terça-feira, 15 de setembro de 2015









OS INCAS 

  A  parte  meridional  do  continente americano divide-se de norte a sul pela formidável cadeia de montanhas que constitui a Cordilheira dos Andes, com mais de 6.400 km de extensão. Entre seus elevados picos destaca-se o Aconcágua, medindo 6.960 metros de altura, a mais alta montanha do continente. Sobre esses montes, eternamente cobertos de neve, vive o condor, a maior de todas as aves voadoras.

A América do Sul, como as demais partes do continente, era habitada por um incontável número de povos. Os dois mais importantes, por ocasião da chegada dos europeus, eram os incas e os tupi-guaranis. Estes, divididos em muitos grupos tribais, dominavam grande parte das terras que acompanham o litoral atlântico. Os incas, no lado oposto do continente, haviam constituído um vasto império que incluía uma grande parte dos povos andinos. Mas, da mesma forma que os povos mesoamericanos, ambos os povos tiveram sua história interrompida em virtude da chegada dos invasores europeus. 

I. As civilizações pré-incaicas
Há cerca de 15 000 anos antes do presente, grupos nômades já perambulavam o litoral do Peru, deixando algumas marcas de sua passagem, que os arqueólogos hoje pesquisam incessantemente.
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Llama, um dos poucos animais encontrados nos Andes.
No quarto milênio antes da era cristã, teve início a agricultura e a domesticação da lhama, o único animal de tração existente na América antes da chegada dos europeus. No milênio seguinte, apareceu o milho, o que fez com que a agricultura ganhasse preponderância em relação às demais atividades de subsistência.
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Agricultura de terraços
Desde então, em meio a guerras constantes, a população cresceu e os povoados se multiplicaram, gravitando em torno de centros religiosos, onde foram erguidos templos e pirâmides. A partir deles, desenvolveu-se, no primeiro milênio a.C., (uma primeira) a cultura denominada Chavin, que se tornou o centro irradiador da civilização para toda a região andina, constituiu-se na “matriz da civilização andina”. No início da era cristã(primeiro milênio de nossa era), a unidade alcançada pela cultura Chavin nos Andes se fragmentou e deu lugar a vários outros centros culturais. Simultaneamente, ocorreu a ampliação das áreas cultivadas, mediante o processo de construção de terraços nas encostas da cordilheira e do prolongamento dos canais de irrigação até as terras áridas do litoral.
A partir do século VIII, destacaram-se dois centros de difusão cultural. Um deles, o mais importante, foi a cidade de Tiauhanaco, nas margens do lago Titicaca, cujas ruínas impressionam pelos enormes blocos de pedra, pesando até 100 toneladas, empregados na construção dos palácios e dos templos. O outro centro foi a cidade de Houari, localizada mais ao norte. Ambas se tornaram capitais de grandes Estados, que desapareceram no século XII, por razões ainda desconhecidas. Mas sua cultura seria herdada pelos impérios Chimu e Inca, que se formaram em seguida.
Os fundadores do Império Chimu se estabeleceram na costa setentrional, onde implantaram uma civilização “hidráulica”, característica que decorria do desenvolvimento de uma agricultura irrigada, por meio de canais e de aquedutos. Iniciaram, no século XIV, um processo de expansão que os levou ao controle de uma longa extensão do litoral andino. Mas, em meados do século seguinte, o Estado chimu perdeu a independência ao ser absorvido pelo Império Inca. 

II. A CIVILIZAÇÃO INCA

 Quando os espanhóis iniciaram a conquista do Peru, em 1532, os incas constituíam um império que compreendia a região andina do Equador, do Peru, da Bolívia, do norte do Chile e do noroeste da Argentina. Seu centro era a cidade de Cusco. Estendendo-se por quatro mil quilômetros de extensão, chegou a comportar uma população estimada em 10 milhões de habitantes.
reprodução
Império Inca em sua máxima extensão
Era, porém, um império recente, pois os incas, a exemplo dos astecas, seus contemporâneos, tinham aparecido há pouco tempo na história dos povos pré-colombianos. E da mesma forma que o império asteca, o império inca também foi o herdeiro de longa tradição cultural que se havia desenvolvido anteriormente nas regiões onde se estabeleceu. 

