quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

DO  FEUDALISMO  AO  CAPITALISMO


  Uma  população  em  expansão
 No ano 800, a população europeia era de aproximadamente 18 milhões de pessoas. Até o ano 1100, esse número aumentou em cerca de 8 milhões de habitantes, saltando para quase 26 milhões.  Em 1200, alcançou a marca de 34 milhões de habitantes. Isso significa que em quatrocentos anos a população da Europa praticamente dobrou.


A diminuição das invasões a partir do século X gerou um clima de estabilidade social sem precedentes no mundo feudal. O número de mortes por epidemias também diminuiu  consideravelmente.
Sem disputas contra invasores e momentaneamente livres das epidemias, o número de nascimentos começou a superar o de mortes, ocasionando o aumento populacional. O crescimento da população trouxe consigo a ampliação do mercado de consumo e da oferta de mão de obra. Dessa forma, cresceu a demanda por alimentos.
Esse problema foi resolvido por meio da ampliação das áreas de cultivo, mediante o uso de áreas até então ocupadas por florestas e pântanos.
Ao mesmo tempo, algumas técnicas de cultivo foram aperfeiçoadas, elevando a produtividade do trabalhador rural. O resultado da combinação desses dois fatores foi o aumento da produção agrícola. Entretanto, isso não foi sufi ciente para alimentar a população crescente dos feudos.
Os senhores feudais começaram então a expulsar de suas terras o excedente populacional. Banidos dos feudos, geralmente sob a alegação de quebrarem alguma regra, muitos servos viram-se obrigados a mendigar ou a saquear nas estradas.
Enquanto isso ocorria com a população mais pobre, os filhos de senhores feudais viram-se na contingência de abandonar a propriedade paterna. Para garantir a supremacia dos feudos e não dividir suas posses, os senhores feudais fizeram do filho primogênito o único herdeiro. Assim, os outros filhos eram praticamente expulsos das terras, tendo de encontrar novos meios para sobreviver.
Essas circunstâncias acentuavam o clima de disputa entre os nobres cavaleiros. Nessa época, ocorriam também combates e torneios que transformavam os campos em verdadeiras arenas. Foi necessária a intervenção da Igreja, instituindo períodos para essas disputas, como forma de regulamentá-las e evitar que a produção agrícola fosse comprometida.
Esse ambiente, dominado pelo espírito guerreiro, favoreceu o movimento das Cruzadas, promovido pela Igreja.

2. As Cruzadas
No século XI, grande parte dos domínios árabes, incluindo a Terra Santa — que englobava Jerusalém e outros lugares onde Jesus viveu e pregou sua doutrina —, caiu em poder dos turcos seldjúcidas, povo vindo do Oriente que se convertera ao islã. Diferentemente dos árabes, que nunca se opuseram às peregrinações dos cristãos à Terra Santa, os turcos tornaram-nas mais difíceis.
Diante disso, o papa Urbano II, falando aos nobres, na França, em 1095, fez-lhes um apelo pela libertação da Terra Santa. Por trás do apelo religioso do papa estava o interesse da Igreja em aumentar seu prestígio e restabelecer a união da cristandade, rompida pelo Cisma do Oriente, em 1054.
A adesão dos nobres ao apelo papal foi imediata. Para eles, as expedições à Terra Santa seriam uma forma de conquistar terras, prestígio e riquezas no Oriente. Afinal, muitos estavam empobrecidos por causa do direito de primogenitura.
Assim, no ano seguinte, as Cruzadas tiveram início. Costurando cruzes vermelhas sobre as roupas, nobres, camponeses, pobres, mendigos e até mesmo crianças partiram da Europa em grandes expedições militares com o objetivo de tomar a Terra Santa dos muçulmanos.
A Primeira Cruzada (1096-1099) conseguiu conquistar Jerusalém após três anos de lutas. A vitória permitiu a criação de alguns Estados cristãos na região, cujas terras foram distribuídas como na Europa feudal. Entretanto, pouco tempo depois, a Terra Santa foi novamente tomada pelos muçulmanos.
Outras sete Cruzadas foram realizadas, a última delas em 1270. Todas fracassaram. Apesar disso, como consequência delas, o Mediterrâneo foi reaberto à navegação europeia e os contatos culturais e comerciais entre o Ocidente e o Oriente foram restabelecidos.
As Cruzadas contribuíram ainda para aumentar a circulação de pessoas e riquezas na Europa. Por meio delas, o comércio se fortaleceu e acabou estimulando o povoamento das cidades.

3. O renascimento comercial e urbano
A partir das Cruzadas, a mudança mais visível na Europa ocidental ficou conhecida pelo nome de renascimento comercial e urbano. Ele significou o desenvolvimento do comércio e das cidades, que tiveram pouca importância nos séculos anteriores.
O comércio voltou a ter importância crescente. Nesse processo, destacou-se o comércio praticado nas feiras realizadas nas vilas ou perto dos castelos e outros lugares fortificados. Inicialmente periódicas, as feiras tornaram-se permanentes, propiciando o aparecimento de núcleos urbanos, os chamados burgos.
Novas cidades desenvolveram-se a partir dos burgos, enquanto cidades antigas, que não haviam desaparecido completamente, ganharam vida. As cidades atraíam cada vez mais artesãos, que nelas se fixavam para viver de seu ofício.
Atraíam também servos camponeses que as buscavam para tentar vender os seus excedentes agrícolas ou para viver como trabalhadores livres. Atraíam, ainda, comerciantes de sal, ferro e inúmeras outras mercadorias, provenientes de regiões distantes.

