sábado, 9 de agosto de 2014

VIVER PARA CONTAR


Coisas de que me lembro


Vim ao mundo às duas horas da madrugada, do dia 14 de fevereiro, dia de São Valentim, no município de Birigui (SP). Deram-me um nome diferenciado, cuja origem me intriga até hoje. Minha mãe dizia que havia visto esse nome num livro. Mas não é provável. A explicação mais plausível é que minha mãe escolheu o nome Valter. Mas quando, no cartório, perguntaram ao meu pai: 
- Que nome ia dar ao filho?

Meu pai deve ter respondido algo assim:

- O nome di Valte.

Bem, o funcionário do cartório nem pensou: pegou o “di Valte” e registrou “Divalte”, e assim ficou. Tão diferente que sempre achei que fosse o único no universo. Só recentemente encontrei um homônimo no Face Book.
Fui levado à pia batismal tendo como padrinhos minha irmã mais velha, Iraci, e seu marido, João Lourenço, um alagoano boa praça. Foi ele quem, anos mais tarde, me disse uma frase inesquecível. Estávamos na cabine de uma caminhonete, a caminho da cidade. Acho que ele me levava ao médico. A certa altura, ele me disse: “Divalte, você nasceu numa quarta-feira de cinzas”.
Tantos anos passados, ainda me lembro de sua expressão, olhando para mim e falando de um jeito amigo, carinhoso. Mas o que me surpreende nessa história é que essa frase tenha permanecido na minha memória. Pois eu não fazia a menor idéia do que fosse quarta-feira de cinzas!
É curioso como certas passagens da vida, seja uma simples frase, uma cena, ou coisa desse tipo, ficaram na cabeça da gente e de tantas outras nos esqueçemos.

A FAZENDA SANTA HELENA
Minha família vivia, então, numa fazenda cujo nome homenageava uma santa católica, Santa Helena. (Muito mais tarde, descobri que Santa Helena era a mãe de Constantino, o imperador romano que legalizou o cristianismo no Império Romano.)


Os sete irmãos mais novos, antes do nascimento
da Célia, fotografados em frente.à casa de pau-
a-pique, já um tanto esburacada. Descalços,
porque minha mãe achava que isso
fazia bem para as crianças.  

A fazenda era uma propriedade ocupada por plantações e criação de gado. Nela vivi até os cinco anos. Por isso, é da Santa Helena que guardo minhas lembranças mais antigas. Gosto de me lembrar da casa de pau-a-pique, com fogão a lenha e piso de chão batido. Gosto de me lembrar também das bananeiras, das galinhas ciscando naquele enorme quintal, aguardando a hora de virarem comida.
Numa parte mais afastada desse grande quintal, ficava um cercado onde eram criados os porcos. Periodicamente, um deles era sacrificado, o mais gordo. Quando isso acontecia, era como se fosse um dia de festa. Sobrava trabalho até para as crianças, mas todos trabalhavam com muita animação. No meio do quintal um enorme tacho derretia o toucinho do porco e fritava a carne. Depois, a banha e a carne eram colocadas em latas de 20 litros para o consumo de muitos dias. As tripas do porco eram lavadas para virarem lingüiça e chouriço, que ficavam penduros num varal na despensa. Uma parte do porco virava sabão. Como se costuma dizer:”Do porco só se perde o berro”.
Quase diariamente a mãe fazia fornadas de pães e outros quitutes. O doce de leite era frequente. Às vezes, havia jogo de futebol na fazenda. Nessas ocasiões, ela enchia uma travessa de doce de leite, cortados em pequenos pedaços, e nos mandava vender no campo que ficava perto da casa.
Como você já percebeu, a mãe era uma mulher muito prendada. Além de cozinhar, ela costurava a roupa de todos da casa, cortava cabelos dos filhos e escrevia, em espanhol, as cartas que meu pai não podia escrever. Havia nascido em 1909 e se chamava Maria Dolores. Filha de uma família espanhola, havia sido o primeiro dos filhos a nascer no Brasil.
Meu pai, Teodoro Garcia, era espanhol. Nascera em 1899, na pequena cidade de Itrabo, que continua sendo, hoje, a mesma de cem anos atrás. Ainda não tinha completado 22 anos quando desembarcou, sozinho, em Santos, no dia 25 de março de 1921. Havia estado no mar por exatos três meses, pois embarcara em Portugal na véspera do Natal de 1920. [Conta-se que o pai teria estado em Cuba, e que teria sido lá que ele aprendeu a trabalhar em engenho de açúcar.  Mas eu não sei como isso se encaixa nas datas que citei acima e que constavam de um caderno de anotações da Iraci.]

Do porto de Santos, foi diretamente para o interior do estado de São Paulo, e ali passou a maior parte de sua vida, ocupando-se dos mais diversos afazeres. Entre outros, foi cortador de lenha para ferrovias, cultivou a terra, plantou roça e trabalhou em engenho de açúcar. Era o que se pode chamar de um “homem trabalhador”. Para ele, todos os dias eram dias de trabalho. Não tinha exceção. Mas nunca conseguiu ler um livro, por não saber ler nem escrever. Quando nasci ele era o administrador da fazenda onde morávamos.

Fui o oitavo dos irmãos. Depois de mim, minha mãe teve ainda três filhos. Ao todo, foram seis homens e cinco mulheres, todos nascidos em casa, pelas mãos de parteiras. Partindo do mais velho, os onze filhos eram: Iraci, Milton, Antônio (Niquinho), Maria (Toti), Shirley Isabel, Ari, Nelson, eu, Hélio, Cecília e Célia.
O último dos filhos de Dona Dolores foi minha irmã mais nova, a Célia. Ela era muito grande e foi preciso recorrer a várias parteiras. A dona Morte rondou a casa naqueles dias de aflição. Mas felizmente tudo acabou bem. Quando finalmente a Célia nasceu correu pela casa comentários do tipo “é uma menina”, “ela é bem gordinha”, “pesou cinco quilos”!

