sexta-feira, 24 de março de 2017

EINSTEIN, militância política de um cientista

  Todos sabem que Albert Einstein foi um grande cientista, mas o que pouca gente sabe é que ele também foi um militante engajado em várias causas de cunho político, como este texto vai procurar mostrar.
Albert Einstein, nascido na Alemanha em 1879, tornou-se uma celebridade mundial depois que a observação do eclipse solar de 1919 comprovou sua teoria da relatividade geral. Até então, e por quase três séculos, havia prevalecido nos meios científicos a concepção de Isaac Newton (1642-1727), segundo o qual havia um universo mecânico, baseado em leis e certezas absolutas. Com Einstein, surgiu uma nova visão do universo, em que o espaço e o tempo eram grandezas relativas, dependentes de pontos de referência. A opinião pública interessou-se avidamente pela nova teoria, e imediatamente Einstein foi elevado à condição de gênio.

Einstein era filho de judeus, e havia se formado em Física pela escola Politécnica de Zurique, em 1900. Queria ser professor, mas fracassou em suas tentativas para conseguir trabalho nas universidades. Uma das razões para esse fracasso foi sua condição de judeu, pois naquele tempo o antissemitismo já era muito forte na Alemanha. O melhor que Einstein conseguiu foi um emprego no escritório de patentes de Berna, na Suíça. E foi lá, sentado junto à sua mesa de trabalho, que ele começou a virar de cabeça para baixo o conhecimento acumulado pelos físicos até aquele momento. Era o ano de 1905, chamado de “annus mirabilis” de Einstein. Na ocasião, ele formulou, entre outras teorias, a da relatividade especial. Dez anos depois, ele conseguiu formular a teoria da relatividade geral, confirmada experimentalmente pelos astrônomos que observaram o eclipse de 1919.
Einstein no Escritório de Patentes,
Berna, Suíça, 1905

Até então, Einstein nunca levara sua condição de judeu muito a sério. Na verdade, ele se considerava um internacionalista. E foi justamente no momento em que se tornava famoso que abraçou o sionismo, ou seja, a luta pela criação de uma pátria para os judeus. Segundo suas próprias palavras: “Sou, como ser humano, um adversário do nacionalismo. Mas, como judeu, apoio a partir de hoje o empenho sionista.” (Isaacson, Walter, Einsten, sua vida, seu universo. São Paulo, Companhia das Letras, s/d, p. 256. Em https://lerlivros.online/livro/einstein-walter-isaacson. Acesso em 02 de março de 2017.)
Einstein não entrou oficialmente em nenhuma organização sionista, nem pertenceu a nenhuma sinagoga. Mas assumiu a luta em defesa dos assentamentos judaicos na Palestina e pela causa da identidade nacional entre os judeus de todas as partes do mundo. Outra bandeira que assumiu nessa época foi a oposição aos desejos “assimilacionistas”. Eram chamados assim os judeus que pretendiam “assumir” a identidade nacional do país onde viviam.
A união de Einstein com a causa sionista de se deu no primeiro semestre de 1921, bem no momento em que ele e sua mulher realizaram uma viagem aos Estados Unidos. O objetivo da viagem era arrecadar fundos, junto aos judeus estadunidenses, para fundar a Universidade Hebraica de Jerusalém. Em sua chegada, teve uma recepção digna de um pop star, com direito a um desfile triunfal de carro através das ruas de Nova Iorque, com a multidão gritando e empunhando bandeiras. Acompanhado de líderes do movimento sionista, Einstein foi recebido pelo presidente dos Estados Unidos, visitou Harvard e depois proferiu uma série de palestras na Universidade de Princeton (onde ele iria se estabelecer mais tarde, quando se mudou definitivamente para os EUA, em 1933).
A viagem aos Estados Unidos transformou Einstein definitivamente no que ele realmente queria ser - um internacionalista, um cidadão do mundo. Não por acaso, naquele ano de 1921, ele entrou para o Comité Internacional de Cooperação Intelectual da Liga das Nações, que tinha como objetivo promover o espírito pacifista no mundo acadêmico.

No início da década de 1920, o antissemitismo estava crescendo na Alemanha e, para Einstein, os convites para palestras não paravam de chegar, e com eles a necessidade de viagens, algo de que ele realmente gostava. Um desses convites foi para visitar a Ásia, numa viagem que iria durar seis meses. Ele partiu em outubro de 1922, e estava a caminho do Japão quando soube que havia ganhado o Prêmio Nobel de Física relativo a 1921. Na viagem de volta para a Europa, fez sua única visita à Palestina. 

O pacifismo radical de Einstein se desenvolveu ao longo da década de 20. Mas essa não foi a única causa pela qual se batia sua alma generosa. Ele foi também um defensor permanente da justiça social e racial. Por isso, seu apoio à causa sionista não impediu que sua solidariedade se estendesse também aos árabes que estavam sendo desalojados pelos judeus que chegavam à Palestina. Numa declaração feita em 1929, quando já tinha cinquenta anos, ele chegou a propor que se constituísse um “conselho especial” com a presença de representantes independentes tanto de judeus quanto de árabes, para solucionar as discordâncias entre os dois grandes povos semitas.