As moedas voltam a circular
As atividades comerciais restabeleceram o uso regular da moeda. Logo, diferentes moedas circulavam nas feiras e nos núcleos urbanos, provenientes de vários feudos e regiões da Europa, já que os grandes senhores feudais podiam cunhar as próprias moedas. Essa variedade criou a necessidade do câmbio, isto é, da troca de moedas. Os que se dedicavam a ele eram chamados cambistas.
Mais tarde, os cambistas passaram também a realizar empréstimos e a fazer outras operações financeiras. Assim, surgiram os bancos (do italiano banca, palavra que designava o assento ocupado pelo cambista). Durante muito tempo, os banqueiros mais importantes eram os da Península Itálica, onde, inicialmente, o comércio era mais intenso. Isso porque, desde séculos antes das Cruzadas, algumas cidades italianas, como Gênova e Veneza, mantinham relações comerciais com o Império Bizantino e com os árabes.

A burguesia entra em cena
As cidades que se formaram ao pé das fortificações estavam estreitamente vinculadas aos senhores feudais. Esses nobres, proprietários das terras onde ficavam os burgos, cobravam pesadas taxas dos que neles habitavam.
No início, toda a população do burgo era denominada burguesia; posteriormente, esse termo passou a designar apenas comerciantes, banqueiros e alguns artesãos enriquecidos.
Com o aumento do comércio e o fortalecimento da burguesia, os burgos começaram a reivindicar algum grau de liberdade em relação ao senhor feudal. Alguns desses burgos obtiveram pacificamente autorização para negociar sem pagar aos senhores nenhuma tributação. Isso era conseguido por meio de um documento conhecido como Carta de Franquia, que os moradores do burgo compravam ao senhor feudal ou a um eclesiástico (quando as terras onde ficava a cidade pertenciam à Igreja). Em muitos casos, porém, os burgos tiveram de lutar, unindo-se aos reis, a fim de conseguir dos senhores feudais a licença (franquia) para efetuar suas atividades nas cidades.

Os trabalhadores urbanos se organizam
Nas cidades, a produção artesanal e o comércio tornaram-se tão intensos que aqueles que se dedicavam a essas ocupações passaram a se organizar em associações com o intuito de regular suas atividades. As chamadas corporações de ofício dos artesãos controlavam a produção e impediam a concorrência desleal, fixavam preços, salários e padrões de qualidade. Entre todas essas funções, destacava-se a de reservar o mercado da cidade aos seus membros, além de torná-los mais fortes para negociar com os senhores feudais.
Da mesma forma que as corporações dos artesãos, formaram-se associações de comerciantes ou guildas, como medida para regular o mercado no interior dos burgos. Garantir a proteção contra os comerciantes de regiões distantes era uma das principais funções das guildas.
Essas associações de artesãos e comerciantes negociavam também os impostos com os senhores feudais. Quando a organização interna das cidades adquiria completa autonomia em relação aos feudos, as associações passavam a cuidar da administração das cidades livres.

Religião e negócios
A moral católica medieval tinha como verdadeiro que “é difícil não pecar quando se exerce a profissão de comprar e vender” (Le Goff, Jacques. Mercadores e banqueiros da Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 1991. p. 71.). Por isso, a Igreja procurou coibir as ambições dos homens de negócios, preocupados com o lucro, impondo o justo preço e condenando a usura.
A noção do justo preço excluía qualquer ideia de lucro e devia levar em conta apenas o custo das matérias-primas e um pequeno ganho pelo trabalho prestado. Além da tentativa de exploração pelo preço, era considerado usura todo negócio que implicasse pagamento de juros — por exemplo, o empréstimo.
Esse ideal foi inicialmente adotado por artesãos e comerciantes, cujas atividades eram rigorosamente controladas pelas corporações. Na prática, porém, não era mais possível à Igreja aplicar suas imposições com rigor. A Igreja foi então obrigada a fazer concessões. Além disso, os homens de negócios sempre encontravam meios de contornar as interdições religiosas.

4. O comércio de longa distância
As Cruzadas deram grande impulso às atividades comerciais no Mediterrâneo. Vejamos como isso se deu:
• Cidades da Península Itálica, como Veneza e Gênova, passaram praticamente a monopolizar o contato com o Oriente. Os produtos orientais trazidos pelos comerciantes da Península Itálica eram revendidos para outras regiões da Europa. A Península Itálica tornou-se, dessa forma, o principal centro comercial europeu.
• Outro importante polo de atividades comerciais desenvolveu-se simultaneamente no norte da Europa, na região de Flandres (norte da atual Bélgica). Desse polo, o comércio se propagou para o mar Báltico, chegando à Rússia. Mais tarde, um grupo de cidades do norte da Europa formaram uma liga comercial chamada Hansa Teutônica, que monopolizou o comércio nessa vasta região.
• Ligando Flandres (norte) à Península Itálica (sul), desenvolveu-se uma rota terrestre que travessava a região francesa de Champanhe. Nesse percurso realizavam-se, durante todo o ano, grandes feiras, que serviam de ponto de encontro aos comerciantes europeus.

Desse modo, entre os séculos XIII e XIV, formou-se na Europa uma verdadeira teia de rotas por onde começou a fluir um intenso e próspero comércio.