Sempre tive curiosidade de saber qual seria minha lembrança mais antiga. Há alguns meses, com esperança de obter uma resposta para essa dúvida, fui com um sobrinho meu na casa de uma tia dele (por parte de pai). Era uma senhora de idade e quem sabe ela poderia me ajudar.
Dito e feito. Falei para ela do acidente com o Carlitos. Tinha acontecido o seguinte: o Carlitos, da família do João Lourenço, meu cunhado, estava um dia brincando com uma bomba, coisa de garoto. Ele colocou a bomba entre as pernas e batia nela com um martelo. Bem aconteceu o inevitável: a bomba explodiu. E perguntei quando isso tinha acontecido.
Ela pensou um pouco e disse 


- Isso foi um antes de me casar



Como ela tinha se casado em 1950, o acidente tinha ocorrido em 1949, ou seja, quando eu tinha quatro aninhos. Bingo!  Eu tinha descoberto o fato mais antigo de que podia me lembrar!
Para não deixar o assunto no ar, devo dizer que o Carlitos não morreu nessa ocasião. No máximo deve ter ficado com sua virilidade prejudicada. Mas de qualquer maneira o Carlitos teve um fim trágico: morreu afogado ao cair numa represa.

A vida na Santa Helena tinha muitos encantos, principalmente para nós, as crianças. Não era só trepar em árvores, andar pelos pastos, caçar passarinhos, pescar ou tomar banho no riacho. Também se podia ver os vaqueiros lidando com o gado, marcando, castrando e outras coisas do gênero. Dizia-se que muitos vaqueiros costumavam levar para casa os testículos dos bois castrados para comer, na crença de que isso os deixaria mais potentes.
Meus dois irmãos mais velhos, Milton e Antônio, com idades próximas dos dezoito anos, tomavam parte nas tropelias de vaqueiros. Me lembro do dia em que o Milton chegou em casa com seu cavalo gravemente ferido. Havia tomado uma chifrada de um boi. Era um cavalo muito bonito, todo vermelho, e a imagem daquele ferimento sangrando ainda está viva em minha memória. Mas sei que o cavalo não chegou a morrer.
Também não me esqueci da tulha, da escolinha que, todavia, não cheguei a freqüentar, e da ponte bastante alta sobre o riacho. Era próximo dessa ponte que ficava o local onde a gente tomava banho e as mulheres lavavam roupa. Hoje, segundo me contaram, esse riacho, que era bem largo naquele tempo, está reduzido, segundo me disseram, a um mísero filete de água que se pode ultrapassar num salto!

Um dos nossos passatempos favoritos era ir a pé até o rio Tietê que corria nas imediações. No caminho, a gente passava por um enorme cruzeiro. Nunca soube porque ele estava ali, mas me recordo que ele era o ponto de chegada das procissões que se faziam para pedir chuva nas épocas de estiagem prolongada. A minha irmã Toti me disse há poucos dias, que ela mesma chegou a tomar parte nessas procissões, que para ela era uma diversão. Aos pés do cruzeiro, era comum a gente encontrar moedas que pessoas devotas ali haviam deixado no momento de um pedido. No nosso entendimento, não era nenhum pecado usar essas moedas para comprar sorvete nos botequins da beira do Tietê.
Rio Baixotes, hoje um rio quase morto.
A caminho do Tietê, a gente cruzava também um rio bastante caudaloso, o ribeirão Baixotes. Era um rio piscoso. Reza a lenda que meu pai chegou a pescar nele um peixe de 90 quilos. Pois bem, hoje é um rio praticamente morto e está reduzido a isso que você vê na foto.


Quando eu tinha cinco anos, minha família saiu da fazenda e se mudou para a cidade, Birigui. Fomos morar perto da casa da minha irmã mais velha, Iraci, casada e que, na ocasião, tinha dois filhos. Lá ficamos pouco tempo, cerca de um ano. Minha memória registra poucas lembranças dessa época. Mas nunca me esqueci da primeira vez que vi uma locomotiva. Era de noite e estávamos próximos da linha do trem. De repente, apareceu no meio da escuridão aquele vulto monstruoso, soltando brasas e fazendo um barulho assustador. Disparei uma corrida que só terminou em casa!

Antiga praça de Birigui


A MUDANÇA PARA O PARANÁ
Meu pai resolveu, então, mudar completamente a história da família. Viajou com meu irmão mais velho para o Paraná. Comprou um terreno em Paranavaí, no norte do estado, construiu uma casa de madeira e voltou para nos buscar. Embarcamos na carroceria de um caminhão, e lá fomos nós, com mala e cuia, para o nosso novo endereço.
Meu pai não foi o único a embarcar nessa aventura. Naquela época, muita gente, principalmente paulistas e mineiros, estava se mudando para o norte paranaense. Ali, companhias colonizadoras haviam adquirido grandes glebas de terras virgens do governo estadual. A terra era, então, partilhada e posta à venda em condições facilitadas de pagamento. Meu pai chegou a adquirir um loto de vinte alqueires, mas pouco tempo depois desistiu do negócio.
Tudo o que os compradores tinham de fazer era derrubar a mata e plantar o cafezal. O processo foi rápido. Em pouco tempo, as densas extensões de mata atlântica que cobriam aquela região do Paraná foram inteiramente devastadas. Me lembro que, nos primeiros tempos, ainda se podia ver a mata a pouca distância de nossa casa e até ouvir, à noite, o ronco das onças. Com o passar do tempo, porém, a mata foi se afastando até desaparecer completamente do nosso horizonte.