1. Evolução política do Império Inca 

Os incas apareceram tardiamente na história dos povos andinos. Não há consenso entre os historiadores quanto à sua origens. É possível que fossem uma das tribos que compunham o povo quíchua, cujo idioma era falado numa ampla região dos Andes. No século XIII, estavam estabelecidos na região de Cusco, onde fundaram um pequeno Estado. A tradição conservada por esse povo atribuía a um seu ancestral mítico, Manco Capac, descendente do Sol, o papel de fundador do Estado incaico. Ele e seus sucessores adotaram o título de Inca (nome de uma antiga divindade andina) e a maskapaicha, a franja escarlate que usavam sobre a fronte, como símbolo do poder supremo.
Inicialmente, os incas fizeram parte de uma confederação de cidades existentes na região, que acabaram por dominar, iniciando, então o movimento expansionista. Pouco depois de 1463, impuseram-se à civilização Chimu, que dominava o litoral. Em seguida, incorporaram os Caras (no atual Equador), os Aimarás, na região do Titicaca, bem como as regiões setentrionais da Argentina e do Chile. A sucessão de vitórias e conquistas levou, ao cabo de algumas décadas, à formação do Império Inca. De maneira semelhante ao papel desempenhado pelos astecas, no México, os incas promoveram a unificação política dos diversos povos andinos e, ao mesmo tempo, fizeram a síntese de uma longa tradição cultural.
O grande monarca foi Tupac Iupanqui (1470-1493), o décimo Inca. Além de grande conquistador, foi também um brilhante organizador: criou um serviço de mensageiros, ligando as diversas províncias, e estruturou uma burocracia e um exército capazes de manter a “paz inca” sobre uma grande parte dos Andes. Enfim, soube melhor do que qualquer outro, antes ou depois dele, “aliar harmoniosamente o saber organizador à violência criadora”. (Henri Favre) Tupac Iupanqui morreu, em 1493 (um ano depois da chegada de Colombo à América), e foi sucedido pelo filho que ele próprio havia designado como herdeiro.
Seu sucessor tomou o título de Huaina Capac e reinou até 1528. Apesar do longo reinado, não conseguiu repetir a mesma expansão gloriosa de seu pai. Ao contrário, teve de enfrentar demoradas guerras nas distantes fronteiras do norte. Por isso, é bem possível que seu reinado assinale, não o apogeu, mas o início da decadência do poder inca. De fato, ao morrer (talvez assassinado), deixou o império numa terrível crise de sucessão, disputado por dois pretendentes, Huáscar e Ataualpa. Dessa divisão se aproveitou o conquistador espanhol, que nesse momento já vinha rondando o litoral do império.

2. Organização do Império

No Império Inca, a sucessão se dava dentro da família imperial, mas o herdeiro do trono não era necessariamente um filho do Inca, mas sim aquele que fosse julgado o mais capaz entre seus parentes. Por isso, ao final de cada reinado, seguia-se uma disputa entre os herdeiros até que um deles tomava para si a maskapaicha. Segundo H. Favre, (Por isso, se pode dizer que) “o império renascia a cada novo imperador”.  Uma vez vitorioso na disputa, o novo imperador comparecia ao Templo do Sol onde era entronado. Tinha poderes absolutos, e ninguém podia encará-lo de frente.
No início os imperadores era vistos como filhos do Sol, mas o último deles, Huaina Capac, se fez reconhecer como a própria encarnação do Sol e foi “adorado como deus vivente” (H. Favre). O Estado Inca era, portanto, uma teocracia.
Os incas concebiam o império dividido em quatro partes, a partir de duas linhas imaginárias que se cruzavam no centro da capital, Cusco, “umbigo do mundo”. E lhe davam o nome de Tawantinsuyu, ou seja, “as quatro terras”. Cada uma dessas partes se dividia, para fins administrativos, em frações decimais, formando unidades de 10 mil, mil, cem e finalmente dez famílias. Um funcionário era encarregado de cada uma das quatro unidades, enquanto outros eram responsáveis pelas unidades inferiores, constituindo uma pirâmide administrativa em cujo topo estava o Inca.
Um importante aspecto da organização do império foram as comunicações. Nesse sentido, o império foi dotado de um gigantesco sistema de estradas e pontes, cuja extensão foi calculada em 16 mil quilômetros! Eram basicamente duas vias principais, ambas começando no atual Equador, estendendo-se paralelamente para o sul. A primeira delas acompanhava a planície costeira e se prolongava até o Chile. A outra, seguindo através do planalto, alcançava o norte da Argentina. As duas estradas comunicavam-se entre si por inúmeras estradas secundárias que ligavam o planalto ao litoral.
Em pontos determinados das estradas, existiam os tampu, nome dados aos grandes estabelecimentos que serviam simultaneamente de postos de correio, de manufaturas e de armazéns. Graças às estradas e ao correio, o império contava com um eficiente serviço de comunicações, que permitia não só receber ou enviar informações com rapidez, como mandar rapidamente tropas para qualquer parte (do império) onde a ordem estivesse sendo ameaçada.