5. Primeiros passos do capitalismo mercantil
O renascimento comercial e urbano, que ocorreu a partir do século XI, introduziu muitas novidades na organização da sociedade feudal. Surgiram diferentes grupos sociais, como a burguesia e os trabalhadores assalariados.
Criaram-se novas formas de enriquecimento por meio do crescimento das atividades bancárias e do comércio de mercadorias. Ganharam importância o comércio em grande escala e a produção para o mercado.
Essas novidades indicavam o lento aparecimento de um novo sistema econômico: o pré-capitalismo.
Uma das características do novo sistema era o fato de sua economia estar baseada na moeda e não na troca de produtos, como ocorria antes. Aos poucos, ele ganhou espaços cada vez maiores na ordem feudal e começou a entrar em choque com ela. A antiga nobreza, rica em terras, adaptava-se com dificuldade à nova economia. Enquanto isso, comerciantes e banqueiros enriqueciam e começavam a disputar poder com os senhores feudais.
A partir do século XV, com o início das Grandes Navegações, o pré-capitalismo se transformaria lentamente em capitalismo mercantil. Com este, o capital investido no comércio passou a dominar a produção, e o trabalho assalariado se expandiu. No lugar das corporações de ofício, surgiram as manufaturas. Pouco a pouco, a ordem feudal entrou em crise e o capitalismo mercantil se tornou dominante em toda a Europa ocidental.

6. A fome, a peste e a guerra
A dissolução do feudalismo foi apressada no fim da Idade Média por uma sucessão de acontecimentos que gerou a chamada “crise do século XIV”. Vejamos quais foram esses acontecimentos:
• A produção de alimentos sempre foi deficiente no sistema feudal, de modo que a fome era uma ameaça constante. Entre 1315 e 1317, a situação se agravou e provocou surtos de fome em vários lugares da Europa.
• A falta de estrutura das cidades para suportar o aumento populacional, associada ao problema da fome, acabou facilitando a propagação de uma série de epidemias. A pior de todas foi a chamada peste negra, que assolou a Europa entre 1348 e 1350 e matou cerca de um terço da população.
• Inúmeras guerras também contribuíram para aumentar a mortandade e tornar a situação na Europa ainda mais difícil. A maior delas foi, sem dúvida, a Guerra dos Cem Anos (1337--1453), travada entre as monarquias da Inglaterra e da França.

Sob a ação dos três flagelos do século XIV – a fome, a peste e a guerra – a população diminuía e a mão de obra se tornava cada vez mais escassa. Isso levou os senhores feudais a aumentar a exploração dos camponeses. Em consequência, houve inúmeras revoltas, nas quais os camponeses rebelados queimavam propriedades e assassinavam senhores feudais. Em algumas cidades, ocorreram desordens e motins.
A crise abalou também a estrutura de poder descentralizada característica do feudalismo, que não conseguia gerar respostas para os problemas que surgiam. Os governos centralizados começaram então a ganhar força, pois conseguiam arbitrar os conflitos inevitáveis em uma sociedade cada vez mais complexa.
Foi nesse contexto que se deu o fortalecimento do poder dos reis e a consequente formação do Estado moderno. Desse modo, pode-se dizer que as transformações da Baixa Idade Média – desenvolvimento do comércio e das cidades, uso da moeda, aparecimento da burguesia, fortalecimento do poder do rei – condenaram o feudalismo à dissolução. A essas mudanças pode-se acrescentar o Renascimento, no século XIV, e as Grandes Navegações, no século XV, todas apontando para o advento dos chamados tempos modernos.



quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A  GRANDE  NAÇÃO  TUPI


 Os primeiros habitantes avistados pelos portugueses ao desembarcar em terras americanas adotaram, em geral, uma atitude amistosa em relação aos estrangeiros. A esses grupos que falavam entre si línguas parecidas e tinham certos hábitos semelhantes, os portugueses chamaram tupis.

Os portugueses não sabiam, no entanto, que os tupis não eram um só grupo, mas englobavam numerosos povos, com grande diversidade cultural e religiosa.
Foi exatamente com esses indígenas do litoral que os portugueses mantiveram maior contato e aprenderam as primeiras regras de sobrevivência no continente que então começavam a explorar.
No interior do território viviam também diversos outros povos, chamados pelos conquistadores de tapuias.
Estes eram mais hostis, falavam uma língua difícil de ser compreendida e rejeitavam qualquer tipo de aproximação. Por isso, o contato que os portugueses mantiveram com eles foi bem menor.

2. As origens
Existem diferentes explicações para a procedência dos tupis que povoavam extensas regiões da América conquistada pelos portugueses. No início do primeiro milênio a.C., provavelmente eles habitavam o sudoeste da Amazônia, entre os atuais territórios de Rondônia, do Amazonas no Brasil e da Bolívia. Daí, teriam iniciado um lento movimento migratório em várias direções.
Outra versão dos estudiosos sugere que os tupis eram, possivelmente, originários dos contrafortes dos Andes ou do planalto do trecho médio dos rios Paraguai e Paraná, de onde se deslocaram para o litoral atlântico, seguindo para o norte.
Sabe-se, porém, que eles englobavam vários povos, como tupinambás, tamoios, tabajaras, carijós, potiguaras e guaranis, estes nas regiões meridionais.

3. Divisão do trabalho
Os tupis se organizavam grupos formados por unidades menores, as aldeias, que mantinham entre si interesses comuns. Nas aldeias havia normalmente de 500 a 600 pessoas, que viviam em grandes habitações (ou malocas) coletivas, cuja estrutura de madeira recebia uma cobertura de folhas de palmeira. Em geral, o número de habitações variava por aldeia de 4 a 7, cada uma abrigando um grande grupo familiar. A poligamia era prática comum entre os chefes e os guerreiros mais destacados.
A divisão do trabalho era feita de acordo com o sexo e a idade. As mulheres, além dos afazeres domésticos, ocupavam-se da agricultura e da coleta e colaboravam na pesca. Encarregavam-se da preparação do cauim – bebida fermentada à base de mandioca – e de muitas atividades artesanais, como tecer redes, trançar cestos, fazer tapetes etc.
Além da derrubada da mata e da preparação da terra para o plantio, os homens ocupavam-se da caça, da pesca e do fabrico de canoas, armas de guerra e instrumentos de trabalho. Deviam erguer as habitações, defender a aldeia, tomar parte na guerra e executar os prisioneiros, se sua tribo praticava a antropofagia. Também eram os homens que exerciam a função de curandeiros.
As crianças ajudavam os pais em algumas atividades e realizavam tarefas compatíveis à sua idade, como cuidar dos irmãos menores ou espantar os pássaros das plantações no período que antecedia a colheita.