A idade de Einstein avançava, e cada dia mais sua atuação migrava do campo da ciência para o campo político. Os convites continuavam a chegar. Um deles era um convite para visitar a União Soviética, que foi recusado em virtude da oposição de Einstein ao regime totalitário vigente naquele país. Para ele, já era bem clara a opção por um regime político que respeitasse as liberdades do individuo. Por isso mesmo, ele se alegrou com um novo convite vindo dos EUA, um país do qual ele aprendera a gostar. Foi assim, que mais uma vez ele fez suas malas, e embarcou par a América em dezembro de 1930. Na sua chegada, foi recepcionado por membros da Liga de Resistentes à Guerra. Nesse encontro, ele foi abordado pelo líder socialista Norman Thomas, que tentou convencer Einstein de que o pacifismo não pode existir sem o socialismo. Einstein discordou, dizendo que o pacifismo não requeria o socialismo. Embora fosse, em tese, simpático ao socialismo, não lhe agradava o fato de as revoluções socialistas muitas vezes levarem à supressão da liberdade.
No seu discurso mais importante, proferido na New History Society, em Nova Iorque, ele fez seu mais veemente apelo pacifista até aquele momento. Defendeu a resistência incondicional à guerra e a recusa em prestar serviço militar. Segundo Einstein, se apenas 2% das pessoas obrigadas a cumprir o serviço militar anunciassem sua recusa em lutar, os governos ficariam impotentes. Eles não se atreveriam a mandar para a prisão um número tão grande de pessoas. Proferido pelo cientista mais famoso do mundo, o discurso obviamente teve grande repercussão.

As convicções políticas de Einstein sofreram um duro golpe quando da ascensão de Hitler e dos nazistas ao poder na Alemanha. Einstein havia sido sempre um pacifista. Mas foi capaz de mudar seu discurso conforme mudavam as circunstâncias. Ele não abandonou seu discurso pacifista, como disse não ao desarmamento sem segurança. Mais do que isso, reforçou seu compromisso com a ideia de uma organização federalista mundial. Para ele, a nova organização seria como uma Liga das Nações, porém dotada de poder efetivo, com seu próprio exército profissional para fazer cumprir suas decisões.

A ascensão de Hitler, no início de 1933, ocorreu no exato momento em que Einstein partia para uma nova viagem aos EUA. O cientista havia sido contratado para trabalhar na Universidade de Princeton. Ele e sua mulher se encontravam naquele momento na Bélgica, onde ele aproveitou para entregar seu passaporte ao consulado alemão em Bruxelas, declarando que renunciava à cidadania alemã. Da Bélgica, acompanhado da mulher, seguiu para a Inglaterra, e ali tomaram um navio para a terceira visita aos EUA, país em que viveriam o restante de suas vidas.

Em setembro de 1939, começou a Segunda Guerra Mundial. Diante do avanço nazista na Europa, Einstein deu um dos passos mais decisivos de sua vida, ao recomendar ao presidente Franklin Roosevelt a fabricação, sem demora, de uma bomba atômica. A recomendação foi feita por meio de uma carta, elaborada por ele e mais alguns físicos seus amigos. Parecia ser uma incoerência por parte de um pacifista, mas é que lhe haviam chegado informações de que físicos alemães trabalhavam na fissão atômica com urânio, e achava necessário que os países democráticos chegassem antes à bomba.
Apenas uma semana depois, o presidente Roosevelt enviou a Einstein uma carta de agradecimento. Nela, dizia que já havia nomeado uma comissão para estudar a sugestão da bomba atômica. O comité se reuniu pela primeira vez em Washington, no dia 21 de outubro. Einstein não estava presente. Contudo, seus amigos físicos participavam da comissão encarregada da tarefa. Como é sabido, a primeira bomba atômica seria usada contra o Japão em agosto de 1945. Quando soube, Einstein lamentou o fato, dizendo que jamais teria levantado um dedo em favor da bomba se soubesse que os alemães não iriam conseguir produzi-la.

Em 1940, Einstein recebeu a cidadania norte-americana. Na ocasião, concordou em dar uma entrevista no rádio para a série "Eu Sou Americano", realizada pelo serviço de imigração. Ele aproveitou a ocasião para reforçar a defesa de uma organização mundial. Disse que, para evitar futuras guerras, as nações teriam de ceder parte de sua soberania em favor de uma federação internacional armada.
Também foi um crítico do capitalismo. Afirmava que o capitalismo sem regras produzia grandes desigualdades de riqueza, depressão e desemprego. Tais problemas poderiam ser evitados, afirmava Einstein em um artigo publicado nessa época, mediante uma economia socialista, desde que se resguardasse da tirania e da centralização do poder. Einstein também apoiou, por atos e palavras, o combate à descriminação racial nos Estados Unidos. Nos anos 40, os cinemas continuavam segregando os negros, que eram proibidos também de experimentar sapatos e roupas nas lojas. Mas foi duro com seus compatriotas alemães, responsabilizando-os como povo pelos assassinatos em massa cometidos pelos nazistas. E até proibiu que seus livros voltassem a ser vendidos na Alemanha.