3. A base econômica
A população andina tirava sua subsistência da agricultura. Esta dependia, em boa parte, dos incontáveis terraços construídos nas encostas da cordilheira e de um complexo sistema de canais para trazer a água de fontes que se localizavam, muitas vezes, a quilômetros de distância. Calcula-se em mais de quarenta o número de espécies vegetais que, por meio de um paciente trabalho de seleção, o campesinato andino chegou cultivar: abóbora, vagem, algodão, pimenta, milho, batata, batata-doce, mandioca, amendoim, abacate, entre outros. 

Quase toda a população era formada de camponeses. Eles estavam agrupados em comunidades, chamadas ayllu, que constituíam a célula básica da sociedade andina (semelhante, em muitos aspectos, ao calpulli asteca). O ayllu reunia grupos familiares que tinham em comum laços de parentesco e a crença de descender de um mesmo antepassado mítico, simbolizado pelo totem. Cada uma dessas comunidades aldeãs tinha seu chefe, chamado curaca, responsável pela distribuição da terra, pela organização dos trabalhos coletivos e pela resolução dos conflitos.

É interessante notar que o ayllu era uma unidade auto-suficiente: possuía terras em diferentes partes do Império, e desse modo explorava mais de um dos muitos micro-climas existentes nos Andes. Com isso, era possível obter uma variedade de produtos, fato que contribuiu para inibir o desenvolvimento do comércio.

A terra era propriedade do Estado e, por meio dos curacas, entregue em usufruto às famílias, para o cultivo. Cada casal, ao se constituir, recebia um lote, do tamanho necessário para sua subsistência. Por sua vez, as terras de pastoreio eram usadas coletivamente. Nelas criavam-se a alpaca, que fornecia a lã, e a lhama, usada para transporte. 
A criação desses animais fez dos Andes a única região da América pré-colombiana onde se praticou o pastoreio. Explorando simultaneamente a agricultura, o pastoreio e o artesanato, essas comunidades aldeãs era praticamente auto-suficientes. No Império Inca não havia comércio, nem moedas. 

4. O trabalho gratuito e obrigatório 

No Império Inca, não havia escravidão. Havia, porém, os “dependentes perpétuos” (yana), ligado aos curacas e ao Inca. Mas eles não podem ser considerados escravos, pois não eram objeto de troca ou venda. E sua importância econômica era absolutamente marginal.
O que realmente contava no entanto era a mita, uma antiga obrigação de prestar trabalho ao curaca e aos deuses locais, e se revestia de um sentido religioso. Quando se formou o Tawantinsuyu essa obrigação passou a ser prestada também ao Inca, o Filho do Sol. A mita recaía sobre todos os habitantes casados, os quais deviam não só cuidar das terras e dos rebanhos, que o Inca possuía em todas as partes do império, mas também desempenhar as funções que lhes fossem designadas: no exército, nas manufaturas, na construção e manutenção de estrada, de pontes, edifícios ou qualquer outro. Os trabalhadores precisavam revezar-se de forma a prestar um trabalho contínuo.
Por causa disso, era preciso manter um controle preciso da população, de modo que sempre fosse possível saber a quantidade de mão-de-obra disponível. Em função dessa necessidade, procediam-se a recenseamentos minuciosos. Eram realizados periodicamente por funcionários especializados, que se serviam de um sistema numérico decimal, e registravam os resultados utilizando um sistema formado de cordinhas com diferentes cores e tipos de nós, denominados quipu.