4. Uma agricultura rudimentar
Os tupis viviam da coleta, da caça e da pesca, dominavam a cerâmica e praticavam uma agricultura rudimentar. Essas atividades implicavam na exploração dos recursos do meio ocupado por eles até o esgotamento. Por isso, de tempos em tempos (geralmente de três a cinco anos), os grupos indígenas eram forçados a se deslocar para outra região em busca de melhores condições de vida.
A agricultura era uma atividade predominantemente feminina, excetuando-se a derrubada das árvores e a preparação da terra para o plantio, que cabiam aos homens da tribo. A limpeza do terreno era feita por meio da queimada, prática denominada coivara, mais tarde adotada pelos colonizadores. Os principais produtos da lavoura indígena eram a mandioca, o milho e a batata-doce. Mas sua dieta alimentar, variando de uma região para outra, incluía feijão, amendoim, pimenta, caju, banana e outros vegetais.
Os tupis não conheciam os metais. Em certas atividades, usavam machados de pedra e utensílios de madeira, de dentes, conchas etc. Suas armas de guerra eram arcos, flechas, lanças e escudos feitos de madeira. Alguns povos faziam uso da zarabatana, um tubo longo por meio do qual disparavam dardos envenenados. Para obter fogo, friccionavam uma peça de madeira dura contra outra, mais macia. Construíam suas canoas com troncos ou cascas de árvores e não utilizavam nenhum animal para transporte ou tração.

5. Morubixaba: o chefe de aldeia
Segundo o historiador Julio Cezar Melatti, a maior unidade política entre os tupis consistia na aldeia. Cada aldeia era politicamente independente, reconhecendo apenas a autoridade de seu chefe. Por isso, às vezes, ocorriam conflitos armados entre as aldeias de um mesmo grupo.
Toda aldeia tinha um chefe, geralmente chamado de morubixaba. Para desempenhar essa função, os membros da comunidade escolhiam, entre outras qualidades quem tivesse uma grande parentela e revelasse coragem, ponderação e dotes oratórios. Nos períodos de normalidade, o chefe tinha poucas atribuições, mas durante as guerras esperava-se que demonstrasse valentia e capacidade de comando, sob pena de ser afastado da função.
No entanto, o poder político não estava concentrado no morubixaba. Na verdade, a instituição política mais importante entre os tupis consistia no “conselho dos principais”, formado pelos chefes das grandes famílias e pelos homens mais respeitados da aldeia, como os guerreiros. Esse conselho tomava as principais decisões, como a mudança de seu povo para outro território, as estratégias empregadas em caso de guerra e a definição de alianças com outros grupos.
O processo de escolha do chefe e a determinação de suas obrigações variavam de um grupo para outro. Mas um aspecto era comum às diversas sociedades indígenas: a condição de chefe não conferia privilégios ao escolhido.
Do ponto de vista religioso, os tupis tinham crenças que combinavam traços do animismo e do politeísmo. Acreditavam, por exemplo, que, além do ser humano, todos os outros seres da natureza – como árvores, animais etc. – também eram dotados de alma (animismo). Adoravam alguns deuses (politeísmo), como tupã, identificado com o raio e com o trovão, e acreditavam na existência da vida após a morte e na reencarnação; temiam os gênios, os demônios e os espíritos dos mortos, causadores de catástrofes, que precisavam ser apaziguados por meio de oferendas.
O pajé, ou xamã, espécie de mago e sacerdote, presidia as cerimônias religiosas e era capaz de entrar em contato com forças invisíveis, adivinhar o futuro e curar as doenças.


É impossível saber hoje, com precisão, quantos indígenas havia no Brasil por ocasião da chegada dos portugueses. As estimativas variam de 1 milhão a 10 milhões. Uma coisa, porém, é certa: seja qual for esse número, ele baixou continuamente até chegar a cerca de 70 ou 80 mil, em 1957, conforme cálculos do antropólogo Darcy Ribeiro. Mas, nas últimas décadas do século XX, graças a uma política pública de proteção, a população indígena voltou a crescer. De acordo com o Censo Demográfico 2010, a população indígena residente no Brasil era de quase 900 mil pessoas.

sábado, 13 de janeiro de 2018

INCAS, uma civilização nos Andes


 A primeira sociedade complexa a florescer no território do atual Peru, por volta do ano 1000 a.C., ficou conhecida como chavin, denominação dada por historiadores e arqueólogos que estudam a região. Dela, sabe-se que era uma sociedade agrícola –cuja principal atividade econômica consistia no cultivo do milho – e que dominava também a técnica de construção de templos, pirâmides e canais de irrigação.

