quinta-feira, 16 de novembro de 2017

LUTERO E A REFORMA PROTESTANTE


No  dia 31 de outubro de 1517, Lutero divulgou as 95 Teses, afixando o documento na porta da igreja do Castelo de Wittenberg. A data foi escolhida por ser a véspera do Dia de Todos os Santos, dia em que um grande número de fiéis compareceria à igreja. Foi o início da Reforma Protestante.

Martinho Lutero, nascido em 1483, era alemão. Seu pai fez um grande esforço para o filho conseguir ingressar na universidade para estudar Direito. Era sua intenção tornar-se advogado, mas seus planos, entretanto, sofreram uma brusca mudança em 1905, quando Lutero se viu ameaçado por uma tempestade de raios. Apavorado, ele fez a promessa de tornar-se monge caso sobrevivesse. Promessa feita, promessa cumprida. Naquele mesmo ano, ingressou na ordem dos Agostinianos.

Foi ordenado sacerdote dois anos depois. Após a ordenação, viajou para Roma, a cidade do papa, realizando o sonho de todo católico. Lutero, porém, voltou bastante decepcionado com o que viu. Ficou chocado principalmente com a vida desregrada dos padres e com a venda de objetos sagrados. Mas também se deu conta de que, mesmo na Alemanha, havia sacerdotes que se afastavam do padrão ideal de uma vida cristã.

Em 1512, aos 25 anos, Lutero obteve o título de doutor em Teologia. Ele se tornou professor na universidade e pregador na paróquia local. Mas não estava satisfeito. Ele se sentia angustiado com a ideia do pecado. Ele próprio se sentia pecador, por mais que quisesse ser um padre virtuoso. Não o satisfazia o ensinamento da Igreja de que a salvação espiritual pudesse se dar através da fé e de boas ações. Ele encontrou a resposta para sua crise de consciência no estudo da Bíblia ao concluir que a salvação somente podia ser alcançada por meio de uma graça concedida por Deus.

Foi nessa altura de sua vida que apareceu o monge Tetzel vendendo indulgências, fato que provou a ira de Lutero.


Surge o luteranismo
Lutero era, pois, sacerdote católico e doutor em Teologia. Era um homem inteligente, estudioso, além de ser um religioso devoto. Em 1517, aos 34 anos de idade, ele estava lecionando na universidade de Wittenberg. Justamente nessa data, apareceu na cidade um monge vendendo indulgências, um documento que prometia o perdão dos pecados. Em tempos anteriores, as indulgências eram concedidas graciosamente a quem prestasse serviços importantes para a fé cristã. Mas agora estavam sendo vendidas com a aprovação do papa. Tetzel, que era um bom vendedor, dizia que quem comprava as indulgências estava adquirindo um “passaporte para o céu”, sem passar pelos sofrimentos do purgatório. Com a venda de indulgências, o papa pretendia arrecadar dinheiro para a construção da basílica de São Pedro, em Roma.

Lutero decidiu, então, que era hora de criticar as indulgências e outros erros que ele encontrava no catolicismo. Reuniu suas críticas num documento e numerou os parágrafos de 1 a 95. Esse documento ficou conhecido pelo nome de “95 Teses”.

A Igreja bem que tentou fazer Lutero voltar atrás em suas críticas, mas não teve sucesso. Quanto mais Lutero discutia suas teses, mais aumentavam suas divergências com a Igreja. Ao mesmo tempo, suas ideias se espalhavam, graças à imprensa que havia sido inventada poucas décadas. E cada vez mais Lutero recebia manifestações de apoio. Finalmente, a paciência do papa se esgotou e em 1521 ele foi excomungado. Mas Lutero sentiu-se forte o bastante para enfrentar a Igreja e respondeu queimando em público a bula da excomunhão. Com isso, rompia de vez com o catolicismo.

As ideias de Lutero rapidamente começaram a ser discutidas em outras partes da Europa, e logo se percebeu que havia milhares de cristãos que concordavam com elas. Sem poder continuar na Igreja católica, Lutero acabou fundando uma nova Igreja.

Por que Lutero teve sucesso?
Lutero viveu num período de grandes transformações na Europa. Era o tempo das Grandes Navegações e das descobertas marítimas. Era o tempo de Leonardo da Vinci, o conhecido gênio das ciências e das artes (falecido em 1519, dois anos após a revolta de Lutero). O surgimento da imprensa, que havia multiplicado a tiragem de cópias dos livros, que até então era feita à mão.
Naquele tempo, a Igreja Católica era uma instituição muito poderosa. Era a única igreja na Europa e ninguém podia viver fora dela, nem encontrar a salvação senão através dela. Era dona de um terço de todas as terras da Europa, além de possuir um grande número de mosteiros, catedrais e obras de arte. O papa tinha poderes não apenas religiosos, mas também políticos, sendo, na época, a maior autoridade no continente, maior até do que os reis.

É claro que a Igreja fazia o bem: mantinha escolas, dava assistência religiosa e ajudava os mais pobres, por exemplo. Mas os abusos cometidos eram numerosos. Era comum a venda de objetos sagrados, tais como relíquias e as indulgências. Muitos padres eram casados. O caso do papa Alexandre VI, falecido em 1503, é ilustrativo: ele era pai de vários filhos, alguns deles nascidos depois de se tornar papa!

Claro que essa situação causava muito descontentamento e recebia muitas críticas. Lutero não foi o primeiro a criticar os abusos da Igreja; mas foi o primeiro a ser bem-sucedido. 

Diferentemente de outros, Lutero contou com o apoio de um número expressivo de fiéis que pensavam como ele. Foi ajudado pela imprensa, que permitiu multiplicar seus escritos. E, ainda, recebeu o apoio de um príncipe alemão, que lhe deu proteção quando ele foi perseguido. E isso fez uma grande diferença.

Uma nova Igreja cristã
Na formulação de suas doutrinas, Lutero foi ajudado por Felipe Melanchton, um de seus principais seguidores. Eis alguns pontos da nova religião de Lutero:

1.    O sacerdócio universal, segundo a qual qualquer pessoa pode interpretar a Bíblia e ser “sacerdote de si mesma”. Para facilitar essa nova prática, o próprio Lutero traduziu a Bíblia para o alemão. O sacerdócio universal significava que o cristão podia alcançar a salvação sem necessidade de um padre para intermediar a relação entre ele próprio e Deus.
2.    Salvação apenas pela fé. Lutero rejeitou a crença católica da salvação pelas obras, especialmente as “falsas boas obras”, pagas com dinheiro.
3.    Abolição do celibato. Na religião de Lutero, os sacerdotes poderiam casar-se. O próprio Lutero se casou e teve seis filhos.
4.    Eliminação dos sacramentos. Dos sete existentes do catolicismo, Lutero manteve apenas dois: o batismo e a eucaristia.
5.    Substituição do latim pela língua alemã nas cerimônias religiosas.
6.    Rejeição da hierarquia do clero católico (padre, bispo, arcebispo, cardeal e papa).
7.    Adoção da Bíblia como única fonte de autoridade infalível.

