terça-feira, 24 de janeiro de 2017


CATARINA, A GRANDE

Um jeito agradável de aprender história é através da leitura de biografias. A biografia personaliza os acontecimentos e permite o conhecimento de detalhes que os livros escolares de História não contam. Devo dizer que gosto de detalhes e para esta pequena biografia escolhi Catarina II, imperatriz da Rússia desde 1762 até sua morte em 1796. Por suas realizações, foi cognominada Catarina, a Grande, e seu período de governo foi considerado a Era Dourada do Império Russo.

Ela nasceu em 21 de abril de 1729 e recebeu o nome de Sofia Augusta Frederica. O nome Catarina foi adotado depois.

Seu pai, Cristiano Augusto, não pertencia à alta nobreza, mas ostentava o título de príncipe – príncipe do pequeno estado Anhalt-Zerbst, pertencente ao reino da Prússia (que veio a ser a Alemanha um século e meio mais tarde).

Enquanto crescia, Sofia recebeu uma educação esmerada, como era comum entre príncipes e princesas. Sofia tinha ama, tutor, governanta, professores de música, dança, equitação, religião, etiqueta e idiomas. Aprendeu a falar e escrever corretamente em francês, que era o idioma das pessoas cultas na época. Curiosidade: nas famílias nobres germânicas, a língua nativa, o alemão, era considerada uma língua vulgar.

Ela era prima em segundo grau de Carlos Pedro Ulrich, único neto vivo de Pedro, o Grande, que havia sido Czar da Rússia. Era, portanto, herdeiro do trono russo, ocupado naquele momento por sua tia, a imperatriz Elizabeth, cujo reinado se estendeu de 1741 a 1761.

Quando tinha 14 anos, Sofia foi para a Rússia, convidada por sua tia, que pretendia casá-la com o Carlos Pedro Ulrich (mais tarde, imperador Pedro III). A viagem de trenó, em pleno inverno, demorou 23 dias. Uma vez em Moscou, para habilitar-se à nova posição, Sofia converteu-se à Igreja Ortodoxa. [Explicação: Igreja Ortodoxa é como passou a chamar-se um dos ramos em que se dividiu a Igreja Cristã em 1054. Desde esse fato, passou a existir a Igreja Católica, no ocidente, e a Igreja Ortodoxa, no oriente.] E após seu noivado com Pedro, Sofia recebeu o nome de Catarina que lhe foi dado pela imperatriz.

O casamento se realizou em 1745. Os noivos receberam os títulos de grão-duque e grã-duquesa, e ambos eram tratados por Sua Alteza Imperial. Ele foi declarado herdeiro do império, sucessor de Elisabeth. De Catarina esperava-se, apenas, que desse um herdeiro para o trono.

Era grande a pressão para que o jovem casal gerar um herdeiro, mas a relação entre Catarina e Pedro, entretanto, nunca foi boa. As diferenças entre eles eram enormes. Pedro não se preocupava em preparar-se para um dia exercer as altas funções de imperador; era displicente, pouco inteligente e não levava nada a sério, a não ser brincar de soldado. E, para piorar, nunca assumiu efetivamente a condição de marido.

Além disso, marido e mulher tinham preferências muito distintas. Pedro não era dado à leitura, nunca se converteu verdadeiramente à Igreja Ortodoxa, e nem fez questão de aprender o idioma nacional. Em vez disso, manteve sua convicção luterana e continuou a cultivar simpatia pela cultura e pela monarquia da Prússia, sua terra natal.

Catarina agiu de forma bem difetente. Desde o começo de sua vida em seu novo país, ela percebeu que para ser bem sucedida devia aprender a língua e incorporar os valores da cultura russa. Ela encarava suas responsabilidades com seriedade, interessando-se pela politica e pela diplomacia. Gostava de dançar e fazia questão de exibir sua beleza nos salões. Também gostava de ler: entre suas leituras se incluem os autores iluministas. [Foram chamados iluministas os participantes de movimento denominado Iluminismo, que reuniu boa parte da elite europeia do século 18.] Dois deles, Diderot e Voltaire, se tornaram seus grandes amigos, com quem ela manteve intensa correspondência. A convite de Catarina, quando ela já era imperatriz, Diderot esteve na Rússia durante um ano, entre 1773 e 1774.