Ônibus como este ligavam Paranavaí a Londrina. Era
o começo da Viação Garcia, hoje uma grande empresa.
Nas imediações de nossa casa, havia várias serrarias. Eram movidas por máquinas a vapor. Eram máquinas enormes, lembrando uma locomotiva do tipo maria-fumaça. As serrarias funcionavam sem parar, serrando as toras despejadas nos pátios das serrarias, trazidas por caminhões especialmente preparados para essa finalidade. Perobas de um metro de diâmetro rapidamente viravam madeira para construção. A maior parte era levada por caminhões ainda maiores para São Paulo ou para o porto de Paranaguá. Enquanto isso, a mata ia sumindo... E as onças também!
Para nós, as crianças, a serraria criava um local de diversão: a gente brincava de escorregar na montanha de serragem. Parecia muito divertido, mas não para os trabalhadores, pois as condições de trabalho nas serrarias não eram nada boas e os acidentes eram freqüentes.

Típico caminhão de transportar toras. 
A um desses acidentes eu tive o desprazer de assistir. Certo dia, meu pai me mandou a uma serraria para receber uma conta. Era uma serraria pequena, com instalações precárias. Durante algum tempo, fiquei ali parado, olhando o mecanismo em funcionamento, aguardando que o proprietário tivesse a boa vontade de me atender. De repente, com esses olhos que a terra há de comer, vi um operário ser colhido por uma correia de transmissão e arrastado para o meio das engrenagens. Foi uma cena de terror. Não fiquei sabendo se o infeliz sobreviveu à tragédia, mas eu voltei para casa aterrorizado e sem haver recebido a conta.

 Numa outra ocasião, o acidente envolveu um daqueles caminhões de transportar toras. O motorista tivera de parar para acertar a carga, que ameaçava cair. Mas no momento em que ele puxava o cabo de aço que prendia as toras, uma delas escapou e uma de suas pontas caiu sobre o pé do motorista. Ameaçado pelas demais toras, que podiam rolar a qualquer momento, o pobre coitado ficou ali caído, gritando por socorro. Eu e outros meninos estávamos a alguns metros de distância, mas nada podíamos fazer. Veio uma mulher, uma dona de casa que havia deixado a cozinha para tentar ajudar de alguma forma, mas tudo o que ela pôde fazer foi ajoelhar-se, levantar as mãos e suplicar a ajuda da Virgem Maria. Logo outras pessoas chegaram. O drama durou até que alguém teve a brilhante idéia de improvisar uma alavanca, soltar o pé do motorista e arrastá-lo para fora do perigo. Desta vez, a história teve um final feliz. O motorista escapou, alguém se sentiu feliz por haver salvo uma vida e a dona de casa ficou acreditando que suas preces foram ouvidas lá no céu.

Paranavaí na década de 1950. Quando lá chegamos, era um
município ainda novo. Encontrava-se na gestão do primeiro 

prefeito, com casario de madeira e ruas de terra.

Havia escassez de quase tudo. Me lembro particularmente do problema do leite e do pão. Uma de minhas irmãs mais nova, Cecília, estava doente e meu pai teve de andar léguas para encontrar leite para ela. O pão era trazido por um padeiro que passava pelo bairro, num carrinho puxado por um cavalo. Vendia o que, literalmente, se pode chamar de “o pão que o diabo amassou”, de tão ruim. Para se poder comer, era preciso, antes, tirar os carunchos.


Mas esses "tempos de guerra" logo passaram e a vida foi melhorando. Graças à lavoura cafeeira, a cidade cresceu e se consolidou. Mas, na região, a cafeicultura não iria durar muito tempo. A terra não era tão boa e cerca de uns vinte anos depois deixou de prestar para o café. E ainda havia o flagelo das geadas que periodicamente queimavam os cafezais. Me lembro bem da geada de 1953. Quando nos levantamos naquele dia e olhamos para o mundo, ficamos maravilhados com a brancura do gelo que cobria tudo. Mas para os cafeicultores foi uma tragédia.

O bairro que meu pai escolheu para fazer nossa casa tinha um nome pretensioso e homenageava o inventor do avião: Jardim Santos Dumont. O proprietário havia feito o loteamento, aberto as ruas e até chegou a oferecer, por algum tempo (por bem pouco tempo), luz elétrica, gerada por um motor a diesel. No início, havia poucas casas e, embora ficassem distantes umas das outras, as famílias se conheciam. Havia famílias de japoneses, gaúchos, mineiros, espanhóis, alemães...
A casa tinha um terreno grande, de maneira que minha mãe pôde, como nos tempos da Santa Helena, continuar criando galinhas e porcos, e ter sua horta e o inseparável forno para assar o pão e outras gostosuras. E até um pomar, em que vieram a ter destaque duas belas mangueiras que faziam a nossa alegria. Mas o detalhe lamentável é na minha família existia a crença de que a gente, após tomar leite no café da manhã, tinha de esperar duas horas antes de avançar nas mangueiras. Acreditava-se piamente que misturar manga com leite era veneno.
Essa crença ficou arraigada em meu espírito por muito tempo. Eu já estava casado quando, certo dia, a empregada me ofereceu um suco de manga com leite e eu, entre constrangido e surpreso, acabei aceitando. Só então descobri que era uma combinação muito gostosa e que não fazia mal nenhum!
Para o abastecimento de água, foi preciso cavar um poço, que avançou por mais de 30 metros terra adentro. A água era puxada na base da manivela, corda e caçamba. Não era fácil! Mas essa profundidade, se por um lado dava grande trabalho, por outro garantia a qualidade da água, que naquele tempo ninguém sabia que tinha de ser tratada.

O BOTECO
Nosso boteco no bairro Santos Dumont, em Paranavaí, havia sido construído por meu irmão mais velho, o Milton, um cara de muitos talentos. Se não estou enganado, deve ter começado a funcionar no início de 1952 e sobreviveu por uns vinte anos, pelo menos.