Lutero ensinou que a Igreja não devia ter poder político, mas cuidar apenas das coisas da religião. Ensinou também que os clérigos deviam estar submetidos às decisões dos governantes. Essas ideias agradaram aos príncipes alemães. É que, ao se verem livres da autoridade da Igreja Católica, os príncipes poderiam aumentar seu próprio poder. Além disso, também estavam interessados em se apropriar dos bens da Igreja que existiam em seus territórios.

Ao ensinar que qualquer um pode ser “sacerdote de si mesmo”, por meio da leitura da Bíblia, e ao traduzir Bíblia para o alemão, Lutero contribuiu poderosamente para estimular a leitura. E, consequentemente, a alfabetização, num tempo em que o analfabetismo era generalizado. Nesse aspecto, os países luteranos levaram uma grande vantagem sobre os países católicos.

A reforma luterana logo se espalhou pela Europa, dando origem a muitas outras religiões cristãs e até obrigou a própria Igreja a se reformar. 

quinta-feira, 27 de abril de 2017

BENJAMIN FRANKLIN   As  negociações  com  a  França  e  Inglaterra

O ponto de partida é a reunião, em 1776, de representantes das treze colônias no Segundo Congresso Continental na Filadélfia para discutir o que fazer em face da guerra com a Inglaterra, iniciada um ano antes. O Congresso optou por uma Declaração de Independência. Mas estava claro que, sozinhos, os americanos não conseguiriam vencer aquela que era, na época, a maior potência militar do mundo.
Uma missão americana na França
Ocorreu então aos congressitas pedir ajuda a outra potência europeia que era a grande adversária dos ingleses, a França. Eles decidiram, em segredo, enviar uma delegação para solicitar o apoio francês. Era composta por Benjamin Franklin, Silas Deane e Arthur Lee. Franklin era a figura mais importante da comissão, por sua idade, inteligência, e por sua experiência internacional. E também porque era, então, o americano mais famoso em toda a Europa, graças a suas descobertas científicas com destaque para o para-raios. Sua fama era tão grande que as pessoas foram às ruas para poder vê-lo quando ele chegou a Paris, em 21 de dezembro de 1776.
Benjamin Franklin e a experiência do para-raio.

Poucos dias depois de terem chegado a Paris, os delegados americanos apresentaram-se ao conde de Vergennes, ministro das Relações Exteriores da França. Nesse primeiro encontro foram direto ao que interessava: uma aliança com a França.
Vergennes, naquele momento, porém, não assumiu nenhum compromisso; apenas disse que consideraria um pedido escrito, se Franklin quisesse escrevê-lo. O ministro francês demonstrou clara simpatia pela causa americana. Deixou isso claro ao rei e a seus ministros, numa reunião em Versalhes. Alegou que a América precisava de apoio para vencer a Inglaterra. E era do interesse da França tentar prejudicar a Inglaterra defendendo a nova nação.
Outros ministros franceses não tinham tanta certeza, pois estavam preocupados com as finanças nacionais e com a falta de preparação militar da França. Por isso, pediram cautela.
No pedido escrito a pedido de Vergennes, Franklin enfatizou o cálculo realista de equilíbrio de poder. Argumentou que se a França e sua aliada Espanha aderissem à causa americana, a Grã-Bretanha perderia suas colônias, suas posses nas Índias Ocidentais, bem como o comércio que a tornara tão rica. Em contrapartida, os americanos estariam dispostos a reconhecer que França e a Espanha ficassem com quaisquer ilhas das Índias Ocidentais que tivessem tomado da Grã-Bretanha.
Se, ao contrário, alegou Franklin, a França negasse ajuda, então a América talvez tivesse de encerrar a guerra por um acordo com a Inglaterra.
Depois de alguns dias em solo francês, Franklin estabeleceu-se em Passy, uma propriedade a meia distância entre Versalhes e Paris. Franklin permaneceu ali durante os nove anos seguintes. E durante todo esse temp, uma multidão de pessoas passaria por esse local seja para conversar com Franklin ou apenas conhecê-lo.
Franklin pôs em ação o estratagema de extrair vantagens do prestígio da guerra de Independência, por saber que em toda a Europa a causa da América era considerada uma causa de toda a humanidade.
O governo francês rejeitou a proposta americana de uma aliança imediata. Ofereceu, porém, discretamente, alguma ajuda. A França faria um novo empréstimo secreto à América e permitiria que seus portos fossem usados por navios mercantes americanos.
Nessa altura, a causa dos delegados americanos foi favorecida pela chegada da notícia de uma vitória militar espetacular dos colonos sobre o general britânico John Burgoyne, em Saratoga. Essa vitória fez o conflito na América virar a favor dos colonos.
Os tratados de amizade e aliança com a França
Apesar desse fato auspicioso, os delegados americanos tiveram de esperar durante um ano pela continuidade das negociações. Por fim, depois de concluir um programa de rearmamento naval, a França se considerou pronta para selar um acordo com os delegados americanos. Em 14 de dezembro de 1777, Franklin e os outros dois delegados americanos se reuniram novamente com o ministro francês, que concordou finalmente com o pleno reconhecimento dos Estados Unidos e com a assinatura dos tratados de comércio e aliança. Havia uma ressalva, porém: a França precisava da aprovação da Espanha, pois os dois países haviam se comprometido a agir de comum acordo. Vergennes enviou um mensageiro a Madri e prometeu aos americanos que eles teriam uma resposta em três semanas.
Enquanto isso, os britânicos enviaram um emissário a Paris. Paul Wentworth chegou em meados de dezembro e enviou uma carta sugerindo um encontro com os delegados americanos.
Apenas Silas Deane compareceu ao encontro com Wentworth. E ouviu dele uma proposta de reconciliação entre a Grã-Bretanha e as colônias americanas. De acordo com a proposta, a América teria seu próprio Congresso, estaria sujeita ao Parlamento somente em questões de política e comércio externo, e seriam revogadas todas as leis ofensivas aprovadas desde 1763. Posteriormente, Franklin também se reuniu com Wentworth e ouviu uma proposta semelhante, mas considerou que ela chegara um pouco tarde demais.
Nesse ínterim, chegou a resposta da Espanha à proposta da França de uma aliança com os americanos. Surpreendentemente, o rei espanhol rejeitou o plano e declarou que a Espanha não via nenhuma razão para reconhecer a América. Caberia, pois, à França agir sozinha.
Com a Espanha de fora, Franklin aumentou a pressão sobre os franceses. Nos primeiros dias de 1778, ele deixou vazar para a imprensa que os emissários britânicos estavam na cidade e que poderiam chegar a um entendimento com os americanos se os franceses não assinassem um acordo imediatamente. Esse pacto, diziam as matérias, poderiam até incluir o apoio americano aos esforços britânicos para capturar ilhas da França nas Índias Ocidentais.
Ele esperava que os britânicos concluíssem que os americanos estavam próximos de um acordo com a França. Por outro lado, era de seu interesse que os franceses descobrissem que os americanos estavam se reunindo com um emissário britânico. A estratégia teve resultados imediatos.
Poucos dias depois, o secretário de Vergennes disse que os franceses estavam prontos para negociar com os delegados americanos.
Franklin escreveu pessoalmente a resposta, por meio da qual ele lembrava a proposta já feita de um tratado de amizade e comércio. A finalização imediata desse tratado, afirmou, tornaria possível rejeitar todas as proposições de paz feitas pela Inglaterra.
Em resposta, os franceses disseram aos delegados americanos que o rei daria parecer favorável aos tratados, mesmo sem a participação da Espanha. Eram dois tratados — um de amizade e comércio, outro de aliança militar. A França fazia uma exigência: no futuro, a América não poderia fazer a paz com a Grã-Bretanha sem o consentimento da França.
E assim foram conquistados os tratados com a potência que era a principal inimiga dos ingleses. Os direitos comerciais que os americanos concederam eram mútuos, mas não exclusivos, pois permitiam um sistema de comércio aberto e livre com outras nações. Os tratados com a França foram finalmente assinados no dia 6 de fevereiro de 1778. Em 20 de março, Luís XVI tornou oficiais os tratados franco-americanos, recebendo os três comissários em Versalhes.
Um espião britânico infiltrado, chamado Edward Bancroft, conseguiu cópias dos documentos e fez com que chegassem aos ministros em Londres em 42 horas. Bancroft fez mais do que isso, e aqui vai uma curiosidade: Bancroft enviou 420 libras esterlinas ao seu parceiro de negócios na Inglaterra, pedindo que investisse o dinheiro em ações de curta duração. Bancroft ganhou mil libras nas transações.
Faltava negociar o fim da guerra com os ingleses.
Negociações com a Inglaterra
Em abril de 1778, logo depois da assinatura dos tratados com a França, John Adams chegou a Paris para substituir Silas Deane no posto de delegado.
As relações entre Franklin e Adams nunca foram muito boas. A questão central que separava os dois era se se os Estados Unidos deveriam ou não mostrar gratidão, lealdade e fidelidade à França. Para Franklin, a França era uma nação generosa, amante da glória e, particularmente, da proteção aos oprimidos.
Adams, por sua vez, achava que a França apoiara os Estados Unidos para enfraquecer a Grã-Bretanha e para ganhar uma nova relação comercial lucrativa. Não havia pois, lugar para gratidão moral para nenhum dos dois lados. Entre eles prevaleceu apenas uma relação de civilidade, necessária para o bom andamento do trabalho.