5. O sistema redistributivo
O Estado mantinha armazéns onde era guardado o produto obtido através da mita que a população prestava ao Inca.[1] De fato, como foi dito, este reservava para si uma parte das terras do império. Toda a produção nelas obtida era enviada aos referidos armazéns. Os estoques acumulados destinavam-se ao abastecimento do exército e para socorrer a população, em caso de desastres naturais (inundações, estiagens). Na repartição de comida e roupas, dava-se prioridade aos anciãos, às viúvas e aos órfãos.

6. O aparelhamento intelectual e tecnológico dos incas

 Diferentemente dos povos da Mesoamérica, as civilizações dos Andes não conheceram a escrita. Apesar de os quipu informarem “acontecimentos, dados estatísticos, batalhas, colheitas e expedições”, eles não eram mais do que um sistema de contabilidade. Na verdade, toda a literatura produzida era transmitida oralmente, tarefa para a qual havia os especialistas, chamados amawta, cujos relatos constituíram a matéria-prima para as crônicas registradas depois que os espanhóis introduziram a escrita. (Cf. H. Favre e J. Murra)
Quanto aos conhecimentos científicos, a civilização inca conheceu um calendário, dividido em doze meses. Entretanto, enquanto o ano era solar, os meses eram lunares, o que ocasionava uma diferença de alguns dias entre os dois cômputos, e não se sabe exatamente como os sábios incas procediam para harmonizar os dois sistemas. Os cálculos necessários eram feitos com base num sistema de numeração decimal, utilizando-se uma espécie de ábaco primitivo. Os resultados eram anotados segundo o sistema quipu.
Contavam com uma metalurgia relativamente adiantada para o padrão pré-colombiano. Sabiam trabalhar o cobre e o bronze (uma liga de cobre e estanho), e até mesmo a platina. Desconheciam, porém, o ferro, a roda e o torno, e como meio de transporte tinham apenas um animal muito limitado, a lhama. E ainda utilizavam a pedra para a confecção de suas armas e ferramentas.
Com esse escasso arsenal técnico, foram, todavia, capazes de constituir um império dotado de cidades, palácios, templos, estradas, contabilidade e organização, diante do qual os espanhóis ficaram vivamente impressionados.

 7. A invasão espanhola e o fim do Império Inca

Essa brilhante civilização, cujas realizações deixaram impressionados os espanhóis, mostrou-se, no entanto, muito frágil na hora decisiva. Havia descontentes entre os povos dominados, e alguns deles se aliaram aos invasores. A sucessão imperial não se fazia segundo um critério tranqüilo; ao contrário, abria uma luta entre os pretendentes. E foi justamente num desses momentos que chegou o espanhol, em 1532.
Apesar da bravura com que lutaram, os incas foram incapazes de resistir diante de Francisco Pizarro e sua gente, possuídos por uma fúria conquistadora que não vacilava diante de nenhum obstáculo. A resistência durou quarenta anos e se encerrou, em 1572, quando foi morto, Tupac Amaru, o último imperador. Era o fim do Tawantinsuyu, o Império Inca.
Antes mesmo dessa data, porém, o Peru já fazia parte, desde 1543, da administração colonial espanhola, constituindo o Vice-Reino do Peru.





CIVILIZAÇÕES PRÉ-COLOMBIANAS. O legado.

Quando da chegada dos europeus, o continente americano estava inteiramente ocupado por inúmeros povos que apresentavam enormes diferenças culturais entre si.

1) Na Mesoamérica, destacavam-se os maias e os astecas, herdeiros, por sua vez, das inúmeras contribuições deixadas pelos que os antecederam. Fizeram uso de alguns metais. Desenvolveram calendários, sistemas de escrita e de numeração.. O legado dessas civilizações está presente a) na população dos países da região, diretamente descendentes de maias e astecas; b) nas cidades que construíram, cujas ruínas são que hoje objeto de estudos e visitação; c) nas obras artísticas, literárias e científicas, que sobreviveram à conquista; d) nos alimentos que cultivavam e que passaram a ser consumidos incorporados universalmente, tais como o milho, tomate e o cacau.