Nessa manhã ensolarada, os dois rapazes que aparecem na porta do
boteco são o Hélio e o Gilberto. As charretes, muito frequentes
nesse trecho, eram o meio de transporte preferido pelas putas
quando iam  da "zona" para a cidade.    
Era um salão de madeira, de uns 60 m2. Ficava na frente da casa, à qual se comunicava por uma porta localizada no centro da parede dos fundos. Todo o restante dessa parede estava tomado por prateleiras cheias de mercadorias. Um pouco à frente, deixando um corredor de cerca de um metro, estavam os balcões, e entre eles uma passagem. De um lado dessa passagem, um balcão grande servia para o atendimento geral e para os recebimentos e pagamentos. E, do outro lado, dois balcões menores (na verdade, eram vitrinas), encostados um no outro. Um dos balcões menores era ocupado por doces e pães, e o outro por perfumarias e material de papelaria. Junto a uma das paredes laterais do salão, ficava a sacaria; na parede oposta, uma mesa com algumas cadeiras, que servia para tudo: bater papo, beber, jogar, tomar umas e outras, etc. A iluminação, à noite, durante a maior parte do tempo, ficou por conta de um lampião a querosene.
Na parede da frente, três portas se abriam para a rua. Do lado de fora, no centro da parede, uma placa com um nome extravagante “Casa Birigüiense”. Mas pouca gente chamava o boteco por esse nome. Talvez, ninguém mesmo. Era simplesmente a “Casa do Seu Garcia”.
Vários dos filhos (e netos) ajudaram Seu Garcia a tocar o boteco, que abria de segunda a segunda. Eu mesmo labutei por uns cinco ou seis anos, praticamente toda a adolescência. Atendia os vendedores, fazia pedidos, vendia, recebia, pagava, anotava o movimento financeiro e essas coisas. Às vezes, saía para fazer cobranças ou entregas, para ir ao banco, etc. Era muito comum, dar uma escapada para participar de uma “pelada” no terreno que ficava ao lado. Essa era a melhor parte, mas em geral durava pouco, porque logo meu pai me chamava.
Se essa era a parte boa, a parte difícil era atender o padeiro, que passava bem cedo, entre cinco e meia e seis horas da madrugada! Quando ele anunciava “padeeeiro”, meu pai lá do seu quarto gritava “Divartêee” (assim mesmo, à moda caipira. Aliás, raramente eu fui chamado pelo meu nome inteiro. Um dos poucos que fazia isso, justiça seja feita, era meu cunhado João Lourenço). E aí já não deitava mais. O dia havia começado.
O boteco era bastante movimentado, principalmente à noitinha e nos finais de semana. Ali apareciam contadores de piadas, violeiros, cantadores, cachaceiros, prostitutas, enfim, gente de todo o tipo, que protagonizaram histórias imortais.

Comecei a freqüentar a escola somente aos oito anos, e não aos sete como todo mundo. Nunca soube a razão desse atraso. Mas estou certo que isso não me prejudicou em nada. A escola do nosso bairro ficava bem perto de casa, algo como um quilômetro. Era uma construção de madeira, com duas salas separadas por uma área coberta e um pátio a céu aberto. Tudo cercado por balaústres pontudas. Nessas duas salas eram ministradas aulas até a terceira série. Minha primeira professora tinha o mesmo nome de minha mãe, Dolores. Foi dela que ganhei o primeiro livro que li na vida, Mowgli, o menino lobo, e foi um prêmio por haver concluído a segunda série em primeiro lugar.

Escola rural no Jardim Santos Dumont. Aqui estudei
as três primeiras séries. No meu tempo, 

não tinha esse puxadinho.

Na terceira série, tive aulas com uma professora a quem chamávamos Lirde (mas, por ser filha de alemães, a grafia devia ser Lürde). Meu exame final teve de ser feito por meio de provas orais, pois estava com o braço direito engessado. Ainda assim passei com nota nove, a segunda melhor da classe. A primeira ficou com um aluno japonês que competia comigo. No ano seguinte, fui para a cidade para cursar a quarta série no Grupo Escolar. Naquele tempo, após a conclusão do Primário, havia um Exame de Admissão ao Ginásio. Na primeira vez que prestei esse exame, fui reprovado. Pelo resto da vida, fiquei achando que fui vítima de uma injustiça, pois havia passado bem pela quarta-série. Mas na ocasião a ninguém ocorreu pedir uma revisão de prova. Dessa forma, somente aos treze anos pude começar o Ginásio.

Haveria muito que dizer da minha infância no Jardim Santos Dumont, que tinha muita semelhança com a vida na Santa Helena. Afinal, o bairro ficava entre a cidade e a zona rural, e era na zona rural que a gente passava a maior parte do tempo. Fazíamos caminhadas quase diariamente, em diferentes direções, e ficamos conhecendo a região num raio de muitos quilômetros. Pendurado no pescoço, o inseparável estilingue, que em certas ocasiões podia ser uma arma fatal. Nelson, Meu irmão imediatamente mais velho, era o campeão na pontaria. Era comum a gente voltar para casa trazendo rolinhas e inhambus, aves cuja carne era muito apreciada.
Um companheiro inseparável nessas aventuras era o King, um vira-lata branco com manchas pretas, de tamanho médio, que lembrava um pastor alemão. Era muito querido, e por isso, no dia em que o mataram a tiros, sob a desculpa de que estava louco, na minha casa derramamos um rio de lágrimas. Principalmente, porque tínhamos certeza que o cachorro estava bem sadio.
Também nos divertíamos com as bolinhas de gude, o pião, a pipa, as figurinhas de colecionar e tantas outras formas de passar o tempo. Aos domingos, não se podia perder a sessão de cinema da tarde - a matinê -, invariavelmente um bang-bang. Antes do filme, passava o capítulo de um seriado, e a gente sempre tinha de assistir ao capítulo seguinte para saber como o mocinho se salvava ou como ele salvava mocinha. E – detalhe importante – antes de a sessão começar havia a troca de gibis. Os lidos pelos não-lidos. O gibi era praticamente a única leitura, e era preciso fazer um estoque para a semana toda.