As negociações com os ingleses seguiam arrastadas, porque a Inglaterra achava que ainda poderia vencer os colonos. Essa esperança, no entanto, acabou em outubro de 1781. Nessa data, o comandante das forças britânicas, general Cornwallis, havia sido encurralado na Virgínia por forças franco-americanas e teve de render. Com isso, a guerra praticamente se encerrou. Haviam se passado quatro anos desde a batalha de Saratoga e seis e meio desde o início dos confrontos.
As negociações de paz tiveram início em abril de 1782. O governo britânico esperava poder convencer os delegados a negociarem a paz em separado, sem ter de permanecerem ligados às demandas da França. A proposta foi recusada. Os delegados exigiram que os britânicos aceitassem tacitamente a independência dos Estados Unidos como precondição para as negociações.
As negociações se arrastaram ainda por alguns meses. Em meados de setembro, o governo britânico concedeu a seu negociador uma nova comissão e reafirmou que a independência americana poderia ser reconhecida como um passo preliminar para futuras discussões. As negociações oficiais, porém,  se prolongaram ainda por algumas semanas.
Na manhã de 30 de novembro de 1782, os negociadores americanos reuniram-se com os britânicos para assinar o tratado provisório que encerrou efetivamente a Guerra de Independência. Em respeito às obrigações devidas à França, o pacto não se tornaria definitivo até Grã-Bretanha e França chegarem a um acordo sobre os termos de uma paz. Isso levaria outros nove meses. Mas já o tratado definia como irrevogável a declaração de que os Estados Unidos eram “livres, soberanos e independentes”.
Epílogo
Após a assinatura do tratado de paz com a Inglaterra, os delegados americanos seguiram negociando acordos com outros países europeus. Nesse ínterim, John Jay se retirou dos trabalhos, sendo substituído por Thomas Jefferson.
Os três homens, que haviam trabalhado juntos na Declaração de Independência, agora trabalhavam juntos em Paris, preparando novos tratados e pactos comerciais com os países europeus.
“Na verdade, nesse terreno havia muitos pontos com que os três patriotas podiam concordar. Eles compartilhavam a crença no livre-comércio, em acordos abertos e na necessidade de acabar com o sistema mercantilista de acordos comerciais repressivos e esferas de influência restritivas. Adams, com generosidade incomum, observou: ‘Avançamos com maravilhosa harmonia, bom humor e unanimidade’” (ISAACSON, Walter. Benjamin Franklin, Uma vida americana. São Paulo: Companhia das Letras, p. 418. Em http://lelivros.space/book/baixar-livro-benjamin-franklin-walter-isaacson-em-pdf-epub-e-mobi-ou-ler-online/. Acesso em 7/abr/2017

sexta-feira, 24 de março de 2017

EINSTEIN, militância política de um cientista

  Todos sabem que Albert Einstein foi um grande cientista, mas o que pouca gente sabe é que ele também foi um militante engajado em várias causas de cunho político, como este texto vai procurar mostrar.
Albert Einstein, nascido na Alemanha em 1879, tornou-se uma celebridade mundial depois que a observação do eclipse solar de 1919 comprovou sua teoria da relatividade geral. Até então, e por quase três séculos, havia prevalecido nos meios científicos a concepção de Isaac Newton (1642-1727), segundo o qual havia um universo mecânico, baseado em leis e certezas absolutas. Com Einstein, surgiu uma nova visão do universo, em que o espaço e o tempo eram grandezas relativas, dependentes de pontos de referência. A opinião pública interessou-se avidamente pela nova teoria, e imediatamente Einstein foi elevado à condição de gênio.