Ruínas de Machu Picchu, cidade construída 
pelos incas no século XV, no topo de 
uma montanha, a 2400 metros de altitude, 
no atual Peru.
No primeiro milênio de nossa era, a sociedade chavin deu lugar a outras sociedades. Ao longo desse período, a região conheceu muitas melhorias. Por exemplo: a ampliação dos canais de irrigação até as terras áridas próximas do litoral e a expansão das áreas cultivadas nas encostas da cordilheira. Essa melhoria era obtida por meio da construção de terraços, degraus formados por pedras na vertical e terra na parte horizontal.
A partir do século VIII, dois centros de difusão cultural ganharam destaque. O mais importante deles foi a cidade de Tiauhanaco, nas margens do Lago Titicaca; o outro, a cidade de Houari, localizada mais ao norte. Ambas se tornaram centros de grandes sociedades, que desapareceram no século XII por razões ainda desconhecidas. Sua cultura seria herdada pelos impérios Chimu e Inca, que se formaram em seguida. Os chimus estabeleceram-se na costa setentrional, onde desenvolveram a agricultura irrigada por meio de canais e aquedutos. Deram início, no século XIV, a um processo de expansão que os levou ao controle de longa área do litoral andino. Em meados do século seguinte, no entanto, foram absorvidos pelo Império Inca e perderam sua independência.

2. Um império florescente
Quando, em 1532, os espanhóis iniciaram a conquista da região onde hoje se encontra o Peru, os incas constituíam um império grandioso, cujo centro era a cidade de Cuzco. Acredita-se que, nessa época, dentro de suas fronteiras viviam, cerca de 10 milhões de pessoas. Uma das características interessantes dessa sociedade é que, ao dominar os diversos povos andinos, os incas fizeram a síntese das tradições culturais da região.


Primeiras conquistas
Os incas apareceram tardiamente na história dos povos andinos. Não há consenso entre os historiadores quanto às suas origens. É possível que eles fossem um dos grupos que compunham o povo quíchua, cujo idioma era falado numa ampla região dos Andes. Mas admite-se que, no século XIII, eles viviam ao redor de Cuzco.
A partir de certo momento, os incas começaram a dominar diversas cidades da região, dando início à sua expansão. Depois de 1463, subjugaram a sociedade chimu, que controlava o litoral. Em seguida, incorporaram os caras (no território que hoje corresponde ao Equador) e os aimarás, nas margens do Lago Titicaca, bem como as regiões do norte da Argentina e do Chile atuais.
A sucessão de conquistas resultou, em algumas décadas, na formação do Império. A tradição inca atribuía a um de seus ancestrais, Manco Capac, o papel de fundador do Império. Ele e seus sucessores passaram a adotar o título de inca, nome de uma antiga divindade andina.
Um de seus governantes mais importantes foi Tupa Yupanqui, que criou um serviço de mensageiros que ligava as diversas partes do Império e estruturou uma burocracia e um exército capazes de manter o controle inca sobre grande parte dos Andes. Yupanqui morreu em 1493.
Seu filho e sucessor, Huaina Capac, governou até 1528. Durante mais de trinta anos de governo, Huaina enfrentou prolongadas guerras nas fronteiras do norte. Ao morrer, o trono passou a ser disputado por Huáscar e Atahualpa, dois de seus filhos. Essa divisão facilitaria a conquista do Império pelos espanhóis quatro anos mais tarde.

Os filhos do Sol
Os incas tinham um governo forte e centralizado. A sucessão no poder se dava na família do governante, mas o herdeiro não era necessariamente filho do Inca, e sim o parente considerado mais capaz para assumir o cargo. Por isso, ao final de cada governo, havia grande disputa entre os herdeiros. Uma vez vitorioso, o novo Inca comparecia ao Templo do Sol, onde era entronizado. Investido de poderes exclusivos, ninguém podia encará-lo.
No início, os incas eram vistos como filhos do Sol. Mas Huaina Capac, por exemplo, se fez reconhecer como a própria encarnação do Sol e foi adorado como deus vivo. O Estado inca constituía, portanto, uma teocracia, como havia sido o Egito na Antiguidade.
O território do Império era dividido em quatro partes por duas linhas imaginárias que se cruzavam no centro da capital, Cuzco, a qual – acreditavam – era o “umbigo do mundo”. Cada uma dessas partes se subdividia, para fins administrativos, em frações decimais, nas quais a população era agrupada em unidades de 10 mil, mil, cem e, por fim, dez famílias. Havia um funcionário que se encarregava de cada uma das quatro unidades. As unidades inferiores também eram dirigidas por burocratas. Todos esses funcionários formavam uma pirâmide administrativa em cujo topo ficava o Inca.

Lavradores, pastores e artesãos
A agricultura, principal atividade econômica, dependia em boa parte dos terraços construídos nas encostas da cordilheira e de um sistema de canais para transportar água de fontes localizadas, muitas vezes, a quilômetros de distância. Os incas cultivavam mais de quarenta espécies vegetais, entre elas, abóbora, vagem, algodão, milho, batata, batata-doce, mandioca, amendoim e abacate.
A maioria da população era formada por camponeses, agrupados em comunidades chamadas ayllu – a célula básica da sociedade inca. O ayllu reunia pessoas ligadas por laços de parentesco e pela crença de descender de um mesmo antepassado mítico, simbolizado por um totem. Cada comunidade tinha seu chefe, o curaca, responsável pela distribuição da terra, pela organização dos trabalhos coletivos e pela resolução de conflitos.
Os integrantes do ayllu recebiam lotes de terra em diversas partes do Império, o que tornava possível explorar as diferentes condições de clima e de solo para obter grande variedade de produtos.
A terra era propriedade do Inca, que, por meio dos curacas, a entregava às famílias para cultivo: cada casal, ao se constituir, recebia um lote. As terras destinadas ao pastoreio, por sua vez, eram usadas coletivamente. Nelas criavam-se a alpaca, que fornecia lã, e o lhama, utilizado como meio de transporte. A domesticação desses animais fez dos Andes a única região da América pré-colombiana onde se praticou o pastoreio. Explorando, ao mesmo tempo, a agricultura, o pastoreio e o artesanato, as comunidades incas eram praticamente autossuficientes. Não havia moedas.