Apesar de seu compromisso com a causa sionista, inicialmente, Einstein havia combatido o projeto de criação de um Estado judeu na Palestina; mas depois que ele foi criado passou a defendê-lo. Segundo suas palavras: “Nunca considerei que a criação de um Estado fosse uma boa ideia. Mas agora não há como voltar atrás; é preciso lutar até o fim”. (Isaacson, op. cit, p. 458.) Seu nome até chegou a ser recomendado para a presidência de Israel. De fato, em 1952, com a morte do presidente de Israel, o cargo foi-lhe oferecido, mas Einstein declinou do convite, alegando não possuir as qualidades necessárias para a função.

Após o final da Segunda Guerra Mundial, teve início a Guerra Fria, que opôs estadunidenses e soviéticos numa disputa encarniçada. Nesse novo cenário, surgiu uma forte campanha anticomunista nos EUA. No clima de extrema tensão política que se seguiu, estourou o escândalo do casal Rosenberg. Em 1951, Julius e Ethel Rosenberg, judeus norte-americanos, foram condenados à pena capital, acusados de espionagem e traição. No entendimento do tribunal, eles teriam repassados aos soviéticos segredos da bomba atômica.
Mais uma vez, Einstein tomou posição, ao escrever uma carta ao então presidente dos EUA, Harry Truman, pedindo-lhe que poupasse os Rosenberg da morte. Truman, que estava prestes a deixar o cargo, preferiu deixar a decisão ao novo presidente. Coube a Eisenhower autorizar as execuções.

O último ato político Einstein, ocorreu em abril de 1955. Nessa ocasião, ele e seu amigo Bertrand Russel, filósofo e matemático, assinaram um manifesto em que diziam que armas nucleares ameaçam a existência da humanidade. E exortavam os governos a se posicionarem contra uma nova guerra mundial.

Na manhã de 18 de abril de 1955, uma segunda-feira, Einstein faleceu, aos 76 anos de idade, na casa em que vivia em Princeton. 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

MULATO

Sérgio Rodrigues

O termo 'mulato' nasceu racista, mas sem ele é difícil entender o Brasil
A palavra "mulato(a)" está na berlinda. Rebola no centro da polêmica às vésperas daquele que promete ficar na história como o Carnaval PC ("politicamente correto", claro, e não "Partido Comunista" ou "computador pessoal").
No pente fino que alguns ativistas passam em marchinhas consagradas à cata de vestígios de preconceito, a palavra tem sido tratada como piolho. Anda com fama de racista. Será?
Começo por varrer da avenida e jogar no lixo o argumento autoritário de que, não sendo mulato (há controvérsia), devo ficar calado no meu canto. É inaceitável.
Um axioma PC tão difundido quanto tolo sustenta que cabe apenas a quem se sente ofendido dizer o que é ofensivo, o que justificaria o fato de nazistas se ofenderem com a existência de judeus. Não. Decidir o que é ofensivo requer um concerto social de vozes. Vamos em frente.
Filha de uma época escravocrata (século 16), é inegável que a palavra "mulato" nasceu racista. Seu parentesco com "mula" é um fato. O elo entre o animal e a pessoa mestiça de branco e negro se deu pela ideia de hibridismo. O latim "mulus" já designava o produto –estéril– do "cruzamento do cavalo com a jumenta, ou da égua com o jumento" (Houaiss).
Como se vê, ninguém chamou propriamente o mulato de burro, mas isso não atenua o pecado original da palavra. Dificilmente uma associação entre pessoas e muares teria prosperado sem o adubo racista.
Entre essa constatação etimológica e a revolta de setores do movimento negro contra "mulato", contudo, há uma distância. Se qualquer um pode problematizar (termo da moda) o que quiser, problematizar a problematização não é menos saudável.
Palavras mudam. "Rapaz" é primo de "rapina": era o salteador. "Brasileiro" já foi o nome pejorativo dos nativos desta terra. Em mais de quatro séculos, o vocábulo "mulato" se encharcou tanto de história que hoje seria impossível descartá-lo sem uma grave perda cultural.
Desde que Gilberto Freyre enterrou o racismo pseudocientífico da eugenia, exaltando a miscigenação, o "mulatismo cultural" virou marca de identidade nacional. A impureza como destino, a mistura como salvação contra a intolerância crescente do mundo. Nossa melhor arte o confirma.
Claro que nada disso é simples. Como apontam os críticos do mulatismo, ele também pode mascarar conflitos e atenuar tensões num país em que até hoje há quem defenda esta ideia espantosa: "Não existe racismo no Brasil".
O Brasil é racista, mas de um racismo meândrico muito diferente do americano, no qual negro é negro, branco é branco e a mulata não é a tal. E vem de lá o modelo –ululantemente racista– segundo o qual basta ter "uma gota" de sangue negro para ser negro. Não mulato, não mestiço, nada de nuance. Negro.
A importação desse trator conceitual é avanço? Retrocesso? Meio a meio? Ninguém disse que seria simples. De todo modo, acho recomendável ir devagar nessa hora, nem que seja em respeito ao sábio mandamento carnavalesco de João Bosco e Aldir Blanc: "Não põe corda no meu bloco!"
Baixando o volume da gritaria, talvez a gente consiga distinguir na cantoria vinda do bloco que desfila na rua ao lado o potencial libertário dos versos mulatos de Martinho da Vila: "José do Patrocínio/ Aleijadinho/ Machado de Assis que também era mulatinho/ Salve a mulatada brasileira!"