Einstein era filho de judeus, e havia se formado em Física pela escola Politécnica de Zurique, em 1900. Queria ser professor, mas fracassou em suas tentativas para conseguir trabalho nas universidades. Uma das razões para esse fracasso foi sua condição de judeu, pois naquele tempo o antissemitismo já era muito forte na Alemanha. O melhor que Einstein conseguiu foi um emprego no escritório de patentes de Berna, na Suíça. E foi lá, sentado junto à sua mesa de trabalho, que ele começou a virar de cabeça para baixo o conhecimento acumulado pelos físicos até aquele momento. Era o ano de 1905, chamado de “annus mirabilis” de Einstein. Na ocasião, ele formulou, entre outras teorias, a da relatividade especial. Dez anos depois, ele conseguiu formular a teoria da relatividade geral, confirmada experimentalmente pelos astrônomos que observaram o eclipse de 1919.
Einstein no Escritório de Patentes,
Berna, Suíça, 1905

Até então, Einstein nunca levara sua condição de judeu muito a sério. Na verdade, ele se considerava um internacionalista. E foi justamente no momento em que se tornava famoso que abraçou o sionismo, ou seja, a luta pela criação de uma pátria para os judeus. Segundo suas próprias palavras: “Sou, como ser humano, um adversário do nacionalismo. Mas, como judeu, apoio a partir de hoje o empenho sionista.” (Isaacson, Walter, Einsten, sua vida, seu universo. São Paulo, Companhia das Letras, s/d, p. 256. Em https://lerlivros.online/livro/einstein-walter-isaacson. Acesso em 02 de março de 2017.)
Einstein não entrou oficialmente em nenhuma organização sionista, nem pertenceu a nenhuma sinagoga. Mas assumiu a luta em defesa dos assentamentos judaicos na Palestina e pela causa da identidade nacional entre os judeus de todas as partes do mundo. Outra bandeira que assumiu nessa época foi a oposição aos desejos “assimilacionistas”. Eram chamados assim os judeus que pretendiam “assumir” a identidade nacional do país onde viviam.
A união de Einstein com a causa sionista de se deu no primeiro semestre de 1921, bem no momento em que ele e sua mulher realizaram uma viagem aos Estados Unidos. O objetivo da viagem era arrecadar fundos, junto aos judeus estadunidenses, para fundar a Universidade Hebraica de Jerusalém. Em sua chegada, teve uma recepção digna de um pop star, com direito a um desfile triunfal de carro através das ruas de Nova Iorque, com a multidão gritando e empunhando bandeiras. Acompanhado de líderes do movimento sionista, Einstein foi recebido pelo presidente dos Estados Unidos, visitou Harvard e depois proferiu uma série de palestras na Universidade de Princeton (onde ele iria se estabelecer mais tarde, quando se mudou definitivamente para os EUA, em 1933).
A viagem aos Estados Unidos transformou Einstein definitivamente no que ele realmente queria ser - um internacionalista, um cidadão do mundo. Não por acaso, naquele ano de 1921, ele entrou para o Comité Internacional de Cooperação Intelectual da Liga das Nações, que tinha como objetivo promover o espírito pacifista no mundo acadêmico.

No início da década de 1920, o antissemitismo estava crescendo na Alemanha e, para Einstein, os convites para palestras não paravam de chegar, e com eles a necessidade de viagens, algo de que ele realmente gostava. Um desses convites foi para visitar a Ásia, numa viagem que iria durar seis meses. Ele partiu em outubro de 1922, e estava a caminho do Japão quando soube que havia ganhado o Prêmio Nobel de Física relativo a 1921. Na viagem de volta para a Europa, fez sua única visita à Palestina. 

O pacifismo radical de Einstein se desenvolveu ao longo da década de 20. Mas essa não foi a única causa pela qual se batia sua alma generosa. Ele foi também um defensor permanente da justiça social e racial. Por isso, seu apoio à causa sionista não impediu que sua solidariedade se estendesse também aos árabes que estavam sendo desalojados pelos judeus que chegavam à Palestina. Numa declaração feita em 1929, quando já tinha cinquenta anos, ele chegou a propor que se constituísse um “conselho especial” com a presença de representantes independentes tanto de judeus quanto de árabes, para solucionar as discordâncias entre os dois grandes povos semitas.

A idade de Einstein avançava, e cada dia mais sua atuação migrava do campo da ciência para o campo político. Os convites continuavam a chegar. Um deles era um convite para visitar a União Soviética, que foi recusado em virtude da oposição de Einstein ao regime totalitário vigente naquele país. Para ele, já era bem clara a opção por um regime político que respeitasse as liberdades do individuo. Por isso mesmo, ele se alegrou com um novo convite vindo dos EUA, um país do qual ele aprendera a gostar. Foi assim, que mais uma vez ele fez suas malas, e embarcou par a América em dezembro de 1930. Na sua chegada, foi recepcionado por membros da Liga de Resistentes à Guerra. Nesse encontro, ele foi abordado pelo líder socialista Norman Thomas, que tentou convencer Einstein de que o pacifismo não pode existir sem o socialismo. Einstein discordou, dizendo que o pacifismo não requeria o socialismo. Embora fosse, em tese, simpático ao socialismo, não lhe agradava o fato de as revoluções socialistas muitas vezes levarem à supressão da liberdade.
No seu discurso mais importante, proferido na New History Society, em Nova Iorque, ele fez seu mais veemente apelo pacifista até aquele momento. Defendeu a resistência incondicional à guerra e a recusa em prestar serviço militar. Segundo Einstein, se apenas 2% das pessoas obrigadas a cumprir o serviço militar anunciassem sua recusa em lutar, os governos ficariam impotentes. Eles não se atreveriam a mandar para a prisão um número tão grande de pessoas. Proferido pelo cientista mais famoso do mundo, o discurso obviamente teve grande repercussão.

As convicções políticas de Einstein sofreram um duro golpe quando da ascensão de Hitler e dos nazistas ao poder na Alemanha. Einstein havia sido sempre um pacifista. Mas foi capaz de mudar seu discurso conforme mudavam as circunstâncias. Ele não abandonou seu discurso pacifista, como disse não ao desarmamento sem segurança. Mais do que isso, reforçou seu compromisso com a ideia de uma organização federalista mundial. Para ele, a nova organização seria como uma Liga das Nações, porém dotada de poder efetivo, com seu próprio exército profissional para fazer cumprir suas decisões.

A ascensão de Hitler, no início de 1933, ocorreu no exato momento em que Einstein partia para uma nova viagem aos EUA. O cientista havia sido contratado para trabalhar na Universidade de Princeton. Ele e sua mulher se encontravam naquele momento na Bélgica, onde ele aproveitou para entregar seu passaporte ao consulado alemão em Bruxelas, declarando que renunciava à cidadania alemã. Da Bélgica, acompanhado da mulher, seguiu para a Inglaterra, e ali tomaram um navio para a terceira visita aos EUA, país em que viveriam o restante de suas vidas.