Os servos do Inca
A escravização não era praticada entre os incas, mas havia os chamados “dependentes perpétuos” (yana), ligados aos curacas e ao Inca. Eles não podiam ser trocados ou vendidos, como os escravos, e tinham importância econômica secundária. Paralelamente, havia a mita, antiga obrigação de prestar trabalho ao curaca e aos deuses locais, revestida de caráter religioso. Depois da formação do Império Inca, essa obrigação passou a ser prestada também ao Inca, o filho do Sol.
A mita recaía sobre todas as pessoas casadas, que deveriam cuidar das terras e dos rebanhos do Inca e ainda desempenhar as funções que lhes fossem designadas: no exército, nas oficinas de trabalhos artesanais, na construção e manutenção de estradas, pontes e edifícios.
Tudo isso exigia rigoroso controle da população, para se chegar com precisão à real quantidade de mão de obra disponível. Em virtude dessa necessidade, era comum proceder-se a recenseamentos minuciosos, realizados periodicamente por funcionários especializados. Para garantir os resultados dos censos, esses funcionários empregavam um sistema numérico decimal e registravam os dados em um instrumento denominado quipo, formado por cordinhas de diferentes cores e com vários tipos de nós.
Em algumas áreas do Império havia armazéns apropriados para guardar os produtos obtidos pela mita. Os estoques acumulados destinavam-se ao abastecimento do exército ou ao auxílio da população, em caso de desastres naturais. Nessa eventualidade, os mais velhos, as viúvas e os órfãos eram os primeiros a se beneficiar da distribuição alimentos e de roupas.

Cultura e técnica
Entre os incas, a tradição cultural era transmitida oralmente, tarefa reservada aos chamados amawta, cujos relatos serviram de matéria-prima para as crônicas registradas depois que os espanhóis introduziram a escrita entre eles.

Conhecimentos técnicos dos incas
O calendário inca dividia o ano em doze meses. No entanto, apresentava uma curiosa particularidade: enquanto o ano era solar, os meses eram lunares, o que ocasionava a diferença de alguns dias entre as duas contagens.
Os incas dominavam perfeitamente a técnica de obtenção do bronze (uma liga de cobre e estanho) e da platina e sabiam trabalhar o ouro e a prata. Não conheciam o ferro, a roda e o torno. Para o fabrico de armas e ferramentas utilizavam a pedra.
Com esse arsenal técnico, a sociedade inca construiu um império dotado de cidades, palácios, templos, estradas e estrutura administrativa, que provocou a admiração dos espanhóis, estimulando sua cobiça por metais preciosos.
Diferentemente dos povos da Mesoamérica, os incas não criaram uma escrita formal. O quipo desenvolvido por eles era eficiente, mas tratava-se de um sistema de contabilidade. Certamente o grau de complexidade alcançada pela sociedade inca iria exigir, em mais ou menos tempo, registros escritos, e os incas acabariam tendo a própria escrita. Mas esse desenvolvimento foi interrompido pela chegada dos conquistadores europeus.

O Império destruído
Apesar da grandiosidade de seu império, a sociedade inca acabou revelando-se bastante frágil diante do invasor espanhol. Para isso contribuíram:

• o cavalo e as armas de fogo e de ferro usadas pelos espanhóis;
• o descontentamento dos povos subjugados pelo Império que acabaram se aliando aos invasores;
• a disputa pelo poder entre os irmãos Huáscar e Atahualpa depois da morte do Inca Huaina Capac, em 1528, pois a luta entre os dois príncipes prosseguia em 1532, quando os espanhóis, chefiados por Francisco Pizarro, chegaram à região.

A resistência inca durou quarenta anos e só foi vencida em 1572, com o assassinato de seu último governante, Tupac Amaru. Porém, desde 1543, o território do Império já tinha sido incorporado pela administração colonial espanhola, constituindo o Vice-Reino do Peru.










quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

MAIAS E ASTECAS:  povos  da  Mesoamérica

A  Mesoamérica
 Por Mesoamérica entende-se a região onde se desenvolveram as primeiras sociedades complexas do continente americano. Ela engloba territórios da América Central e também do extremo sul da América do Norte. Para os estudiosos, a importância da Mesoamérica está ligada mais aos aspectos histórico-culturais do que aos geográficos. Como veremos mais adiante, foi aí que viveram dois povos de culturas extremamente ricas e complexas: os maias e os astecas.

Pedra do Sol asteca

2. Olmecas e teotihuacanos
Uma das primeiras sociedades complexas de que se tem notícia na Mesoamérica foi a dos olmecas, surgida 3 mil anos atrás. Eles ocupavam as regiões que correspondem hoje ao México e à Costa Rica. Dotados de uma cultura bastante rica, os olmecas desenvolveram um sistema próprio de escrita, construíram as primeiras cidades do território e ergueram várias pirâmides. Por volta de 400 a.C., depois de sofrer sucessivas invasões de outros povos, a sociedade olmeca entrou em processo de desintegração.
Entre 700 e 600 a.C., floresceu também na região a sociedade teotihuacana, assim chamada porque se formou em torno da cidade de Teotihuacán, que significa cidade dos deuses. Os teotihuacanos tornaram-se conhecidos por construir pirâmides enormes, como a do Sol e a da Lua (com 65 e 43 metros de altura, respectivamente). Também se notabilizaram por erguer muitos templos dedicados a diversos deuses, como Quetzalcoatl (serpente de plumas), símbolo da fecundidade da terra.