As brincadeiras continuavam à noite. Num tempo em que ainda não havia televisão, alguns vizinhos se reuniam para passar o tempo e se entretinham contando casos ou brincando de roda, de passar anel, boca do forno etc. Nas noites frias, ficávamos recolhidos ao casa, em volta de uma lata cheia de brasas, e a mãe nos distraía contando histórias. Em geral, eram passagens da vida dela ou casos que ela ouvira contar. Eram histórias de assombração, de mula sem-cabeça, de lobisomem...
Numa dessas histórias, ela nos contava que certo dia havia ido à roça levar o almoço para os homens, e sentara-se sobre m tronco caído. De repente, ela sentiu que uma cobra lhe subia pelo corpo. E então ela teve suficiente sangue frio para se manter imóvel e esperar que a cobra fosse embora.
Em outra ocasião, em que meu pai saíra para pescar, ela estava em casa sozinha. Altas horas da noite, acordou ouvindo um ruído estranho, como se fosse de uma corrente sendo arrastada pela casa. Ora ia para um lado, ora ia para outro. Morta de medo, ela se encolhia toda na cama. Depois de alguns minutos, o ruído se aproximou da cama e, de repente, ela sentiu que alguém lhe deu um assopro muito forte no ouvido.

A mãe, quando devia ter por volta de 65 anos.
Foram momentos inesquecíveis aqueles. Com seus olhinhos brilhantes, cheios de ternura, ela falava com tanto sentimento que a gente se deixava levar pela sedução das palavras e acreditava, por mais absurdas que fossem as histórias. E a gente ia para a cama feliz, com a alma inundada de magia e encantamento.
Além de exímia contadora de histórias, a mãe também gostava de declamar versos e citar frases que ela havia aprendido ao longo da vida. E tanto podia ser em espanhol ou italiano ou com sotaque português de Portugal.
A mãe deixou muita saudade. Hoje, ela deve ser uma daquelas estrelinhas que, à noite, brilham lá no céu.
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Lamentavelmente, tantos momentos pitorescos e agradáveis da vida da família nunca foram registrados por escrito e hoje são recordações já quase apagadas.

Foi um tempo bom, e sobre ele poderia escrever muitas páginas, principalmente porque quando a gente pega a puxar pelo fio da memória não param mais de chegar lembranças, mesmo aquelas que pareciam esquecidas para sempre.




SEGUNDA PARTE:
FRASES, HISTÓRIAS E CASOS PITORESCOS DA FAMÍLIA

A tradição oral da minha família guarda um grande repertório de casos, histórias e ditos pitorescos. O mais comum são as frases.

 Essa tradição deve muito à minha mãe, dona Dolores, que tinha uma memória prodigiosa para guardar essas pérolas e, com frequência, soltava uma delas. Os filhos pegaram o hábito, e a gente volta e meia sapecava uma dessas frases, muitas vezes sem nem sequer saber o significado dela.

Um exemplo era quando a gente chegava, reclamando de alguma dor. Era certo que ia ouvir: “No me pasme, Galindo!” Assim mesmo, em espanhol.
Também havia aquela que ela dizia, imitando os portugueses, quando alguém contava uma história qualquer: “Isto que estais a falaire é a pura verdade!”
E quando queria destacar o sabor de uma comida, a frase inevitável era: “Pastéis gostoso, seu Antonho!”

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Eis alguns casos de que me lembro:

Numa casa bem em frente à nossa, do outro lado da rua, morava uma família de japoneses, os Takanos. Era uma gente muito legal. O chefe da casa era o Kanegolo, um cara bem gordo. O casal tinha umas filhas moças que gostavam de cantar canções japonesas e dançar com roupas típicas. O pessoal de casa – minha mãe, minhas irmã – gostava muito deles.
Um belo dia, dona Dolores foi visitar a senhora Takano, que tivera um filho, e lhe levou de presente um frango assado. Mas qual não foi a surpresa dela ao encontrar aquele japonezão esparramado na cama, ao lado da esposa!
Para aumentar ainda mais a surpresa, foi o dito cujo quem pegou o frango e, enquanto comia, disse:
- Kanegolo come, faz efeito pra mulher, né?

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Falar dos Takanos me faz lembrar a história do Lilo, um dos nossos colegas de infância. Pertencia a uma família de gaúchos que morava a meia-distância de nossa casa. Era uma criatura diabólica. Estava sempre aprontando alguma travessura e se metendo em encrencas. Um dia, durante o recreio na escolinha do bairro, presenciei uma briga que ele arrumou com o João Mineiro, um sujeitinho bem maior do que ele. O Lilo tirou do bolso um canivete e partiu para cima do adversário. O João Mineiro correu até a cerca, arrancou uma ripa e esperou pelo ataque. Quando o Lilo chegou bem perto, acertou-lhe uma pancada que o jogou no chão. A briga estava encerrada.
A cada travessura do filho, a mãe gritava com seu sotaque gaúcho: “Lilo, que menino mais impossíiivel!” Já o pai, que a gente conhecia apenas por Baixinho, dava-lhe tremendas surras. Batia com o cinto sem misericórdia.
Um dia em que o menino aprontou mais uma das suas, o pai quis castigá-lo. Mas o Lilo não esperou para apanhar, e fugiu. O Baixinho foi atrás. O filho na frente e o pai atrás, os dois correndo pelas ruas do bairro. Lá pelas tantas, o Lilo entrou numa casa e se escondeu embaixo da cama do quarto do casal. Por coincidência era a casa dos Takanos. O Baixinho entrou atrás e tentou tirar o filho de debaixo da cama. Não pediu licença nem nada. A japonesa ficou furiosa com a invasão da casa e começou a bater no Baixinho com uma vassoura.
Imagine a cena: o Lilo embaixo da cama, o Baixinho tentando tirá-lo e a japonesa batendo do Baixinho com uma vassoura. Coisa de uma comédia pastelão!