Em setembro de 1939, começou a Segunda Guerra Mundial. Diante do avanço nazista na Europa, Einstein deu um dos passos mais decisivos de sua vida, ao recomendar ao presidente Franklin Roosevelt a fabricação, sem demora, de uma bomba atômica. A recomendação foi feita por meio de uma carta, elaborada por ele e mais alguns físicos seus amigos. Parecia ser uma incoerência por parte de um pacifista, mas é que lhe haviam chegado informações de que físicos alemães trabalhavam na fissão atômica com urânio, e achava necessário que os países democráticos chegassem antes à bomba.
Apenas uma semana depois, o presidente Roosevelt enviou a Einstein uma carta de agradecimento. Nela, dizia que já havia nomeado uma comissão para estudar a sugestão da bomba atômica. O comité se reuniu pela primeira vez em Washington, no dia 21 de outubro. Einstein não estava presente. Contudo, seus amigos físicos participavam da comissão encarregada da tarefa. Como é sabido, a primeira bomba atômica seria usada contra o Japão em agosto de 1945. Quando soube, Einstein lamentou o fato, dizendo que jamais teria levantado um dedo em favor da bomba se soubesse que os alemães não iriam conseguir produzi-la.

Em 1940, Einstein recebeu a cidadania norte-americana. Na ocasião, concordou em dar uma entrevista no rádio para a série "Eu Sou Americano", realizada pelo serviço de imigração. Ele aproveitou a ocasião para reforçar a defesa de uma organização mundial. Disse que, para evitar futuras guerras, as nações teriam de ceder parte de sua soberania em favor de uma federação internacional armada.
Também foi um crítico do capitalismo. Afirmava que o capitalismo sem regras produzia grandes desigualdades de riqueza, depressão e desemprego. Tais problemas poderiam ser evitados, afirmava Einstein em um artigo publicado nessa época, mediante uma economia socialista, desde que se resguardasse da tirania e da centralização do poder. Einstein também apoiou, por atos e palavras, o combate à descriminação racial nos Estados Unidos. Nos anos 40, os cinemas continuavam segregando os negros, que eram proibidos também de experimentar sapatos e roupas nas lojas. Mas foi duro com seus compatriotas alemães, responsabilizando-os como povo pelos assassinatos em massa cometidos pelos nazistas. E até proibiu que seus livros voltassem a ser vendidos na Alemanha.

Apesar de seu compromisso com a causa sionista, inicialmente, Einstein havia combatido o projeto de criação de um Estado judeu na Palestina; mas depois que ele foi criado passou a defendê-lo. Segundo suas palavras: “Nunca considerei que a criação de um Estado fosse uma boa ideia. Mas agora não há como voltar atrás; é preciso lutar até o fim”. (Isaacson, op. cit, p. 458.) Seu nome até chegou a ser recomendado para a presidência de Israel. De fato, em 1952, com a morte do presidente de Israel, o cargo foi-lhe oferecido, mas Einstein declinou do convite, alegando não possuir as qualidades necessárias para a função.

Após o final da Segunda Guerra Mundial, teve início a Guerra Fria, que opôs estadunidenses e soviéticos numa disputa encarniçada. Nesse novo cenário, surgiu uma forte campanha anticomunista nos EUA. No clima de extrema tensão política que se seguiu, estourou o escândalo do casal Rosenberg. Em 1951, Julius e Ethel Rosenberg, judeus norte-americanos, foram condenados à pena capital, acusados de espionagem e traição. No entendimento do tribunal, eles teriam repassados aos soviéticos segredos da bomba atômica.
Mais uma vez, Einstein tomou posição, ao escrever uma carta ao então presidente dos EUA, Harry Truman, pedindo-lhe que poupasse os Rosenberg da morte. Truman, que estava prestes a deixar o cargo, preferiu deixar a decisão ao novo presidente. Coube a Eisenhower autorizar as execuções.

O último ato político Einstein, ocorreu em abril de 1955. Nessa ocasião, ele e seu amigo Bertrand Russel, filósofo e matemático, assinaram um manifesto em que diziam que armas nucleares ameaçam a existência da humanidade. E exortavam os governos a se posicionarem contra uma nova guerra mundial.

Na manhã de 18 de abril de 1955, uma segunda-feira, Einstein faleceu, aos 76 anos de idade, na casa em que vivia em Princeton. 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

MULATO

Sérgio Rodrigues

O termo 'mulato' nasceu racista, mas sem ele é difícil entender o Brasil
A palavra "mulato(a)" está na berlinda. Rebola no centro da polêmica às vésperas daquele que promete ficar na história como o Carnaval PC ("politicamente correto", claro, e não "Partido Comunista" ou "computador pessoal").
No pente fino que alguns ativistas passam em marchinhas consagradas à cata de vestígios de preconceito, a palavra tem sido tratada como piolho. Anda com fama de racista. Será?
Começo por varrer da avenida e jogar no lixo o argumento autoritário de que, não sendo mulato (há controvérsia), devo ficar calado no meu canto. É inaceitável.
Um axioma PC tão difundido quanto tolo sustenta que cabe apenas a quem se sente ofendido dizer o que é ofensivo, o que justificaria o fato de nazistas se ofenderem com a existência de judeus. Não. Decidir o que é ofensivo requer um concerto social de vozes. Vamos em frente.
Filha de uma época escravocrata (século 16), é inegável que a palavra "mulato" nasceu racista. Seu parentesco com "mula" é um fato. O elo entre o animal e a pessoa mestiça de branco e negro se deu pela ideia de hibridismo. O latim "mulus" já designava o produto –estéril– do "cruzamento do cavalo com a jumenta, ou da égua com o jumento" (Houaiss).
Como se vê, ninguém chamou propriamente o mulato de burro, mas isso não atenua o pecado original da palavra. Dificilmente uma associação entre pessoas e muares teria prosperado sem o adubo racista.
Entre essa constatação etimológica e a revolta de setores do movimento negro contra "mulato", contudo, há uma distância. Se qualquer um pode problematizar (termo da moda) o que quiser, problematizar a problematização não é menos saudável.
Palavras mudam. "Rapaz" é primo de "rapina": era o salteador. "Brasileiro" já foi o nome pejorativo dos nativos desta terra. Em mais de quatro séculos, o vocábulo "mulato" se encharcou tanto de história que hoje seria impossível descartá-lo sem uma grave perda cultural.
Desde que Gilberto Freyre enterrou o racismo pseudocientífico da eugenia, exaltando a miscigenação, o "mulatismo cultural" virou marca de identidade nacional. A impureza como destino, a mistura como salvação contra a intolerância crescente do mundo. Nossa melhor arte o confirma.
Claro que nada disso é simples. Como apontam os críticos do mulatismo, ele também pode mascarar conflitos e atenuar tensões num país em que até hoje há quem defenda esta ideia espantosa: "Não existe racismo no Brasil".
O Brasil é racista, mas de um racismo meândrico muito diferente do americano, no qual negro é negro, branco é branco e a mulata não é a tal. E vem de lá o modelo –ululantemente racista– segundo o qual basta ter "uma gota" de sangue negro para ser negro. Não mulato, não mestiço, nada de nuance. Negro.
A importação desse trator conceitual é avanço? Retrocesso? Meio a meio? Ninguém disse que seria simples. De todo modo, acho recomendável ir devagar nessa hora, nem que seja em respeito ao sábio mandamento carnavalesco de João Bosco e Aldir Blanc: "Não põe corda no meu bloco!"
Baixando o volume da gritaria, talvez a gente consiga distinguir na cantoria vinda do bloco que desfila na rua ao lado o potencial libertário dos versos mulatos de Martinho da Vila: "José do Patrocínio/ Aleijadinho/ Machado de Assis que também era mulatinho/ Salve a mulatada brasileira!"