Numa grande parte dos Andes, encontrava-se império inca, que unificou a longa tradição cultural anterior e ao mesmo tempo unificou os diversos povos e culturas existentes na região, por meio de estradas e de um serviço de comunicações. Desenvolveram o calendário, dividido em doze meses, e trabalhavam o cobre e o bronze, e até mesmo a platina. Seu legado inclui a) a numerosa população que mantém viva a tradição pré-colombiana, inclusive falando idiomas de seus ancestrais, tais como o quíchua e o aimará; b) na criação da alpaca e da lhama, que continuam, ainda hoje, a fornecer lã e servir de meio de transporte para as populações andinas; c) nas ruínas de suas imponentes cidades, tais como Cusco e Machu-Picchu; d) no uso de alguns produtos de sua agricultura, destacando-se a batata, cujo consumo se difundiu por quase todo o mundo.

Vista de Machu Picchu, no Peru


3) No território que formou o Brasil, encontravam-se inúmeros povos, entre os quais os tupis-guaranis. Viviam dos produtos fornecidos pela natureza e de uma incipiente agricultura. O legado indígena, presente em nossa cultura, é muito  grande: a) nos muitos povos indígenas presentes no Brasil, conservando, em grau maior ou menor, a autonomia étnica e cultural; b) na alimentação dos brasileiros que incorporou muitos produtos e hábitos das sociedades indígenas, destacando-se a mandioca e seus diversos derivados (a farinha, o polvilho, o mingau, a tapioca, o beiju, etc.), o caju, o mamão, o abacaxi, o cará, o milho, a abóbora, o amendoim, a erva-mate, etc.; c) na longa lista de plantas e ervas conhecidas dos índios, e que ultimamente vem sendo disputadas pelas indústrias farmacêutica e de cosméticos; d) em costumes da população, como é o caso do hábito do banho diário ou de dormir em rede; e) nas muitas palavras de origem indígena presentes em nosso vocabulário; f) em certas técnicas, tais como os trançados de fibras, os instrumentos musicais e de pesca, a canoa cavada no tronco, o pilão, etc.

Algumas heranças tiveram efeitos problemáticos. Uma delas é a prática da coivara (a queimada), que os indígenas brasileiros utilizavam na limpeza da terra para suas pequenas roças, e que passou a ser utilizada pelos agricultores brasileiros em larga escala. Outra é o consumo do tabaco, que entre os povos pré-colombianos era feito em ocasiões cerimoniais. Difundido por todo o mundo, o consumo do tabaco deu origem a um poderoso setor da indústria, causando inconvenientes que vêm sendo apontados cada vez com mais ênfase.

Sem pretender esgotar a lista do legado das civilizações pré-colombianas, é preciso acrescentar a contribuição que deram (e ainda dão) ao fornecer valores de vida, padrões estéticos e modelos de sociedade, cujos méritos vêm sendo cada vez mais reconhecidos em nossos dias.



quinta-feira, 10 de setembro de 2015


OS  BASCOS

Análise genética desvenda origem da população mais enigmática da Europa


A linguagem e as características genéticas particulares do povo basco no norte da Espanha e no sul da França intrigaram antropólogos por décadas.
Uma teoria postulava que eles descenderiam de uma mistura de caçadores pré-agrícolas.
Atualmente, um estudo publicado no jornal científico PNAS sugere que eles descendem de antigos fazendeiros que se misturaram com caçadores locais antes de se isolarem por cerca de um milênio.
Os bascos possuem uma língua única – euskara – que não tem relação com nenhuma outra na Europa ou no mundo.
Área ocupada pelos bascos na divisa entre Espanha e França
Habitantes de uma região montanhosa da Europa atlântica, eles também apresentam padrões genéticos distintos em relação a seus vizinhos na França e na Espanha.
Por essa razão, acreditava-se que eles seriam descendentes de um grupo humano mais antigo.
Mattias Jakobsson da Universidade de Uppsala, na Suécia, analisou genomas de oito esqueletos humanos da idade da pedra da região de El Portalón, em Atapuerca, norte da Espanha.
Esses indivíduos viveram entre 3.500 e 5.500 anos atrás, após a transição para a agricultura no sudoeste da Europa.
Os resultados mostram que esses antigos fazendeiros ibéricos são os ancestrais mais próximos dos bascos de hoje.