terça-feira, 24 de janeiro de 2017


CATARINA, A GRANDE

Um jeito agradável de aprender história é através da leitura de biografias. A biografia personaliza os acontecimentos e permite o conhecimento de detalhes que os livros escolares de História não contam. Devo dizer que gosto de detalhes e para esta pequena biografia escolhi Catarina II, imperatriz da Rússia desde 1762 até sua morte em 1796. Por suas realizações, foi cognominada Catarina, a Grande, e seu período de governo foi considerado a Era Dourada do Império Russo.

Ela nasceu em 21 de abril de 1729 e recebeu o nome de Sofia Augusta Frederica. O nome Catarina foi adotado depois.

Seu pai, Cristiano Augusto, não pertencia à alta nobreza, mas ostentava o título de príncipe – príncipe do pequeno estado Anhalt-Zerbst, pertencente ao reino da Prússia (que veio a ser a Alemanha um século e meio mais tarde).

Enquanto crescia, Sofia recebeu uma educação esmerada, como era comum entre príncipes e princesas. Sofia tinha ama, tutor, governanta, professores de música, dança, equitação, religião, etiqueta e idiomas. Aprendeu a falar e escrever corretamente em francês, que era o idioma das pessoas cultas na época. Curiosidade: nas famílias nobres germânicas, a língua nativa, o alemão, era considerada uma língua vulgar.

Ela era prima em segundo grau de Carlos Pedro Ulrich, único neto vivo de Pedro, o Grande, que havia sido Czar da Rússia. Era, portanto, herdeiro do trono russo, ocupado naquele momento por sua tia, a imperatriz Elizabeth, cujo reinado se estendeu de 1741 a 1761.

Quando tinha 14 anos, Sofia foi para a Rússia, convidada por sua tia, que pretendia casá-la com o Carlos Pedro Ulrich (mais tarde, imperador Pedro III). A viagem de trenó, em pleno inverno, demorou 23 dias. Uma vez em Moscou, para habilitar-se à nova posição, Sofia converteu-se à Igreja Ortodoxa. [Explicação: Igreja Ortodoxa é como passou a chamar-se um dos ramos em que se dividiu a Igreja Cristã em 1054. Desde esse fato, passou a existir a Igreja Católica, no ocidente, e a Igreja Ortodoxa, no oriente.] E após seu noivado com Pedro, Sofia recebeu o nome de Catarina que lhe foi dado pela imperatriz.

O casamento se realizou em 1745. Os noivos receberam os títulos de grão-duque e grã-duquesa, e ambos eram tratados por Sua Alteza Imperial. Ele foi declarado herdeiro do império, sucessor de Elisabeth. De Catarina esperava-se, apenas, que desse um herdeiro para o trono.

Era grande a pressão para que o jovem casal gerar um herdeiro, mas a relação entre Catarina e Pedro, entretanto, nunca foi boa. As diferenças entre eles eram enormes. Pedro não se preocupava em preparar-se para um dia exercer as altas funções de imperador; era displicente, pouco inteligente e não levava nada a sério, a não ser brincar de soldado. E, para piorar, nunca assumiu efetivamente a condição de marido.

Além disso, marido e mulher tinham preferências muito distintas. Pedro não era dado à leitura, nunca se converteu verdadeiramente à Igreja Ortodoxa, e nem fez questão de aprender o idioma nacional. Em vez disso, manteve sua convicção luterana e continuou a cultivar simpatia pela cultura e pela monarquia da Prússia, sua terra natal.