terça-feira, 24 de janeiro de 2017


CATARINA II, A GRANDE, DA RÚSSIA


Um jeito agradável de aprender história é através da leitura de biografias. A biografia personaliza os acontecimentos e permite o conhecimento de detalhes que os livros escolares de História não contam. Devo dizer que gosto de detalhes e para esta pequena biografia escolhi Catarina II, imperatriz da Rússia desde 1762 até sua morte em 1796. Por suas realizações, foi cognominada Catarina, a Grande, e seu período de governo foi considerado a Era Dourada do Império Russo.

Ela nasceu em 21 de abril de 1729 e recebeu o nome de Sofia Augusta Frederica. O nome Catarina foi adotado depois.

Seu pai, Cristiano Augusto, não pertencia à alta nobreza, mas ostentava o título de príncipe – príncipe do pequeno estado Anhalt-Zerbst, pertencente ao reino da Prússia (que veio a ser a Alemanha um século e meio mais tarde).

Enquanto crescia, Sofia recebeu uma educação esmerada, como era comum entre príncipes e princesas. Sofia tinha ama, tutor, governanta, professores de música, dança, equitação, religião, etiqueta e idiomas. Aprendeu a falar e escrever corretamente em francês, que era o idioma das pessoas cultas na época. Curiosidade: nas famílias nobres germânicas, a língua nativa, o alemão, era considerada uma língua vulgar.

Ela era prima em segundo grau de Carlos Pedro Ulrich, único neto vivo de Pedro, o Grande, que havia sido Czar da Rússia. Era, portanto, herdeiro do trono russo, ocupado naquele momento por sua tia, a imperatriz Elizabeth, cujo reinado se estendeu de 1741 a 1761.

Quando tinha 14 anos, Sofia foi para a Rússia, convidada por sua tia, que pretendia casá-la com o Carlos Pedro Ulrich (mais tarde, imperador Pedro III). A viagem de trenó, em pleno inverno, demorou 23 dias. Uma vez em Moscou, para habilitar-se à nova posição, Sofia converteu-se à Igreja Ortodoxa. [Explicação: Igreja Ortodoxa é como passou a chamar-se um dos ramos em que se dividiu a Igreja Cristã em 1054. Desde esse fato, passou a existir a Igreja Católica, no ocidente, e a Igreja Ortodoxa, no oriente.] E após seu noivado com Pedro, Sofia recebeu o nome de Catarina que lhe foi dado pela imperatriz.

O casamento se realizou em 1745. Os noivos receberam os títulos de grão-duque e grã-duquesa, e ambos eram tratados por Sua Alteza Imperial. Ele foi declarado herdeiro do império, sucessor de Elisabeth. De Catarina esperava-se, apenas, que desse um herdeiro para o trono.

Era grande a pressão para que o jovem casal gerar um herdeiro, mas a relação entre Catarina e Pedro, entretanto, nunca foi boa. As diferenças entre eles eram enormes. Pedro não se preocupava em preparar-se para um dia exercer as altas funções de imperador; era displicente, pouco inteligente e não levava nada a sério, a não ser brincar de soldado. E, para piorar, nunca assumiu efetivamente a condição de marido.

Além disso, marido e mulher tinham preferências muito distintas. Pedro não era dado à leitura, nunca se converteu verdadeiramente à Igreja Ortodoxa, e nem fez questão de aprender o idioma nacional. Em vez disso, manteve sua convicção luterana e continuou a cultivar simpatia pela cultura e pela monarquia da Prússia, sua terra natal.

Catarina agiu de forma bem difetente. Desde o começo de sua vida em seu novo país, ela percebeu que para ser bem sucedida devia aprender a língua e incorporar os valores da cultura russa. Ela encarava suas responsabilidades com seriedade, interessando-se pela politica e pela diplomacia. Gostava de dançar e fazia questão de exibir sua beleza nos salões. Também gostava de ler: entre suas leituras se incluem os autores iluministas. [Foram chamados iluministas os participantes de movimento denominado Iluminismo, que reuniu boa parte da elite europeia do século 18.] Dois deles, Diderot e Voltaire, se tornaram seus grandes amigos, com quem ela manteve intensa correspondência. A convite de Catarina, quando ela já era imperatriz, Diderot esteve na Rússia durante um ano, entre 1773 e 1774.

Havia, portanto, muitas diferenças entre Pedro e Catarina. Em virtude dessas diferenças, aconteceu algo comum nos casais reais da época: tanto o marido quanto a mulher tiveram amantes. Detalhe: com o consentimento recíproco. E foi de seus amantes (chamados “favoritos”) que Catarina teve seus três filhos. O primeiro deles nasceu em setembro de 1754. Recebeu o nome de Paulo e se tornou o primeiro na linha de sucessão do trono.

Em dezembro de 1761, a imperatriz Elizabeth morreu. Ela tinha 53 anos de idade e tinha governado por 20 anos. Imediatamente, o grão-duque foi proclamado Pedro III, imperador da Rússia.

Porém, o reinado de Pedro durou pouco. Estabanado, ele fez tudo o que podia para perder o apoio dos pilares do Estado russo: a Igreja Ortodoxa e o Exército. Como se isso não bastasse, abandonou os aliados da Rússia, ao celebrar a paz em separado com a Prússia, com quem os russos travavam uma guerra havia vários anos. E, para piorar, provocou uma guerra contra a Dinamarca.

Ao mesmo tempo em que Pedro perdia a simpatia dos russos, sua mulher, Catarina, se tornava cada dia mais popular. Tinha aliados fiéis no governo e no Exército. Esses amigos começaram a trabalhar para tirar Pedro do poder e colocar Catarina. A oportunidade apareceu no final de junho de 1762, quando Pedro se afastou da capital para treinar os soldados que iriam para a guerra contra a Dinamarca.

Quando seus amigos deram o sinal, Catarina se pôs à frente das tropas sublevadas e marchou na direção do local onde estava Pedro. Ele foi preso antes mesmo da chegada dela. Foi enviado para uma prisão domiciliar e, sete dias depois, acabou sendo morto por alguns dos mais leais amigos da nova imperatriz.