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Na minha casa, era comum a gente lembrar frases que haviam se incorporado ao folclore da família desde os tempos em que se amarrava cachorro com linguiça. E elas eram lembradas e empregadas sempre que havia uma situação apropriada.
Eis uma delas: “Esse toucim num tem graça nenhuma!” Essa frase era invocada quando se queria dizer que alguma coisa não era boa, não valia a pena. Mas - detalhe importante - a frase tinha de ser pronunciada com a boca meio torta e com sotaque caipira. Senão, não valia.

O autor da frase havia sido um cara que fora à nossa casa, nos tempos de antigamente, comprar toucinho. Consta que o cidadão pegou um pedaço, levantou, olhou, mediu bem e, fazendo uma cara de pouco caso, pronunciou a frase imortal: “Esse toucim num tem graça nenhuma!

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É também do tempo do onça outro caso que se deu, certa vez. Em nossa casa, ficava hospedada a professora que vinha dar aula na escola da fazenda. Uma dessas professoras (de cujo nome não me lembro, infelizmente) entrou para o folclore da família por uma frase dita no almoço.
A mocinha – pois, sempre a imaginei como uma moça pequena e delicada – comeu, cruzou os talheres e deu o almoço por encerrado. Minha mãe, como todas as mães de antigamente, gostava que as pessoas comessem bastante da comida que havia preparado.
Notando que a professorinha havia parado de comer, minha mãe lhe disse:
- Nossa, fulana, você já acabou? Não comeu nada! Será que não gostou da comida?
E a professorinha:
- Comíííí, dona Dolores!

Ainda hoje, quando a gente almoça ou janta na casa de alguém da família e ouve o tradicional comentário de que comeu pouco, a resposta é infalível: “Comíííí, dona Dolores!”


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Numa casa vizinha à nossa, morou por algum tempo, uma família de negros. Um dia, minha mãe nos mandou, a mim e a alguns irmãos, levar alguma coisa para a dona da casa, uma senhora bem idosa. Ainda está viva na minha lembrança a imagem dessa senhora, quando veio nos atender. Andava com dificuldade e dava para ver no seu rosto e na maneira cansada de andar que a pobre coitada tivera uma vida inteira de pobreza e sofrimento.
Para agradecer, ela nos falou, com a voz bem rouca, tranqüila e pronunciando devagar cada uma das palavras:
- Quando eu tiver uns cobrim eu dou pro cês, viu!

Voltando para casa, contamos o sucedido para minha mãe. Deve ter ficado muito impressionada, pois ela repetiu para nós, muitas vezes, a frase da velha “Quando eu tiver uns cobrim eu dou pro cês, viu!”



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Um coleguinha de infância, o Romeu, de cerca de cinco anos, costumava andar lá pela nossa casa. Uma tarde, dona Dolores foi ao boteco, para pegar alguma mistura para o jantar. Ela cortou um pedaço de mortadela e, disfarçadamente, voltou para a cozinha. Mas notou que o Romeu estava de olho comprido na mortadela, que, afinal, tem um cheiro indisfarcável.
Minha mãe fez que não percebeu e tentou desviar a atenção do garoto, oferecendo outra coisa.

- Qué cafezinho, Romeu? ela perguntou. Mas não adiantou nada. O Romeu insistiu:

- Não, qué carne!

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Certa vez, minha mãe perguntou a uma vizinha que lidava com a roupa lavada:
- Passando roupa, vizinha?
- Não, dona dolores, tô só drobando!.

Então, sempre que estamos fazendo alguma coisa de forma mal feita, apressada, lembramos a frase “Tô só drobando!


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Uma outra história que vem do tempo em que a gente ainda morava na fazenda Santa Helena. Era um tempo de vida dura aquele. A família era grande. Minha irmã mais velha, a Toti, ajudava minha mãe no serviço de casa e no cuidado dos irmãos pequenos. Um dos menores era a Cecília, uma menina franzina, de saúde delicada, que devia estar com dois anos, talvez.
Pois, bem. Certa feita, apareceu por lá o João Lourenço, meu cunhado. Dirigia uma caminhonete, se não me engano. Mas dava para perceber que ele havia tomado umas a mais nesse dia. Falava com alguma dificuldade. E, nas mãos, trazia uma lata de biscoitos.
Ao entregar a lata, fez questão de frisar:

- Lata pra Toti, bolacha pra Cecília.

Lembro que ele repetiu a frase várias vezes, enquanto entrava no carro.


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Certa vez, um dos freqüentadores, grande gozador, aprontou uma boa com meu pai, logo ele que não tinha lá muito senso de humor.
Foi uma brincadeira com uma imitação de bosta. Isso mesmo: bosta. A imitação era bem feita, formando um montinho, todo enroladinho, como se alguém tivesse acabado de “cagar” aquilo. Pois bem, o gozador trouxe aquele troço e colocou num lugar bem visível do boteco. E para dar mais realismo, teve o cuidado de jogar uns pingos de água em volta. Montada a cena, ele chamou meu pai:
- Seu Garcia, venha ver a sujeira que fizeram aqui.

Meu pai ficou uma fera. Começou a botar a culpa num menino que estivera pouco antes no boteco. “Fué aquel moleque, aquele pretinho, desgraciado”, e foi por aí a fora.
Em seguida, foi até os fundos da casa e voltou com uma pá. Mas quando se preparava para recolher a “sujeira”, o autor da brincadeira se antecipou:
- Deixa que eu pego, Seu Garcia.
Nossa! Pode-se imaginar a cara do pobre do pai. Todo mundo se divertiu muito, mas ele não gostou nem um pouco.