Catarina agiu de forma bem difetente. Desde o começo de sua vida em seu novo país, ela percebeu que para ser bem sucedida devia aprender a língua e incorporar os valores da cultura russa. Ela encarava suas responsabilidades com seriedade, interessando-se pela politica e pela diplomacia. Gostava de dançar e fazia questão de exibir sua beleza nos salões. Também gostava de ler: entre suas leituras se incluem os autores iluministas. [Foram chamados iluministas os participantes de movimento denominado Iluminismo, que reuniu boa parte da elite europeia do século 18.] Dois deles, Diderot e Voltaire, se tornaram seus grandes amigos, com quem ela manteve intensa correspondência. A convite de Catarina, quando ela já era imperatriz, Diderot esteve na Rússia durante um ano, entre 1773 e 1774.

Havia, portanto, muitas diferenças entre Pedro e Catarina. Em virtude dessas diferenças, aconteceu algo comum nos casais reais da época: tanto o marido quanto a mulher tiveram amantes. Detalhe: com o consentimento recíproco. E foi de seus amantes (chamados “favoritos”) que Catarina teve seus três filhos. O primeiro deles nasceu em setembro de 1754. Recebeu o nome de Paulo e se tornou o primeiro na linha de sucessão do trono.

Em dezembro de 1761, a imperatriz Elizabeth morreu. Ela tinha 53 anos de idade e tinha governado por 20 anos. Imediatamente, o grão-duque foi proclamado Pedro III, imperador da Rússia.

Porém, o reinado de Pedro durou pouco. Estabanado, ele fez tudo o que podia para perder o apoio dos pilares do Estado russo: a Igreja Ortodoxa e o Exército. Como se isso não bastasse, abandonou os aliados da Rússia, ao celebrar a paz em separado com a Prússia, com quem os russos travavam uma guerra havia vários anos. E, para piorar, provocou uma guerra contra a Dinamarca.

Ao mesmo tempo em que Pedro perdia a simpatia dos russos, sua mulher, Catarina, se tornava cada dia mais popular. Tinha aliados fiéis no governo e no Exército. Esses amigos começaram a trabalhar para tirar Pedro do poder e colocar Catarina. A oportunidade apareceu no final de junho de 1762, quando Pedro se afastou da capital para treinar os soldados que iriam para a guerra contra a Dinamarca.

Quando seus amigos deram o sinal, Catarina se pôs à frente das tropas sublevadas e marchou na direção do local onde estava Pedro. Ele foi preso antes mesmo da chegada dela. Foi enviado para uma prisão domiciliar e, sete dias depois, acabou sendo morto por alguns dos mais leais amigos da nova imperatriz.

Catarina sabia que não tinha nenhum direito à coroa. E, por maior que fosse a aceitação de seu nome, ela era, em resumo, uma usurpadora. Por isso, tratou de consolidar apoios por meio da distribuição de condecorações, promoções, dinheiro e propriedades. Presenteou até mesmo os poucos adversários. Em setembro, ela foi coroada numa cerimônia grandiosa realizada em Moscou. Durante a cerimônia, Catarina ouviu o sacerdote descrever sua ascensão como obra de Deus e dizer a ela que “o Senhor colocou a coroa em sua cabeça”. Isso legitimava seu reinado.
Catarina, aos 31 anos, com seu marido Pedro e o
filho Paulo. 1760.


Nos anos seguintes, ela iria governar o império russo de forma exemplar e conduzi-lo à posição de maior potência da Europa. Catarina exerceu o poder de forma absolutista. Sua assinatura num decreto era lei e, se essa fosse sua vontade, poderia significar vida ou morte para qualquer um de seus súditos. Uma demonstração de seu poder ocorreu logo após sua ascensão ao trono. Até então, sua pensão como imperatriz equivalia a 1/13 da receita da nação. Ela decretou que daí em diante não haveria mais distinção entre suas finanças pessoais e as da nação. Ou seja, ela poderia gastar quanto quisesse!

Apesar da imensa concentração de poder em suas mãos, porém, Catarina não podia tudo. Um exemplo dessa limitação foi sua incapacidade para acabar com a servidão. [Existe servidão quando existem servos, assim como existe escravidão quando existem escravos.]

Os servos eram camponeses, e na época constituíam a metade dos 20 milhões de habitantes da Rússia. A maior parte dos servos não eram livres. Também não eram escravos, mas eram tratados como se o fossem; até para viver, dependiam da vontade de seus senhores. Catarina era pessoalmente contra a servidão, mas nada pôde fazer diante da resistência dos senhores de terra e proprietários dos servos – a nobreza. (A servidão somente seria extinta na Rússia em 1861, apenas dezessete anos antes de a escravidão ser abolida no Brasil.)

Uma das medidas mais importantes de Catarina só foi possível por causa do seu poder absoluto. Foi um decreto que transferia todas as terras e propriedades da Igreja Ortodoxa para as mãos do Estado. A partir de então todos os membros do clero se tornaram assalariados pagos pelo Estado. Essa medida diminuía o poder da Igreja Ortodoxa e aumentava a riqueza do Estado governado por Catarina. O clero, obviamente, protestou, mas teve de aceitar.