Catarina sabia que não tinha nenhum direito à coroa. E, por maior que fosse a aceitação de seu nome, ela era, em resumo, uma usurpadora. Por isso, tratou de consolidar apoios por meio da distribuição de condecorações, promoções, dinheiro e propriedades. Presenteou até mesmo os poucos adversários. Em setembro, ela foi coroada numa cerimônia grandiosa realizada em Moscou. Durante a cerimônia, Catarina ouviu o sacerdote descrever sua ascensão como obra de Deus e dizer a ela que “o Senhor colocou a coroa em sua cabeça”. Isso legitimava seu reinado.
Catarina, aos 31 anos, com seu marido Pedro e o
filho Paulo. 1760.


Nos anos seguintes, ela iria governar o império russo de forma exemplar e conduzi-lo à posição de maior potência da Europa. Catarina exerceu o poder de forma absolutista. Sua assinatura num decreto era lei e, se essa fosse sua vontade, poderia significar vida ou morte para qualquer um de seus súditos. Uma demonstração de seu poder ocorreu logo após sua ascensão ao trono. Até então, sua pensão como imperatriz equivalia a 1/13 da receita da nação. Ela decretou que daí em diante não haveria mais distinção entre suas finanças pessoais e as da nação. Ou seja, ela poderia gastar quanto quisesse!

Apesar da imensa concentração de poder em suas mãos, porém, Catarina não podia tudo. Um exemplo dessa limitação foi sua incapacidade para acabar com a servidão. [Existe servidão quando existem servos, assim como existe escravidão quando existem escravos.]

Os servos eram camponeses, e na época constituíam a metade dos 20 milhões de habitantes da Rússia. A maior parte dos servos não eram livres. Também não eram escravos, mas eram tratados como se o fossem; até para viver, dependiam da vontade de seus senhores. Catarina era pessoalmente contra a servidão, mas nada pôde fazer diante da resistência dos senhores de terra e proprietários dos servos – a nobreza. (A servidão somente seria extinta na Rússia em 1861, apenas dezessete anos antes de a escravidão ser abolida no Brasil.)

Uma das medidas mais importantes de Catarina só foi possível por causa do seu poder absoluto. Foi um decreto que transferia todas as terras e propriedades da Igreja Ortodoxa para as mãos do Estado. A partir de então todos os membros do clero se tornaram assalariados pagos pelo Estado. Essa medida diminuía o poder da Igreja Ortodoxa e aumentava a riqueza do Estado governado por Catarina. O clero, obviamente, protestou, mas teve de aceitar.

Outra iniciativa importante da imperatriz foi convocar uma comissão legislativa, que reuniu 564 delegados, para discutir queixas e sugestões, e revelar as necessidades de todas as classes e regiões do império. No final de seu trabalho, a comissão devia elaborar um código de leis para o império russo. Mas isso não aconteceu. Após haver se reunido durante 18 meses, sem ter chegado a resultados práticos, a comissão foi dissolvida pela imperatriz.  E, em 1773, fiel ao ideário iluminista, ela publicou um decreto que garantia a liberdade religiosa na Rússia.

A relativa tranquilidade do reinado de Catarina foi perturbada por uma revolta popular de grandes proporções, iniciada em 1773. Seu líder era um soldado desertor, analfabeto, chamado Iemelian Pugachev. Dizendo-se o imperador Pedro III, ele prometia prender a imperatriz Catarina, acabar com a servidão e exterminar os nobres. Atraiu uma grande massa de descontentes de regiões remotas da Rússia e chegou a ameaçar a capital, Moscou. Em 1775, Pugachev foi preso, torturado e morto.

Durante o reinado de Catarina, a Rússia enfrentou e venceu, duas vezes, o Império Otomano (Turquia). As vitórias lhe permitiram anexar a Crimeia e outros territórios no Mar Negro. Essas conquistas possibilitaram aos russos realizar um velho sonho: a livre passagem de seus navios para o mar Mediterrâneo.

A oeste da Rússia, estava o reino da Polônia, que possuía territórios que interessavam à Rússia. Catarina, aos poucos, foi tomando esses territórios, e em 1795 acabou por abocanhar cerca da metade do país. O restante foi dividido entre a Prússia e Áustria. A Polônia foi riscada do mapa. (A Polônia somente voltaria a existir 123 anos depois, em 1918, no final da Primeira Guerra Mundial.)

Mapa mostra as três partilhas sofridas pela
Polônia, sendo a última em 1795.


Catarina era uma fervorosa defensora das artes e da cultura. Uma de suas iniciativas mais duradouras foi a criação do Museu Hermitage, apenas um ano após sua subida ao trono. Nos séculos seguintes, o Hermitage não parou de crescer, e hoje se tornou um dos maiores museus de arte do mundo: possui mais de três milhões de peças. Se um visitante dedicar 8 horas diariamente para visitar o museu e gastar um segundo para ver cada peça, ele vai precisar de nada menos do que 104 dias para ver todo acervo!

A simpatia de Catarina pelo iluminismo sofreu uma reviravolta total a partir do início da Revolução Francesa, em 1789. Os revolucionários franceses se inspiravam nas ideias dos escritores iluministas que Catarina admirava. Mas, temerosa de que as mesmas ideias se voltassem contra ela, Catarina não hesitou em introduzir a censura na Rússia. Primeiramente, proibiu a importação de jornais e livros franceses. Posteriormente, em 1796, pouco antes de sua morte, a imperatriz decretou o fechamento de todas as gráficas privadas e a obrigação de que todos os livros fossem apresentados a um censor do Estado antes de sua publicação.

Como seus súditos viam o poder absoluto que Catarina exercia, e como ela própria se via? A resposta a essa pergunta foi dada por um cortesão que contou uma conversa que tivera, certa vez, com a imperatriz. Durante a conversa, ele revelou sua surpresa “diante da obediência cega a todos os desejos dela, da ânsia e entusiasmo de todos para tentar contentá-la".
- Não é tão fácil quanto você imagina, ela respondeu. Em primeiro lugar, minhas ordens não seriam cumpridas se fossem ordens que não pudessem ser cumpridas. Você sabe com que prudência e circunspeção eu ajo na promulgação das leis. Examino as circunstâncias, peço conselhos, consulto a parte esclarecida do povo, e assim descubro o efeito que a lei terá. Quando estou certa de que terei boa aprovação, só então dou as ordens e tenho o prazer de observar o que você chama de obediência cega. Esta é a base do poder ilimitado. Mas creia-me, não obedeceriam cegamente se as ordens não fossem adaptadas à opinião geral.” (Massie, Robert. Catarina, a Grande. Disponível em https://lelivros.pro/?x=15&y=16&s=catarina+II Acesso em 31/jan/2017.)