Para o oeste
Comparações com outros antigos fazendeiros europeus mostram que a agricultura foi trazida para a península ibérica pelos mesmos grupos de imigrantes que a introduziram no norte e no centro da Europa. Esses pioneiros se expandiram do Oriente Médio, atravessando a Europa sete mil anos atrás, inaugurando o período conhecido como Neolítico.
Uma vez que os fazendeiros se assentaram, eles se misturaram com caçadores-coletores – os descendentes das pessoas que viveram na Europa durante o último período glacial.
Os indivíduos de El Portalón tinham mais ancestrais caçadores-coletores do que fazendeiro pioneiros da Alemanha, Hungria e Espanha que viveram milhares de anos antes.
O novo estudo também de alguma forma explica diferenças entre os bascos e seus vizinhos na França e na Espanha.
Depois da miscigenação inicial entre fazendeiros e caçadores, os ancestrais dos bascos se isolaram dos outros grupos que os rodeavam – possivelmente devido a uma combinação de geografia e cultura.
"É difícil especular, mas temos trabalhado com historiadores bascos e está claro pelo registro histórico que aquela área era muito difícil de se conquistar", afirmou Jakobsson à BBC News.
Isso significa que a área basca não foi afetada pelas migrações subsequentes que moldaram os padrões genéticos em outras partes da Europa.

Migrações e isolamento

Um desses movimentos ocorreu na Idade do Bronze, quando pastores das estepes da periferia leste do continente viajaram em massa para o oeste. Essa migração provavelmente espalhou línguas indo-europeias por toda a Europa – afetando as partes central e norte do continente em maior medida que o sul.
Enquanto os genomas de indivíduos franceses e espanhóis mostravam evidências dessas características do leste, os bascos não as tinham.
Outra migração serviu para diferenciar ainda mais os bascos de seus vizinhos. No ano 711, um exército muçulmano invadiu a península ibérica a partir do norte da África – iniciando uma ocupação que durou mais de 700 anos.
Novamente, enquanto uma pequena quantidade de ancestrais do norte da África e da África subsaariana pode ser detectada nos espanhóis, ela não foi constatada em relação aos bascos.
Estudos anteriores mostraram que populações nativas da ilha italiana da Sardenha são mais similares geneticamente com os fazendeiros pioneiros da Europa central.
Os habitantes da Sardenha também ficaram isolados após a transição agrícola, mas eles não têm os ancestrais caçadores-coletores que caracterizam os bascos.
Paradoxalmente, enquanto a arqueologia mostra que os primeiros fazendeiros da Europa provinham do Oriente Médio, as populações que vivem naquela região hoje não se assemelham geneticamente aos europeus.
Isso acontece porque padrões genéticos encontrados na Turquia e no Oriente Médio foram modificados por migrações de áreas vizinhas depois do período Neolítico.
A proporção de ancestrais caçadores-coletores varia ao longo da Europa, atingindo o pico de 30% entre as populações da Estônia e da Lituânia. Mas não há mais povos indígenas europeus "puros". Aparentemente eles foram assimilados por migrantes do Neolítico, que provavelmente eram mais numerosos
Acesso  em 10/set/2015


terça-feira, 8 de setembro de 2015

ELIZABETH  II


Dia  9  de  setembro  de  2015 vai ser uma data histórica para a rainha Elizabeth II e para o Reino Unido. Vejamos por quê.
A rainha Elizabeth II nasceu em Londres em 21 de abril de 1926. Ela não é pouca coisa; ao contrário, ela é muito poderosa. Para começar, ela é rainha do Reino Unido, formado pela Inglaterra Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. Além disso, ela 

- é também a rainha de quinze outros estados independentes conhecidos como Reinos da Comunidade de Nações.
- é chefe da Commonwelth (Comunidade de nações), formada por 53 países, quase todos ex-colônias inglesas.
- -é comandante-chefe das Forças Armadas do Reino Unido.
- e para completar é também a Chefe Suprema da Igreja da Inglaterra e alguns reinos em ela ainda possui o título de Defensora da Fé.
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Rainha Elizabeth  II