Havia, portanto, muitas diferenças entre Pedro e Catarina. Em virtude dessas diferenças, aconteceu algo comum nos casais reais da época: tanto o marido quanto a mulher tiveram amantes. Detalhe: com o consentimento recíproco. E foi de seus amantes (chamados “favoritos”) que Catarina teve seus três filhos. O primeiro deles nasceu em setembro de 1754. Recebeu o nome de Paulo e se tornou o primeiro na linha de sucessão do trono.

Em dezembro de 1761, a imperatriz Elizabeth morreu. Ela tinha 53 anos de idade e tinha governado por 20 anos. Imediatamente, o grão-duque foi proclamado Pedro III, imperador da Rússia.

Porém, o reinado de Pedro durou pouco. Estabanado, ele fez tudo o que podia para perder o apoio dos pilares do Estado russo: a Igreja Ortodoxa e o Exército. Como se isso não bastasse, abandonou os aliados da Rússia, ao celebrar a paz em separado com a Prússia, com quem os russos travavam uma guerra havia vários anos. E, para piorar, provocou uma guerra contra a Dinamarca.

Ao mesmo tempo em que Pedro perdia a simpatia dos russos, sua mulher, Catarina, se tornava cada dia mais popular. Tinha aliados fiéis no governo e no Exército. Esses amigos começaram a trabalhar para tirar Pedro do poder e colocar Catarina. A oportunidade apareceu no final de junho de 1762, quando Pedro se afastou da capital para treinar os soldados que iriam para a guerra contra a Dinamarca.

Quando seus amigos deram o sinal, Catarina se pôs à frente das tropas sublevadas e marchou na direção do local onde estava Pedro. Ele foi preso antes mesmo da chegada dela. Foi enviado para uma prisão domiciliar e, sete dias depois, acabou sendo morto por alguns dos mais leais amigos da nova imperatriz.

Catarina sabia que não tinha nenhum direito à coroa. E, por maior que fosse a aceitação de seu nome, ela era, em resumo, uma usurpadora. Por isso, tratou de consolidar apoios por meio da distribuição de condecorações, promoções, dinheiro e propriedades. Presenteou até mesmo os poucos adversários. Em setembro, ela foi coroada numa cerimônia grandiosa realizada em Moscou. Durante a cerimônia, Catarina ouviu o sacerdote descrever sua ascensão como obra de Deus e dizer a ela que “o Senhor colocou a coroa em sua cabeça”. Isso legitimava seu reinado.
Catarina, aos 31 anos, com seu marido Pedro e o
filho Paulo. 1760.


Nos anos seguintes, ela iria governar o império russo de forma exemplar e conduzi-lo à posição de maior potência da Europa. Catarina exerceu o poder de forma absolutista. Sua assinatura num decreto era lei e, se essa fosse sua vontade, poderia significar vida ou morte para qualquer um de seus súditos. Uma demonstração de seu poder ocorreu logo após sua ascensão ao trono. Até então, sua pensão como imperatriz equivalia a 1/13 da receita da nação. Ela decretou que daí em diante não haveria mais distinção entre suas finanças pessoais e as da nação. Ou seja, ela poderia gastar quanto quisesse!

Apesar da imensa concentração de poder em suas mãos, porém, Catarina não podia tudo. Um exemplo dessa limitação foi sua incapacidade para acabar com a servidão. [Existe servidão quando existem servos, assim como existe escravidão quando existem escravos.]

Os servos eram camponeses, e na época constituíam a metade dos 20 milhões de habitantes da Rússia. A maior parte dos servos não eram livres. Também não eram escravos, mas eram tratados como se o fossem; até para viver, dependiam da vontade de seus senhores. Catarina era pessoalmente contra a servidão, mas nada pôde fazer diante da resistência dos senhores de terra e proprietários dos servos – a nobreza. (A servidão somente seria extinta na Rússia em 1861, apenas dezessete anos antes de a escravidão ser abolida no Brasil.)

Uma das medidas mais importantes de Catarina só foi possível por causa do seu poder absoluto. Foi um decreto que transferia todas as terras e propriedades da Igreja Ortodoxa para as mãos do Estado. A partir de então todos os membros do clero se tornaram assalariados pagos pelo Estado. Essa medida diminuía o poder da Igreja Ortodoxa e aumentava a riqueza do Estado governado por Catarina. O clero, obviamente, protestou, mas teve de aceitar.