Outra iniciativa importante da imperatriz foi convocar uma comissão legislativa, que reuniu 564 delegados, para discutir queixas e sugestões, e revelar as necessidades de todas as classes e regiões do império. No final de seu trabalho, a comissão devia elaborar um código de leis para o império russo. Mas isso não aconteceu. Após haver se reunido durante 18 meses, sem ter chegado a resultados práticos, a comissão foi dissolvida pela imperatriz.  E, em 1773, fiel ao ideário iluminista, ela publicou um decreto que garantia a liberdade religiosa na Rússia.

A relativa tranquilidade do reinado de Catarina foi perturbada por uma revolta popular de grandes proporções, iniciada em 1773. Seu líder era um soldado desertor, analfabeto, chamado Iemelian Pugachev. Dizendo-se o imperador Pedro III, ele prometia prender a imperatriz Catarina, acabar com a servidão e exterminar os nobres. Atraiu uma grande massa de descontentes de regiões remotas da Rússia e chegou a ameaçar a capital, Moscou. Em 1775, Pugachev foi preso, torturado e morto.

Durante o reinado de Catarina, a Rússia enfrentou e venceu, duas vezes, o Império Otomano (Turquia). As vitórias lhe permitiram anexar a Crimeia e outros territórios no Mar Negro. Essas conquistas possibilitaram aos russos realizar um velho sonho: a livre passagem de seus navios para o mar Mediterrâneo.

A oeste da Rússia, estava o reino da Polônia, que possuía territórios que interessavam à Rússia. Catarina, aos poucos, foi tomando esses territórios, e em 1795 acabou por abocanhar cerca da metade do país. O restante foi dividido entre a Prússia e Áustria. A Polônia foi riscada do mapa. (A Polônia somente voltaria a existir 123 anos depois, em 1918, no final da Primeira Guerra Mundial.)

Mapa mostra as três partilhas sofridas pela
Polônia, sendo a última em 1795.


Catarina era uma fervorosa defensora das artes e da cultura. Uma de suas iniciativas mais duradouras foi a criação do Museu Hermitage, apenas um ano após sua subida ao trono. Nos séculos seguintes, o Hermitage não parou de crescer, e hoje se tornou um dos maiores museus de arte do mundo: possui mais de três milhões de peças. Se um visitante dedicar 8 horas diariamente para visitar o museu e gastar um segundo para ver cada peça, ele vai precisar de nada menos do que 104 dias para ver todo acervo!

A simpatia de Catarina pelo iluminismo sofreu uma reviravolta total a partir do início da Revolução Francesa, em 1789. Os revolucionários franceses se inspiravam nas ideias dos escritores iluministas que Catarina admirava. Mas, temerosa de que as mesmas ideias se voltassem contra ela, Catarina não hesitou em introduzir a censura na Rússia. Primeiramente, proibiu a importação de jornais e livros franceses. Posteriormente, em 1796, pouco antes de sua morte, a imperatriz decretou o fechamento de todas as gráficas privadas e a obrigação de que todos os livros fossem apresentados a um censor do Estado antes de sua publicação.

Como seus súditos viam o poder absoluto que Catarina exercia, e como ela própria se via? A resposta a essa pergunta foi dada por um cortesão que contou uma conversa que tivera, certa vez, com a imperatriz. Durante a conversa, ele revelou sua surpresa “diante da obediência cega a todos os desejos dela, da ânsia e entusiasmo de todos para tentar contentá-la".
- Não é tão fácil quanto você imagina, ela respondeu. Em primeiro lugar, minhas ordens não seriam cumpridas se fossem ordens que não pudessem ser cumpridas. Você sabe com que prudência e circunspeção eu ajo na promulgação das leis. Examino as circunstâncias, peço conselhos, consulto a parte esclarecida do povo, e assim descubro o efeito que a lei terá. Quando estou certa de que terei boa aprovação, só então dou as ordens e tenho o prazer de observar o que você chama de obediência cega. Esta é a base do poder ilimitado. Mas creia-me, não obedeceriam cegamente se as ordens não fossem adaptadas à opinião geral.” (Massie, Robert. Catarina, a Grande. Disponível em https://lelivros.pro/?x=15&y=16&s=catarina+II Acesso em 31/jan/2017.)