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Tem a história do Zé Galinha. Era um espanhol que vivia numa casa vizinha. Ele aparentava ter uns quarenta anos. Era magro como um palito e tinha o aspecto de quem havia sobrevivido a uma doença grave. Não tinha emprego e se defendia ganhando uns trocados no jogo. Passava muitas horas no boteco à espera de um otário que se dispusesse a jogar umas partidinhas de dominó ou damas. De vez em quando, Zé Galinha comprava uma coisinha ou outra no boteco. Certo dia, ele pediu um vidro de perfume e disse: “Seu Garcia, vou levar o perfume e pago outro dia. Se eu esquecer de pagar, o senhor me cobra.”
A reação de meu pai foi imediata:
- Se vai esquecer, então não leva!

O pai pegou o vidro de volta e guardou.

A cena foi presenciada por meu cunhado, João Lourenço, e era muito divertido vê-lo contar a história, entre sonoras gargalhadas, enquanto picava o fumo e enrolava o cigarro.


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Certa vez, lá em casa, havia-se comprado uma grande quantidade de uvas maduras e uma maneira de aproveitá-las foi fazer vinho. Meu pai invocou antigas lembranças de seu tempo na Espanha e meteu a mão na massa. Bem, de um jeito ou de outro, o vinho foi feito e engarrafado, mas a lembrança que guardo é de que a família mesmo não quis saber dele. O vinho foi, então, colocado à venda no boteco. O legal era que as pessoas tomavam e até gostavam. Teve um que gostou tanto que exclamou: “Sabe, seu Garcia, o vinho está tão bom que tem até sementinhas!” Pronto: estava ali mais uma das frases que entraram para o acervo das frases inesquecíveis da família.

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Perto de casa, morava a família do “Seu” Bogoni. Era um pessoal originário do sul (Santa Catarina ou Rio Grande do Sul). Eles criavam umas vacas soltas pelo bairro, e volta e meia a gente ia na casa deles tomar leite tirado na hora.
O “Seu” Bogoni era um homem educado, de maneiras polidas, que aparentava uns cinquenta anos de idade. O filho mais velho era dono do único jornal da cidade. Uma das filhas era freira e dois garotos eram nossos colegas de brincadeiras.
Um dia, o dito cujo tomava uma cervejinha no boteco em companhia de um cidadão. Estavam ali jogando uns dedos de prosa fora, como acontece nessas ocasiões. Era uma cena rara, porque o Bogoni havia entrado poucas vezes no Boteco, ainda mais para tomar cerveja!
Mas o fato é que, naquele dia, lá estava ele e sem querer ia protagonizar um diálogo que haveria de se tornar imortal. Naquela conversinha mole, lá pelas tantas, o cidadão disse:
- Sabe, “Seu” Bogoni. Eu sou tão sem-vergonha que não sou capaz de tomar uma cerveja sozinho?

E o Bogoni comentou :
- Imagine!

Era uma conversa banal, e só não foi esquecida para sempre porque minha mãe estava por ali e viu a cena. Aliás, em certas horas do dia, ela costumava chegar de mansinho e ficar encostada no batente da porta que ligava a casa ao boteco. Ficava ali, observando o movimento, com aqueles olhos miudinhos, espertos como os de um de passarinho.
E isso bastou para que o diálogo entrasse para a galeria das frases inesquecíveis. De vez em quando, ela soltava: “Sabe que eu sou tão sem-vergonha que não sou capaz de tomar uma cerveja sozinho? Imagine!
Com uma graça que era só dela!


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Às vezes, boteco também era palco de cenas de faroeste. Foi o que aconteceu um belo dia. Na verdade, era quase de noitinha e já estava meio escuro. O boteco estava cheio de gente. De repente, alguém gritou: “Um tatu!”
Por incrível que pareça, um tatu estava passando bem em frente ao boteco. Para quem não sabe, o tatu é um mamífero desdentado, caracterizado pela couraça articulada, revestida de placas ósseas.
Mas o fato é que esse mamífero passava por ali naquela hora. Vai ver que estava perdido, coitado. Foi o azar dele.
No mesmo momento em que gritaram “Um tatu!”, de dentro do boteco saiu um cidadão de revólver em punho. Era um cara que administrava uma fazenda do governo que ficava nas imediações (e que a gente conhecia apenas por Fazenda do Estado).

Foi um tiro só, e o tatu estrebuchou.

O azar do tatu foi a sorte de alguém que levou o pobre do animal para o jantar.

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Outra dessas cenas que faziam festas da garotada aconteceu num domingo. Estava por lá um bêbado aprontando a maior confusão. Por precaução, o boteco havia sido fechado, de modos que o sujeito estava do lado de fora. Ficou ali um tempão, falando palavrões, xingando, provocando, mas ninguém se atrevia a enfrentá-lo, pois o cara era um sujeito enorme.
A coisa estava nesse pé, quando parou um caminhão que vinha fazer uma entrega (apesar de ser domingo). O motorista, sem saber o que estava acontecendo, desceu do caminhão, e foi na direção do boteco. Pensava bater na porta, entregar a encomenda e ir embora na paz do Senhor.
Que esperança! O bagunceiro veio pra cima dele. Parecia que finalmente ele tinha achado um coitado pra dar umas porradas, pois o motorista era um cara baixinho. Não devia ter mais de um metro e meio de altura. Lembrava a cena do Davi e o Golias. E mais uma vez ia ficar provado que tamanho não é documento.
O motorista, pequenininho, vendo que não ia dar para encarar o grandão no mano-a-mano, não teve dúvida: foi até o caminhão e voltou com um facão na mão. E deu no grandão. Mas tomou o cuidado de não cortar, nem furar. Apenas, bateu com o facão de lado. Bastou um único golpe. Vendo o sangue escorrer, o grandão desmoronou. Até chorou.
Rapidamente a bebedeira passou e ele se mandou. Foi um alívio geral.
Quanto ao motorista, correu para o caminhão e sumiu. À noite, bateram à porta. Quem era? Ele mesmo, o nosso herói, que vinha entregar o pedido de macarrão àquela hora achando que podia estar sendo procurado pela polícia. Recebeu muitos agradecimentos pela bravura, disse adeus e foi-se embora.