A primeira rainha inglesa com esse nome foi Elizabeth I, que foi também a primeira mulher a governar a Inglaterra (que incluía a Irlanda) e exerceu um poder praticamente absoluto; governou desde 1558 até sua morte, em 1603.
O Estado que a segunda Elizabeth governa é bem diferente. Hoje, não há mais absolutismo, mas sim um país democrático, sob a forma parlamentarista. E nesse Estado, Elizabeth ocupa “apenas” a função de chefe de Estado. A função de governar (ou seja, exercer de fato as tarefas de governar), embora seja oficialmente um dever seu, ela delega a um primeiro-ministro, seguindo uma tradição iniciada há 200 anos por seus antecessores. O primeiro que exerceu o cargo de primeiro-ministro em seu reinado foi ninguém menos que o veterano político Winston Churchill.
O primeiro-ministro é sempre o líder de um dos dois grandes partidos ingleses que vence a eleição. Depois de eleito, ele deve comparecer à presença da rainha, para o beija-mão e receber oficialmente o convite para exercer o cargo de chefe do governo da rainha, e torna-se então o novo primeiro-ministro.

Elizabeth II ascendeu ao trono em 6 de fevereiro de 1952, após a morte do pai, o rei George VI. Nesse momento a Grã-Bretanha ainda tinha um império monumental, mas nas décadas seguintes o número de membros do império britânico variou bastante já que certos territórios se tornaram independentes e outros se tornaram repúblicas. Atualmente, Elizabeth II ainda é rainha da Jamaica Barbados, Bahamas Granada Papua-Nova Guiné, Ilhas Salomão, Tuvalu, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, Belize, Antígua e Barbuda e São Cristóvão e Nevis.
Ela se casou com Philip Mountbatten, cinco anos mais velho do que ela, em 1947. Com o casamento, ele se tornou “Sua Alteza Real” e duque de Edimburgo. Uma curiosidade: assim como a esposa, ele também trineto da rainha Vitória.

Recentemente, Elizabeth transferiu alguns de seus deveres para o Príncipe Charles, mas ela permanece no poder, com cerca de 430 compromissos durante o ano e concede ajuda a mais de 600 programas e organizações de caridade.
Elizabeth II é a mais velha monarca britânica de todos os tempos. O recorde pertencia, antes, à rainha Vitória (que viveu entre 1819 e 1901). Viveu, portanto, 81 anos, sete meses e vinte e nove dias. Faleceu em 1901. Essa idade, sua trineta Elizabeth II alcançou no dia 20 de dezembro de 2007. E dia 9 de setembro de 2015, Elizabeth II deverá superar sua trisavó, no recorde do mais longo reinado.

Em 2013, Elizabeth celebrou outro grande evento. Seu neto William e sua esposa, Kate Middleton, a Duquesa de Cambridge, tiveram seu primeiro filho, George Alexander Louis – conhecido oficialmente como Sua Alteza Real Príncipe George de Cambridge – em 22 de julho de 2013. Em 2 de maio de 2015, ambos tiveram uma filha, Charlotte Elizabeth Diana.


sábado, 29 de agosto de 2015





O Brasil durante a República Velha (1889-1930), era um país basicamente agrário. Assim, os chefes políticos de cada localidade geralmente eram grandes proprietários de terras. O mais comum era esses fazendeiros serem chamados de “coronéis”.  Era um título que geralmente se dava aos grandes proprietários de terras, mesmo que nunca tivessem prestado serviço militar. O coronel dominava a política local, principalmente nas cidades menores, agindo como se fosse autoridade e praticavam muitos abusos. 
Como forma de resposta às injustiças dos coronéis, no Nordeste brasileiro, surgiu o cangaço. A palavra vem de “canga”, nome da peça que é colocada no pescoço do boi e que o prende ao carro ou arado. O cangaceiro era assim chamado porque o armamento pesado que levava sobre os ombros assemelhava-se a uma canga.  

O cangaço apareceu no Nordeste por volta de 1870, época em que a região vivia os efeitos da grande seca. Os cangaceiros agiram em quase todos os estados nordestinos.