3. Os maias
Em 700 a.C., aproximadamente, outra importante sociedade surgiria na Península de Iucatã, situada entre a América do Norte e a América Central: a dos maias. Durante o período de sua formação, essa sociedade herdou vários elementos das culturas dos povos que habitavam a região, como os olmecas. Por volta de 317 de nossa era, os maias já ocupavam extensas regiões do que conhecemos hoje como México, Honduras e Guatemala.
A sociedade maia destacou-se, entre outros aspectos, por sua forma de organização política: ela se desenvolveu em torno de centros urbanos autônomos, ligados por uma relativa unidade cultural, sem no entanto constituir um império centralizado. Com o tempo, os maias ergueriam numerosas cidades, como Palenque, Maiapán, Uxmal, Chichén Itzá, Uaxactún e Tikal, entre outras.
O período áureo dessa sociedade ocorreu entre 1000 e 1400. Nessa fase, o centro da Península de Iucatã foi ocupado por outro povo, os toltecas, que aí fundou a cidade de Chichén Itzá. Essa ocupação acabou resultando na fusão das culturas maia e tolteca.
A partir de 1441, em decorrência de sucessivas guerras entre suas cidades, a sociedade maia começou a se desintegrar. A isso se somou uma série de flagelos naturais (furacões, pestes, estiagens) que culminou com uma epidemia de varicela, em 1511, causada pelo contato com os europeus.

Um governante com muitos poderes
Extremamente religiosos, os maias construíam suas cidades em volta de núcleos formados por templos, pirâmides e palácios. Nas proximidades desses núcleos, ficavam as casas das pessoas mais poderosas.
Cada cidade era gerida por um halac vinic, que governava em nome de um dos deuses da religião maia, constituindo uma teocracia. A sucessão ocorria em uma mesma família, com o poder passando de pai para filho, segundo o direito de primogenitura. O halac vinic concentrava todos os poderes – religioso, militar e civil. Era ele quem escolhia, entre os membros da aristocracia, os funcionários que o auxiliavam na administração da cidade. Esses homens de confiança comandavam os soldados, presidiam o conselho local, aplicavam a justiça e controlavam a arrecadação de impostos. Além dessas atribuições, também cuidavam do cultivo dos campos nas épocas indicadas pelos sacerdotes.
Temidos e respeitados, os sacerdotes, por sua vez, desempenhavam funções particularmente sociedade. Entre eles havia astrônomos, matemáticos, adivinhos e administradores.

Agricultura e comércio
Os maias desenvolveram uma economia diversificada, de base agrícola – o milho era sua principal fonte de subsistência –, dotada de uma extensa rede de trocas comerciais. Fazendo permuta com seus produtos minerais, agrícolas e artesanais, eles adquiriam de outras regiões os bens de que necessitavam, como blocos de pedra, sílex para fabricar armas e ferramentas, pigmentos minerais – destinados principalmente à pintura e à cerâmica –, e outros. Nas trocas comerciais utilizavam, muitas vezes, sementes de cacau como moeda.
No campo da metalurgia, dominavam a técnica de obtenção e manipulação do cobre e do ouro, mas só empregavam esses metais para fins ornamentais.
Indiscutivelmente, os maias foram notáveis em diversos campos do saber, mas dois aspectos chamam a atenção ao estudarmos essa sociedade: eles não utilizavam nenhum animal para tração ou montaria (por isso os meios de transporte e os trabalhos pesados dependiam da força humana) e desconheciam a roda e o torno (o que restringia sua ação sobre a natureza). Essa limitação, contudo, não impediu que construíssem uma das mais avançadas sociedades da América pré-colombiana.

4. A sociedade asteca
Os astecas viviam originalmente no noroeste do México atual, em uma região conhecida como Aztlán, da qual derivou seu nome. No século XIV de nossa era, provavelmente por terem sido expulsos de seu território por povos inimigos, eles foram obrigados a se deslocar para o planalto entral do México. No novo espaço, tornaram-se agricultores, sem perder os hábitos guerreiros, pois se viam constantemente envolvidos em disputas com as populações vizinhas pelas reservas de água potável e pelas áreas de cultivo.
Sob a influência de outras culturas existentes na Mesoamérica, os astecas desenvolveram técnicas  próprias para o plantio do milho, a escrita, a arte e as práticas religiosas. Em 1325, eles passaram a ocupar o conjunto de ilhotas do Lago Texcoco e construíram em uma delas sua principal cidade: Tenochtitlán (atual Cidade do México). Com o tempo, Tenochtitlán passou a contar com um amplo sistema de ruas, pontes e canais.
As disputas com outros povos pela posse do território e a necessidade de realizar obras para a prática da agricultura, como a drenagem dos pântanos, conduziram, aos poucos, à concentração do poder em três das principais cidades da região: Texcoco, Tlacopán e Tenochtitlán.
Essas cidades controlavam diversos povos que habitavam as áreas situadas entre o Golfo do México e o Oceano Pacífico e recebiam tributos das populações subjugadas. Por volta de 1440, quando teve início o governo de Montezuma I em Tenochtitlán, estima-se que esse verdadeiro império somava cerca de 15 milhões de habitantes.