Catarina foi cognominada “a Grande”. Ela governou por 34 anos. Faleceu em setembro de 1796, vítima de um derrame cerebral (AVC) e foi sucedida por seu filho Paulo I.


domingo, 31 de julho de 2016

LEMBRAR  E  ESQUECER  OU  A  VIDA  ENTRE  DORY  E FUNES


A  memória  é  um  conceito  complexo.  Quase todos a associam a lembrar-se de um determinado dado quando necessário. A partir de certa idade, quando começamos a ter dificuldades no acesso imediato, surge a preocupação: será que eu estaria com Alzheimer?
Leandro Karnal, 31 Julho 2016 |

Você já se deu conta de que nossa civilização é o culto à reminiscência? Nossas ruas e praças, nossas datas e agendas existem a serviço da evocação. Discutimos o valor político da memória ao questionar se determinada pessoa deve continuar sendo homenageada batizando uma via pública. O elevado Costa e Silva transformou-se em João Goulart, em São Paulo. Para os usuários comuns, nem o presidente e nem o general: apenas Minhocão... A metáfora da forma suplanta o debate político. Lutamos para controlar a recordação. Esquecer datas é algo perigoso no nosso código afetivo. Lembrar é valorizar. Esquecer é desprezar.
Para um historiador, a memória é uma construção. Ela não significa trazer um fato à tona, mas como eu, hoje, construo minha relação com o fato pretérito. Nunca se trata de recriar o passado, ou como queria Leopold von Ranke, descrever as coisas tal como “realmente foram”. Hoje, é mais usual dizer que o especialista em memória (o historiador) estuda como são lembrados ou esquecidos os fatos históricos. Sob este enfoque, toda história seria história contemporânea.
No romance Incidente em Antares, Érico Verissimo fala de um naturalista francês que indica a estrela que dá nome à cidade. A ideia foi substituída pela afirmação de que o nome da cidade, Antares, derivava da abundância das antas na região... Pensei nisto quando vi plantadas araucárias em áreas reurbanizadas de Pinheiros, em São Paulo. Imaginei que, em 100 anos, quando estas árvores estivessem frondosas, alguém diria: o nome do bairro surgiu daqui, da existência destes pinheiros. Confundiriam a causa com a consequência e, em não havendo outra fonte, a versão seria vitoriosa. Seria como o balcão de Julieta em Verona: a lenda criou o fato concreto.
Aprofundo o tema com uma ficção. Uma jovem de 15 anos faz seu baile de debutante e passa o dia seguinte ao celular narrando detalhes da noite. Depois, aos 25, a mesma jovem observa as fotos e acha tudo “cafona”. Por fim, a personagem observa as fotos aos 70 anos de idade e enfatiza como era bonita. Qual das três narrativas contém a memória verdadeira? A dos 15, 25 ou 70 anos? Voltamos ao valor histórico: o fato deve ser relembrado dentro do contexto novo da mulher que ressignifica o resgate da festa.
Jorge Luis Borges criou uma personagem: Funes, el memorioso. Ele é incapaz do esquecimento. A personagem sofre de hipermnésia: memória absoluta. Funes morreu jovem e não conseguia mais pensar, porque, como disse Borges, refletir seria esquecer diferenças, generalizar e abstrair. Quem lembra tudo, nada pensa. Repetir dados não é inteligência. Situação oposta: Macondo, a mítica aldeia deCem Anos de Solidão, sofre por se esquecer de tudo. Só a poção do cigano Melquíades salva o povo na imaginação de Gabriel García Márquez.
O que lembramos? Quando lembramos? Quais as coisas que desejamos esquecer? A memória é uma construção permanente. Estamos todos mais ou menos próximos de Dory, a simpática peixinha que tem memória deficitária. Dory é o anti-Funes e parece mais feliz.
Esquecemos de forma aleatória e recordamos a partir de critérios pouco claros. Para evitar estas irregularidades, foi inventada uma arte mnemônica: conjunto de técnicas para que tudo venha à tona quando necessário. Este exercício fez a glória da Giordano Bruno e da escola jesuítica (aliás, hoje é dia de Santo Inácio de Loyola). Para recordar argumentos, estabelecia-se o “palácio da memória” com salas e armários concatenados, tentando organizar as informações. O clássico da inglesa Frances Yates (A Arte da Memória, ed. Unicamp) foi traduzido muito tardiamente no Brasil, mas ainda é um excelente estudo sobre esta arte quase perdida. É leitura obrigatória para quem deseja estudar o conceito de memória.
Em tempos de memória de computador e celular com todos os números, estamos cumprindo de forma absoluta a maldição do deus Tot do Egito. Quando inventou a escrita, ele lançou uma praga-advertência para os humanos: Tudo o que vocês escreverem, esquecerão” (sic). Os celulares cumprem, integralmente, a profecia do deus babuíno do Nilo.
Quando os Bourbons foram restaurados no trono após Napoleão I, dizia-se na França uma frase irônica em função dos traços autoritários que permaneciam com a família, mas acompanhados de sede de vingança contra revolucionários: “Os Bourbons não aprenderam nada, mas não se esqueceram de nada”. Esta é uma grande lição. Para viver temos de lembrar de algumas coisas e esquecer de outras coisas. Funes e Luís XVIII são exemplos bons: é impossível viver bem sem esquecer. O erro de nada lembrar é a amnésia, vestíbulo de uma morte. O erro de nada esquecer é o divórcio, a perda dos amigos e a dor permanente... Viver é selecionar memórias, como fazemos com as fotos do aparador: aquelas são as imagens da família que eu desejaria ter. Também ocupam um espaço fantasmagórico as fotos que não estão ali: os momentos que desejo obliterar para sempre. Felicidade está no equilíbrio do binômio lembrar/esquecer. Bom domingo a vocês!


domingo, 24 de julho de 2016


MINHA FILOSOFIA DE VIDA

QUANDO ME CONHECI DE VERDADE
Descobri que eu não tinha obrigação de salvar o mundo.
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Abandonei radicalismos e posturas ideológicas, e segui pelo “caminho do meio”, que é o caminho do bom senso.
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Tomei como resposta para minhas dúvidas essa simples frase: “Há mais mistérios entre o Céu e a Terra do que supõe nossa vã filosofia”.
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Agradeci de joelhos a meus pais por me terem dado a oportunidade de viver neste planeta maravilhoso.
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Compreendi o significado da frase “Sou humano e nada do que é humano me é estranho”.
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Entendi que o amanhecer significa o recomeço e que o entardecer é a hora do repouso e comecei a ver com outros olhos a beleza do Universo.
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Comecei a entender a língua dos pássaros, e até me peguei contando estrelas.
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Parei de ter vergonha das minhas fraquezas e deixei de dar importância às opiniões que os outros fazem de mim..
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Entendi como era importante rir de tudo, até de mim mesmo; e, então, descobri o real significado da palavra FELICIDADE.