Além da revolta contra as injustiças sofridas pelos pobres, o cangaceiro era, muitas vezes, motivado pelo desejo de vingança. Foi o que ocorreu no caso dos dois mais famosos cangaceiros: Antônio Silvino e Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Silvino tinha 21 anos quando seu pai foi assassinado. Resolvido a fazer justiça com as próprias mãos, foi autor de alguns crimes antes de ingressar no cangaço. Seu bando chegou a contar com 60 homens armados. Em 1914, foi ferido e preso. O nome verdadeiro de Silvino era Manoel Batista de Moraes.

Lampião, o "rei" do cangaço
O mais famoso foi Virgulino Ferreira da Silva. Ele havia nascido em 1900, em Vila Bela (atual Serra Talhada), no estado de Pernambuco. Quando tinha 20 anos, também para vingar a morte do pai assassinado, ingressou no cangaço, acompanhado de dois irmãos. Dois anos depois, já era o chefe do bando, ao qual deu nova organização e impôs disciplina rigorosa.
Seu bando chegou a contar com cerca de 200 cangaceiros e se dividia em grupos menores, que podiam agir simultaneamente em diferentes lugares. Lampião dominou o sertão nordestino durante cerca de duas décadas. Ele fazia alianças com alguns coronéis, protegendo os que eram seus aliados e perseguindo seus opositores. 

Os cangaceiros agiam com grande crueldade. Apesar das perversidades que cometia, Lampião conseguiu a admiração de muitos sertanejos por sua valentia e coragem para enfrentar poderosos coronéis. Virgulino morreu metralhado em junho de 1938; Corisco, amigo de Lampião, foi liquidado dois anos depois. A morte dos dois cangaceiros pôs fim ao cangaço.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

ALBERT SCHWEITZER

Existem personalidades que são com frequência homenageados, como Nelson Mandela, Albert Eistein e outros. Mas há aqueles que também deixaram uma marca importante de sua passagem entre nós e são quase desconhecidos da maioria das pessoas. Um deles foi Albert Schweitzer, que se notabilizou como humanista cristão. Falemos um pouco dele.

Nascido na Alemanha, diplomou-se simultaneamente em Teologia e Filosofia, e tornou-se professor da própria universidade em que estudara. Paralelamente, dedicava-se à música erudita, destacando-se como organista e exímio intérprete de Bach.

Não satisfeito com tudo isso, aos trinta anos, em 1905, começou a estudar medicina, motivado pela situação de penúria dos habitantes das colônias europeias na África, particularmente carentes de assistência médica. Como médico, poderia atuar mesmo sem poder usar as palavras.

Seis anos depois, já formado, partiu para Lambaréné, no Gabão, para trabalhar num missão evangélica, que havia aberto um posto de saúde e necessitava de médicos.

Ali, deparou-se com absoluta falta de recursos, mas não desanimou: improvisou um consultório num antigo galinheiro! Apesar do clima, da falta de higiene, das dificuldades com o idioma, da carência de remédios e de instrumentos de trabalho, ele continuou atendendo seus clientes, numa média de 40 por dia. E ainda sobrava tempo para ensinar o Evangelho para os habitantes locais!

Schweitzer na África em foto de 1933

Durante a Primeira Guerra Mundial, Albert Schweitzer e sua família foram levados para a França, como prisioneiros de guerra (França e Alemanha estavam em campos opostos). Com o final da guerra, Schweitzer circulou por diversos países da Europa, realizando palestras e dando concertos, com o objetivo de angariar fundos para retomar sua obra na África. Tornou-se conhecido em muitos círculos intelectuais do continente europeu.

E após sete anos de permanência na Europa, em 1924, partiu novamente para Lambaréné. Dessa vez, levava consigo médicos e enfermeiras, uma das quais era sua própria esposa. Construíram um hospital. Contando, agora, com a colaboração de uma equipe de profissionais, Schweitzer pôde dedicar parte de seu tempo a escrever livros, fazer palestras e dar concertos, cuja renda servia para manter o hospital.

Em 1952, recebeu o Pêmio Nobel da Paz, como homenagem a uma intensa vida inteiramente dedicada ao propósito de servir ao bem comum. Faleceu em Lambarené, no Gabão, aos 90 anos de idade.