Organização social
Entre os astecas, a autoridade máxima era exercida por um soberano. Os militares também poderosos, por causa das guerras constantes. Ocupavam posição de destaque na hierarquia social.
Vejamos a seguir como se compunha a sociedade asteca.
Os escravos ocupavam o plano mais baixo da escala social. Eram geralmente prisioneiros de guerra, criminosos condenados pela justiça ou pessoas que não conseguiam pagar suas dívidas. Curiosamente, eles podiam ser donos de terras e possuir outros bens, até mesmo outros escravos. Também não era proibido que se casassem com pessoas livres e tivessem filhos livres. Durante sua vida, os escravos tinham muitas oportunidades de conquistar a liberdade.
Acima dos escravos estava o maceualli, que era o membro do clã (calpulli). A ele cabia prestar o serviço militar, assim como trabalhar em obras coletivas, como a construção e a conservação de estradas e canais. Com o casamento, o maceualli conquistava o direito a um lote de terra e começava a participar da vida religiosa.
Em plano superior aos maceualli encontravam-se os artesãos e os comerciantes. A sociedade asteca tinha grande respeito pelo trabalho do artífice, que se dedicava aos ofícios de ourivesaria, joalheria e lapidação, entre outros. Os artesãos agrupavam-se em corporações extremamente fechadas, moravam em bairros especiais e tinham festas, ritos e deuses próprios. Seu ofício era transmitido de geração em geração, dentro da mesma família.
A atividade do comerciante, assim como a do artesão, era hereditária e exclusiva das corporações. Os pochtecas – grandes negociantes – cuidavam do comércio com regiões distantes. Com o tempo, eles se transformaram em um grupo poderoso e em ascensão na sociedade asteca. Seus filhos passaram a ter direito a frequentar o calmecac, uma espécie de escola reservada à aristocracia.
No topo da organização social ficavam os sacerdotes e os altos funcionários civis e militares. Eles formavam a aristocracia. Os sacerdotes, por exemplo, presidiam os cultos religiosos e tinham sob sua responsabilidade a educação dos filhos dos dignitários nos calmecac, a direção dos hospitais, a guarda dos livros sagrados e dos manuscritos históricos. Graças às doações recebidas dos soberanos e de particulares, não raro eles acumulavam grandes riquezas. Além do prestígio social de que desfrutavam, não pagavam impostos e, às vezes, integravam voluntariamente o exército.
O soberano era escolhido sempre em uma mesma família. A escolha era feita por um conselho de cem membros controlado por militares e sacerdotes. Atribuía-se a ele origem divina e esperava-se que prestasse homenagem aos deuses e protegesse a população, orientando-a moralmente – por exemplo, contra a embriaguez e o roubo. O soberano era auxiliado por uma espécie de chefe de governo e por uma hierarquia de funcionários.

Como viviam os astecas
Os astecas criaram um sistema de numeração e calendários com características semelhantes aos dos maias. Desenvolveram também uma escrita figurativa, cujos símbolos representavam objetos estilizados. Quando os espanhóis chegaram ao continente, observaram ainda o emprego de uma escrita fonética rudimentar que recorria a imagens ou objetos para representar certas sílabas. Os livros tinham grande importância para os astecas. Confeccionados com material obtido de fibras vegetais ou da pele de cervo, muitos deles eram ornados com ricas iluminuras. Nas cidades, havia bibliotecas cujo acervo incluía obras de temas religiosos, históricos, de adivinhação e de interpretação de sonhos. Quase todos os livros, porém, foram destruídos durante a conquista espanhola.
Os astecas eram bons tecelões. Produziam panos de algodão e de fibra de agave. A pele de coelho era usada na confecção de cobertores e mantas de inverno. Os homens vestiam-se com tangas e capas; as mulheres usavam camisas compridas e saias. A qualidade da roupa e dos ornamentos com que os astecas se enfeitavam era determinada pela posição social. Em geral, os homens andavam descalços e apenas os funcionários mais graduados usavam sandálias de fibra ou de couro.
Os astecas costumavam preencher as horas de lazer participando de jogos. Um deles, o tlachtli, era disputado por duas equipes. Além do milho, consumido em forma de massa sobre a qual se aplicava uma pasta de feijão  e pimenta, os astecas alimentavam-se de abóbora, batata e inhame. Faziam uso do tabaco sob a forma de charuto ou cachimbo e, em certas ocasiões, ingeriam o octli, um líquido fermentado à base de suco de agave. Também cultivavam o cacaueiro, de cujos frutos extraíam uma bebida chamada xocoatl, que daria origem ao chocolate como o conhecemos hoje. Assim como ocorria na sociedade maia, entre os astecas o uso de sementes  de cacau como moeda era relativamente comum.

Sacrifícios humanos
Como os demais povos pré-colombianos, os astecas também eram politeístas. Seus deuses principais consistiam em forças da natureza, geralmente identificadas com os astros. A divindade maior, inspirada no Sol, era Huitzilopochtli, deus da guerra e deus-guia. Em sua homenagem, os astecas construíram a principal pirâmide de Tenochtitlán, e em sua honra faziam numerosos sacrifícios humanos. A segunda em importância era a deusa Texcatlipoca. Protetora dos guerreiros e dos escravos, acreditava-se que ela inspirava os eleitores do grande conselho na escolha do soberano e castigava ou perdoava as faltas. Outros deuses cultuados eram Tlaloc, divindade da água e da chuva, e o misterioso Quetzalcoatl, deus do vento, a quem se atribuía a invenção da escrita, do calendário e das artes. Além das próprias divindades, os astecas adotavam também as de povos dominados.
Os astecas acreditavam no mito de que, sem o sangue humano (a “água preciosa”) oferecido ao Sol, a engrenagem do mundo deixaria de funcionar. Por isso, procuravam manter um “estoque” de prisioneiros destinados aos sacrifícios.
Essa era uma de suas justificativas para a guerra. Eles entendiam que, depois de morto, o sacrificado ia morar no céu, nas vastas salas da Casa do Sol, para onde também eram conduzidos os guerreiros mortos em combate.
De igual modo, foi a crença na volta de certos deuses que fez com que os astecas vissem sem desconfiança a chegada dos espanhóis, um povo que, recebido com cordialidade, acabaria destruindo seu império.