Catarina foi cognominada “a Grande”. Ela governou por 34 anos. Faleceu em setembro de 1796, vítima de um derrame cerebral (AVC) e foi sucedida por seu filho Paulo I.


domingo, 7 de agosto de 2016

Ava, a mulher de 3.700 anos



Essa é Ava e, apesar de parecer uma mulher comum, viveu há pelo menos 3.700 anos na Escócia. Seu crânio foi encontrado nos anos 80 e, com a reconstituição digital mais exata da história da arqueologia, conseguiram obter o que seriam suas feições.
De acordo com os cientistas, Ava teria cerca de 1,67 m de altura e algo entre 18 e 22 anos quando faleceu. A moça era integrante da cultura Beaker, uma civilização que viveu na Idade do Bronze, entre 2.900 A.C. e 1.900 A.C.
A moça foi encontrada mais precisamente em 1987 em uma cova escavada em rocha dura, algo incomum para este povo que costumava enterrar seus mortos na terra com uma pedra ou estaca servindo de lápide.

domingo, 31 de julho de 2016

LEMBRAR  E  ESQUECER  OU  A  VIDA  ENTRE  DORY  E FUNES


A  memória  é  um  conceito  complexo.  Quase todos a associam a lembrar-se de um determinado dado quando necessário. A partir de certa idade, quando começamos a ter dificuldades no acesso imediato, surge a preocupação: será que eu estaria com Alzheimer?
Leandro Karnal, 31 Julho 2016 |

Você já se deu conta de que nossa civilização é o culto à reminiscência? Nossas ruas e praças, nossas datas e agendas existem a serviço da evocação. Discutimos o valor político da memória ao questionar se determinada pessoa deve continuar sendo homenageada batizando uma via pública. O elevado Costa e Silva transformou-se em João Goulart, em São Paulo. Para os usuários comuns, nem o presidente e nem o general: apenas Minhocão... A metáfora da forma suplanta o debate político. Lutamos para controlar a recordação. Esquecer datas é algo perigoso no nosso código afetivo. Lembrar é valorizar. Esquecer é desprezar.
Para um historiador, a memória é uma construção. Ela não significa trazer um fato à tona, mas como eu, hoje, construo minha relação com o fato pretérito. Nunca se trata de recriar o passado, ou como queria Leopold von Ranke, descrever as coisas tal como “realmente foram”. Hoje, é mais usual dizer que o especialista em memória (o historiador) estuda como são lembrados ou esquecidos os fatos históricos. Sob este enfoque, toda história seria história contemporânea.
No romance Incidente em Antares, Érico Verissimo fala de um naturalista francês que indica a estrela que dá nome à cidade. A ideia foi substituída pela afirmação de que o nome da cidade, Antares, derivava da abundância das antas na região... Pensei nisto quando vi plantadas araucárias em áreas reurbanizadas de Pinheiros, em São Paulo. Imaginei que, em 100 anos, quando estas árvores estivessem frondosas, alguém diria: o nome do bairro surgiu daqui, da existência destes pinheiros. Confundiriam a causa com a consequência e, em não havendo outra fonte, a versão seria vitoriosa. Seria como o balcão de Julieta em Verona: a lenda criou o fato concreto.
Aprofundo o tema com uma ficção. Uma jovem de 15 anos faz seu baile de debutante e passa o dia seguinte ao celular narrando detalhes da noite. Depois, aos 25, a mesma jovem observa as fotos e acha tudo “cafona”. Por fim, a personagem observa as fotos aos 70 anos de idade e enfatiza como era bonita. Qual das três narrativas contém a memória verdadeira? A dos 15, 25 ou 70 anos? Voltamos ao valor histórico: o fato deve ser relembrado dentro do contexto novo da mulher que ressignifica o resgate da festa.
Jorge Luis Borges criou uma personagem: Funes, el memorioso. Ele é incapaz do esquecimento. A personagem sofre de hipermnésia: memória absoluta. Funes morreu jovem e não conseguia mais pensar, porque, como disse Borges, refletir seria esquecer diferenças, generalizar e abstrair. Quem lembra tudo, nada pensa. Repetir dados não é inteligência. Situação oposta: Macondo, a mítica aldeia deCem Anos de Solidão, sofre por se esquecer de tudo. Só a poção do cigano Melquíades salva o povo na imaginação de Gabriel García Márquez.
O que lembramos? Quando lembramos? Quais as coisas que desejamos esquecer? A memória é uma construção permanente. Estamos todos mais ou menos próximos de Dory, a simpática peixinha que tem memória deficitária. Dory é o anti-Funes e parece mais feliz.
Esquecemos de forma aleatória e recordamos a partir de critérios pouco claros. Para evitar estas irregularidades, foi inventada uma arte mnemônica: conjunto de técnicas para que tudo venha à tona quando necessário. Este exercício fez a glória da Giordano Bruno e da escola jesuítica (aliás, hoje é dia de Santo Inácio de Loyola). Para recordar argumentos, estabelecia-se o “palácio da memória” com salas e armários concatenados, tentando organizar as informações. O clássico da inglesa Frances Yates (A Arte da Memória, ed. Unicamp) foi traduzido muito tardiamente no Brasil, mas ainda é um excelente estudo sobre esta arte quase perdida. É leitura obrigatória para quem deseja estudar o conceito de memória.
Em tempos de memória de computador e celular com todos os números, estamos cumprindo de forma absoluta a maldição do deus Tot do Egito. Quando inventou a escrita, ele lançou uma praga-advertência para os humanos: Tudo o que vocês escreverem, esquecerão” (sic). Os celulares cumprem, integralmente, a profecia do deus babuíno do Nilo.
Quando os Bourbons foram restaurados no trono após Napoleão I, dizia-se na França uma frase irônica em função dos traços autoritários que permaneciam com a família, mas acompanhados de sede de vingança contra revolucionários: “Os Bourbons não aprenderam nada, mas não se esqueceram de nada”. Esta é uma grande lição. Para viver temos de lembrar de algumas coisas e esquecer de outras coisas. Funes e Luís XVIII são exemplos bons: é impossível viver bem sem esquecer. O erro de nada lembrar é a amnésia, vestíbulo de uma morte. O erro de nada esquecer é o divórcio, a perda dos amigos e a dor permanente... Viver é selecionar memórias, como fazemos com as fotos do aparador: aquelas são as imagens da família que eu desejaria ter. Também ocupam um espaço fantasmagórico as fotos que não estão ali: os momentos que desejo obliterar para sempre. Felicidade está no equilíbrio do binômio lembrar/esquecer. Bom domingo a vocês!