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Dona Dolores apreciava um copinho vinho. Mas isso era coisa de almoço de domingo, dia de frango com polenta. Nos outros dias, ela se contentava com uma pinguinha. No final da tarde, ela pegava uma xícara com um pouco de café frio, ia até o boteco e misturava com uma dose da branquinha. Se havia fregueses, ela encostava no batente da porta e me fazia um sinal com o dedo, um gesto que eu conhecia muito bem. Eu, então, disfarçadamente, pegava a xícara, fazia a mistura e devolvia para ela. Na moita, sem ninguém perceber.
Nas vezes em que acompanhei minha mãe a uma consulta médica, observei que ela fazia questão de mencionar esse hábito, torcendo para o médico não proibir. Mas ela saía sempre tranquila do consultório: “Tudo bem, dona Dolores, a senhora pode continuar tomando sua cachacinha com café”.


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E tem aquela do “El sonido por el olido”, que dona Dolores contava em espanhol.
Aconteceu na Espanha, há muito, muito tempo atrás.
Um sujeito chegou à cidade e andou para cá e para lá. Lá pelas tantas, começou a sentir fome, mas tinha no bolso apenas uma pequena moeda, insuficiente para pagar uma refeição.
Ele então se postou na porta do restaurante e ali ficou, parado, curtindo o cheiro gostoso da comida.
Lá pelas tantas, o garçom se aproximou e exigiu que ele pagasse.
- Pagar o quê, se eu nem comi!
- Não comeu, mais cheirou!, disse o garçom.

O sujeito então tirou a única moedinha que trazia no bolso e bateu com ela no batente da porta de ferro, perguntando: “Está ouvindo?”
- Sim, respondeu o garçom.
- Pues, bien, el sonido por el olido.

E foi em frente. Dessa vez, ele havia se saído bem.
Mais adiante, quando passava na frente de um banco, ele notou, lá no fundo, um monte de moedas. Olhando para todo aquele dinheiro, ele se lembrou do ditado que diz que “dinheiro atrai dinheiro”.
Pegou, então, sua moedinha e começou a bater na grade, na esperança de que o dinheiro do banco viesse para ele. Mas, para sua surpresa, e sua mão e rolou pelo piso, indo se juntar ao monte, lá no fundo.
Desiludido, ele concluiu: “El dinero atrae el dinero, pero el mucho atrae el poco


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Quando eu tinha dez anos, fui passar umas férias em Santa Cruz do Monte Castelo, onde João Lourenço havia comprado umas terras. Quando lá cheguei, a mata estava sendo derrubada e os primeiros pés de café estavam sendo plantados.
Os bichos chegavam até perto da casa. Um dia, por exemplo, um bando de javalis passou pelo quintal e por muita sorte não toparam com o Gilberto, de apenas um ano, que estava por ali brincando no chão. À noite era possível ouvir o ronco de onças nas imediações.
A família morava numa pequena casa de madeira. A vida lá não era nada fácil. Pelo contrário. Me lembro do feijão carunchado e do pão amanhecido que havia para comer. No começo foi difícil engolir. Passados alguns dias, porém, eu já estava acostumado e me diverti muito.
Guardo boas lembranças dessas férias. Uma das recordações que me ficou na memória aconteceu no fim de um dia em que havia ajudado na plantação do café. Era uma tarefa legal: era só ajeitar a mudinha na cova e colocar um pouco de terra em volta, e pronto.
À tardinha, trabalho encerrado, ficamos ali, sentados, observando os cafeeiros plantados, com aquela agradável sensação do dever cumprido.
O sol já descambava lá para os lados do poente e eu notei que em volta dele havia um círculo luminoso. E, com ar de muita sabedoria, sapequei uma tirada filosófica: “Círculo perto, chuva longe!”

João Lourenço, ao meu lado, rebateu de imediato:
- Vira essa boca pra lá, menino!


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A lembrança política mais antiga que guardo ocorreu no dia da morte do Getúlio Vargas. Nesse dia - talvez porque a escola tivesse dispensado os alunos – fomos dar uma daquelas longas caminhadas que a gente fazia pela região. Nesse dia estávamos eu, Helinho, Nelson e Ari. Se havia mais alguém, não lembro. Munidos de estilingue e canivete, e acompanhados do King, o cachorro inseparável, a gente se achava os reis do pedaço.
Lá pelas tantas, cruzamos com dois peões que estavam trabalhando na enxada. Alguém do grupo falou para o que estava mais próximo que o Getúlio tinha se matado. O sujeito, então, gritou para o amigo dele:
- Ei, fulano, dá um peido aí que o Getúlio morreu!

Pobre Getúlio, bem que você merecia uma homenagem melhor!


2 comentários:

  1. Estou adorando ler um pouco da história da família! Muito enriquecedor para mim! Terminei a primeira parte e não pude deixar de fazer um comentário... vovó Dolores também nos contou sobre aqueles dois ``causos``, sobre a cobra ela disse que era uma "urutu cruzeiro" porque ela tinha uma cruz na cabeca. Me lembro dela contando a história, tinha tanta emocão! Disse que na ocasião, ela ergueu os bracos, parece que jogou longe uma marmita (não me lembro para quem ela estava levando) e chamou por algum santo (que também não me lembro qual era), e que naquele exato momento a tal cobra se desenrolou e foi embora! Contava como sendo um verdadeiro milagre. Quanto ao "sopro" no ouvido, passei muitos anos com medo disso, já tinha até me esquecido. Espero que continue no meu esquecimento! Sempre acreditei nas histórias que a vovó me contava, até hoje.
    Alexandra.

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  2. Poi é, Alexandra, tantas historias interessantes. Se a gente não registrar, elas vão cair no esquecimento. Se vc souber de outros "causos", me mande que acrescento ao texto. Bjs.

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