Outra iniciativa importante da imperatriz foi convocar uma comissão legislativa, que reuniu 564 delegados, para discutir queixas e sugestões, e revelar as necessidades de todas as classes e regiões do império. No final de seu trabalho, a comissão devia elaborar um código de leis para o império russo. Mas isso não aconteceu. Após haver se reunido durante 18 meses, sem ter chegado a resultados práticos, a comissão foi dissolvida pela imperatriz.  E, em 1773, fiel ao ideário iluminista, ela publicou um decreto que garantia a liberdade religiosa na Rússia.

A relativa tranquilidade do reinado de Catarina foi perturbada por uma revolta popular de grandes proporções, iniciada em 1773. Seu líder era um soldado desertor, analfabeto, chamado Iemelian Pugachev. Dizendo-se o imperador Pedro III, ele prometia prender a imperatriz Catarina, acabar com a servidão e exterminar os nobres. Atraiu uma grande massa de descontentes de regiões remotas da Rússia e chegou a ameaçar a capital, Moscou. Em 1775, Pugachev foi preso, torturado e morto.

Durante o reinado de Catarina, a Rússia enfrentou e venceu, duas vezes, o Império Otomano (Turquia). As vitórias lhe permitiram anexar a Crimeia e outros territórios no Mar Negro. Essas conquistas possibilitaram aos russos realizar um velho sonho: a livre passagem de seus navios para o mar Mediterrâneo.

A oeste da Rússia, estava o reino da Polônia, que possuía territórios que interessavam à Rússia. Catarina, aos poucos, foi tomando esses territórios, e em 1795 acabou por abocanhar cerca da metade do país. O restante foi dividido entre a Prússia e Áustria. A Polônia foi riscada do mapa. (A Polônia somente voltaria a existir 123 anos depois, em 1918, no final da Primeira Guerra Mundial.)

Mapa mostra as três partilhas sofridas pela
Polônia, sendo a última em 1795.


Catarina era uma fervorosa defensora das artes e da cultura. Uma de suas iniciativas mais duradouras foi a criação do Museu Hermitage, apenas um ano após sua subida ao trono. Nos séculos seguintes, o Hermitage não parou de crescer, e hoje se tornou um dos maiores museus de arte do mundo: possui mais de três milhões de peças. Se um visitante dedicar 8 horas diariamente para visitar o museu e gastar um segundo para ver cada peça, ele vai precisar de nada menos do que 104 dias para ver todo acervo!

A simpatia de Catarina pelo iluminismo sofreu uma reviravolta total a partir do início da Revolução Francesa, em 1789. Os revolucionários franceses se inspiravam nas ideias dos escritores iluministas que Catarina admirava. Mas, temerosa de que as mesmas ideias se voltassem contra ela, Catarina não hesitou em introduzir a censura na Rússia. Primeiramente, proibiu a importação de jornais e livros franceses. Posteriormente, em 1796, pouco antes de sua morte, a imperatriz decretou o fechamento de todas as gráficas privadas e a obrigação de que todos os livros fossem apresentados a um censor do Estado antes de sua publicação.

Como seus súditos viam o poder absoluto que Catarina exercia, e como ela própria se via? A resposta a essa pergunta foi dada por um cortesão que contou uma conversa que tivera, certa vez, com a imperatriz. Durante a conversa, ele revelou sua surpresa “diante da obediência cega a todos os desejos dela, da ânsia e entusiasmo de todos para tentar contentá-la".
- Não é tão fácil quanto você imagina, ela respondeu. Em primeiro lugar, minhas ordens não seriam cumpridas se fossem ordens que não pudessem ser cumpridas. Você sabe com que prudência e circunspeção eu ajo na promulgação das leis. Examino as circunstâncias, peço conselhos, consulto a parte esclarecida do povo, e assim descubro o efeito que a lei terá. Quando estou certa de que terei boa aprovação, só então dou as ordens e tenho o prazer de observar o que você chama de obediência cega. Esta é a base do poder ilimitado. Mas creia-me, não obedeceriam cegamente se as ordens não fossem adaptadas à opinião geral.” (Massie, Robert. Catarina, a Grande. Disponível em https://lelivros.pro/?x=15&y=16&s=catarina+II Acesso em 31/jan/2017.)

Catarina foi cognominada “a Grande”. Ela governou por 34 anos. Faleceu em setembro de 1796, vítima de um derrame cerebral (AVC) e foi sucedida por seu filho Paulo I.