domingo, 24 de julho de 2016


MINHA FILOSOFIA DE VIDA

QUANDO ME CONHECI DE VERDADE
Descobri que eu não tinha obrigação de salvar o mundo.
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Abandonei radicalismos e posturas ideológicas, e segui pelo “caminho do meio”, que é o caminho do bom senso.
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Tomei como resposta para minhas dúvidas essa simples frase: “Há mais mistérios entre o Céu e a Terra do que supõe nossa vã filosofia”.
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Agradeci de joelhos a meus pais por me terem dado a oportunidade de viver neste planeta maravilhoso.
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Compreendi o significado da frase “Sou humano e nada do que é humano me é estranho”.
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Entendi que o amanhecer significa o recomeço e que o entardecer é a hora do repouso e comecei a ver com outros olhos a beleza do Universo.
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Comecei a entender a língua dos pássaros, e até me peguei contando estrelas.
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Parei de ter vergonha das minhas fraquezas e deixei de dar importância às opiniões que os outros fazem de mim..
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Entendi como era importante rir de tudo, até de mim mesmo; e, então, descobri o real significado da palavra FELICIDADE.

domingo, 22 de maio de 2016

ESSAS CRIATURAS ESTÃO POR TODA PARTE, COMO OS RATOS E AS BARATAS.

De fato, existem políticos que têm a incrível capacidade de se manter no poder qualquer que seja o governo. Me lembro de dois casos bem notórios, um no Brasil e outro na França.
Na pátria amada, esse é o caso de Romero Jucá, que teve seu primeiro cargo importante como presidente da FUNAI, nomeado em 1986. Deixou o cargo sob acusações de corrupção, mas ainda assim permaneceu ativo na política. No governo de José Sarney, foi nomeado para o cargo de governador do Território Federal de Roraima. Em 1994, elegeu-se senador pelo novo Estado, e chegou a ocupar a vice liderança do governo do então presidente FHC.
Em 2002, reelegeu-se senador na mesma eleição em que Lula se elegeu presidente da República. No governo do ex-metalúrgico, Romero Jucá se tornou ministro da Previdência, cargo que teve de deixar poucos dias depois, sob denúncia de corrupção. Apesar disso, foi líder do governo Lula no senado, função que também exerceu na gestão de Dilma Roussef. Em 2010, foi reeleito senador por seu Estado de adoção, Roraima (embora seja pernambucano).
No momento, mesmo sendo citado nas operações Lava-Jato e Zelotes, tornou-se ministro do Planejamento e é o homem-forte do governo de Michel Temer.
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A trajetória desse cidadão lembra a de um bispo francês chamado Talleyrand, que participou de todos os governos da França, a partir de 1780. Nesse ano, foi nomeado Agente Geral do Clero junto ao governo da França, ainda no tempo da monarquia dos Bourbons.
Quando explodiu a grande Revolução de 1789, Talleiyrand se exilou nos EUA. Retornou oito anos depois, e foi nomeado ministro das Relações Exteriores do próprio governo revolucionário!
A Revolução acabou em 1789, quando Napoleão assumiu o poder. O bispo Talleyrand se manteve – pasmem-se! - ministro das Relações Exteriores da França do governo napoleônico.
Após a primeira queda de Napoleão, em 1814, a monarquia dos Bourbons voltou o poder na pessoa de Luis XVIII, e mais uma vez Talleyrand estava lá no cargo de ministro das Relações Exteriores. Coisa incrível!

Em 1830, ocorreu uma nova revolução na França e o novo rei, Luís Filipe de Orleans, nomeou Talleyrand embaixador na Inglaterra. Não sei se pesaram contra ele denúncias de corrupção (como é o caso de Romero Jucá), mas o fato é que o bispo se manteve no poder (ou em volta do poder) por mais de 50 anos. Faleceu em Paris, em 1838, aos 84 anos.