra, no valor de 5 milhões de libras esterlinas. O segundo, no final da guerra, no valor de 3 milhões de libras, e se destinava a liquidar as despesas deixadas pelo conflito. O restante das despesas –cerca de 90% - foi coberto com recursos obtidos internamente, principalmente através do aumento dos impostos.
Tantas despesas, porém, não chegaram a alavancar um crescimento industrial do país, porquanto quase tudo foi importado. Mas houve que visse um lado positivo na guerra. Na opinião do Visconde de Ouro Preto: “Os sacrifícios foram grandes, mas [...] diversos serviços públicos importantes como estradas de ferro, telégrafos elétricos, colonização, navegação, etc., tiveram notável desenvolvimento. O comércio de importação e exportação cresceu mais de 30%”.


segunda-feira, 28 de julho de 2014

GUERRA DO PARAGUAI

I – Primeira parte: a intervenção brasileira no Uruguai


Ao se tornar independente, em 1822, o Brasil herdou da antiga metrópole a política de intervenção nos assuntos internos dos países da região do Prata. A primeira foi durante a Guerra da Cisplatina (1825-1828), quando se deu a independência do Uruguai, até então pertencente ao Brasil – era chamada de Província Cisplatina (Cisplatina significa “do lado de cá do Rio da Prata”). A segunda intervenção se deu novamente nos anos 1851 e 1852, para combater o presidente Manuel Oribe e seu aliado, Juan Manuel Rosas, governador de Buenos Aires. Ambos foram derrotados por uma coalizão de forças de que o Brasil fez parte , na batalha de Monte Caseros. A partir de então o governo de D. Pedro II, imperador do Brasil, procurou manter-se neutro em relação aos problemas internos dos vizinhos platinos.
Pintura reproduzindo a batalha de Monte Caseros - fevereiro de 1852

Passados 12 anos, entretanto, uma trama de intrigas e desacertos levou o governo brasileiro a romper a neutralidade e imiscuir-se novamente no Uruguai. Essa intervenção constituiu-se no estopim da Guerra do Paraguai, que se prolongou do final de 1864 até 1º. de março de 1870. Uma guerra longa, portanto, que exigiu do Brasil e dos demais protagonistas o máximo de seus recursos.
Em 1864, o Uruguai era presidido por Atanásio Aguirre, do partido Blanco, que tinha como adversário Venâcio Flores, chefe do partido Colorado. Os dois travavam uma renhida luta pelo controle do poder no país. Nessa luta, envolveram-se numerosos brasileiros que eram proprietários de terra naquele país e simpatizavam com a causa dos colorados. Muitos combatiam nas fileiras de Flores e, em consequência, sofriam represálias dos blancos.
No início daquele ano, veio ao Rio de Janeiro o general Antônio de Souza Neto, fazendeiro gaúcho, veterano de muitas guerras e aliado dos colorados uruguaios. Ele trazia uma lista de reclamações dos brasileiros afetados pela luta no país vizinho, e cobrou providências do governo brasileiro. Tal foi o apoio que receberam suas queixas na corte (sede do governo imperial no Rio de Janeiro), que a resposta do governo não se fez esperar. Imediatamente, enviou ao Uruguai, em missão especial, o experiente político José Antônio Saraiva, levando aquele que era “o nosso último apelo amigável”, dirigido ao governo uruguaio. O “último apelo” continha pesadas exigências, entre elas o pagamento dos prejuízos reclamados pelos brasileiros e a punição dos responsáveis pelas violências. Se as exigências não fossem atendidas, o Brasil iniciaria imediatamente represálias contra o governo daquele país.
O enviado brasileiro chegou a Montevidéu no dia 6 de maio de 1864, apresentando em seguida suas credenciais ao governo de Aguirre. Mas, escreveu ele mais tarde, “depois de estudar a situação política da República Oriental [Uruguai] e reconhecer que não podia o seu governo, na permanência da guerra civil, satisfazer as reclamações brasileiras”, preferiu transformar sua missão de guerra em uma missão conciliadora. Em correspondência ao governo brasileiro, datada de 18 de maio, ele escreveu “[...] a paz é a única saída que ao governo oriental se oferece para dominar suas dificuldades internas e reabilitar-se para resolver as suas questões internacionais.”
Saraiva não era o único a pensar assim. Coincidentemente, com a mesma intenção dele, haviam chegado a Montevidéu o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Rufino Elizalde, e o embaixador inglês na Argentina, Edward Thornton. A intervenção desses diplomatas, aos quais se juntou o uruguaio Andrés Lamas, tornou possível um princípio de acordo entre Aguirre e Flores, o qual todavia não se consolidou, e no dia 7 de julho os negociadores deram sua missão por encerrada.
Saraiva, então, deixou Montevidéu e partiu para Buenos Aires, à espera de novas instruções do governo brasileiro. No Rio de Janeiro, continuava prevalecendo a ideia de exigir do governo uruguaio a satisfação das reclamações formuladas inicialmente.
Efetivamente, o governo imperial orientou Saraiva a entregar a Aguirre o ultimato brasileiro e dar um prazo para o atendimento delas. Finalmente, no dia 14 de agosto, Saraiva entregou ao governo uruguaio, com três meses de atraso, o ultimato que devia ter apresentado em maio.
Aguirre, provavelmente confiando no apoio de Solano López, presidente do Paraguai, negou-se a aceitar as exigências brasileiras, alegando que aquele era um documento indigno de permanecer nos arquivos de sua nação. Diante disso, Saraiva ordenou o início das hostilidades contra o Uruguai. Essa atitude colocava o Brasil e a Argentina no mesmo barco, pois o governo de Buenos Aires, presidido por Bartolomeu Mitre, já vinha apoiando, embora não oficialmente, o líder colorado Venâncio Flores. Essa concordância de interesses permitiu o entendimento entre Saraiva e Mitre para agirem de comum acordo em relação ao governo de Montevidéu. Poucos dias depois, no começo de setembro, Saraiva deixou a missão diplomática de que fora incumbido no Prata e retornou ao Rio de Janeiro.
Barão de Tamandaré


Com a partida de Saraiva, os interesses brasileiros ficaram a cargo do comandante das forças navais brasileiras no Prata, o vice-almirante barão de Tamandaré (Joaquim Marques Lisboa). A partir desse momento, foi ele o executor das represálias contra o governo de Aguirre, agindo em conjunto com flores, com quem assinou um acordo de cooperação. A armada de Tamandaré tomou o porto de Salto e assediou o porto de Paissandu, ambos no rio Uruguai. Em dezembro, entraram em território oriental as tropas comandadas pelo general João Propício Mena Barreto, que colaboraram na tomada de Paissandu. Em seguidas, forças de terra e mar sitiaram Montevidéu. A partir desse momento, a causa de Aguirre estava perdida.

Nessa mesma ocasião (dezembro de 1864), chegava à capital argentina José da Silva Paranhos (futuro visconde de Rio Branco), o novo encarregado de dirigir os interesses diplomáticos do Brasil no Prata. Simultaneamente, Aguirre deixou o poder em Montevidéu, sendo substituído pelo presidente do Senado. Com este negociou Paranhos um acordo de paz, que permitiu uma solução pacífica para o conflito: as forças aliadas entraram em Montevidéu sem violência; o poder foi entregue a Venâncio Flores e este concordou em atender as exigências brasileiras. Com isso, o Uruguai deixou de ser inimigo do Brasil para se tornar aliado, justamente quando começava um novo conflito, muito mais grave – a guerra contra Francisco Solano López, presidente do Paraguai.