quinta-feira, 27 de abril de 2017

BENJAMIN FRANKLIN   As  negociações  com  a  França  e  Inglaterra

O ponto de partida é a reunião, em 1776, de representantes das treze colônias no Segundo Congresso Continental na Filadélfia para discutir o que fazer em face da guerra com a Inglaterra, iniciada um ano antes. O Congresso optou por uma Declaração de Independência. Mas estava claro que, sozinhos, os americanos não conseguiriam vencer aquela que era, na época, a maior potência militar do mundo.
Uma missão americana na França
Ocorreu então aos congressitas pedir ajuda a outra potência europeia que era a grande adversária dos ingleses, a França. Eles decidiram, em segredo, enviar uma delegação para solicitar o apoio francês. Era composta por Benjamin Franklin, Silas Deane e Arthur Lee. Franklin era a figura mais importante da comissão, por sua idade, inteligência, e por sua experiência internacional. E também porque era, então, o americano mais famoso em toda a Europa, graças a suas descobertas científicas com destaque para o para-raios. Sua fama era tão grande que as pessoas foram às ruas para poder vê-lo quando ele chegou a Paris, em 21 de dezembro de 1776.
Benjamin Franklin e a experiência do para-raio.

Poucos dias depois de terem chegado a Paris, os delegados americanos apresentaram-se ao conde de Vergennes, ministro das Relações Exteriores da França. Nesse primeiro encontro foram direto ao que interessava: uma aliança com a França.
Vergennes, naquele momento, porém, não assumiu nenhum compromisso; apenas disse que consideraria um pedido escrito, se Franklin quisesse escrevê-lo. O ministro francês demonstrou clara simpatia pela causa americana. Deixou isso claro ao rei e a seus ministros, numa reunião em Versalhes. Alegou que a América precisava de apoio para vencer a Inglaterra. E era do interesse da França tentar prejudicar a Inglaterra defendendo a nova nação.
Outros ministros franceses não tinham tanta certeza, pois estavam preocupados com as finanças nacionais e com a falta de preparação militar da França. Por isso, pediram cautela.
No pedido escrito a pedido de Vergennes, Franklin enfatizou o cálculo realista de equilíbrio de poder. Argumentou que se a França e sua aliada Espanha aderissem à causa americana, a Grã-Bretanha perderia suas colônias, suas posses nas Índias Ocidentais, bem como o comércio que a tornara tão rica. Em contrapartida, os americanos estariam dispostos a reconhecer que França e a Espanha ficassem com quaisquer ilhas das Índias Ocidentais que tivessem tomado da Grã-Bretanha.
Se, ao contrário, alegou Franklin, a França negasse ajuda, então a América talvez tivesse de encerrar a guerra por um acordo com a Inglaterra.
Depois de alguns dias em solo francês, Franklin estabeleceu-se em Passy, uma propriedade a meia distância entre Versalhes e Paris. Franklin permaneceu ali durante os nove anos seguintes. E durante todo esse temp, uma multidão de pessoas passaria por esse local seja para conversar com Franklin ou apenas conhecê-lo.
Franklin pôs em ação o estratagema de extrair vantagens do prestígio da guerra de Independência, por saber que em toda a Europa a causa da América era considerada uma causa de toda a humanidade.
O governo francês rejeitou a proposta americana de uma aliança imediata. Ofereceu, porém, discretamente, alguma ajuda. A França faria um novo empréstimo secreto à América e permitiria que seus portos fossem usados por navios mercantes americanos.
Nessa altura, a causa dos delegados americanos foi favorecida pela chegada da notícia de uma vitória militar espetacular dos colonos sobre o general britânico John Burgoyne, em Saratoga. Essa vitória fez o conflito na América virar a favor dos colonos.
Os tratados de amizade e aliança com a França
Apesar desse fato auspicioso, os delegados americanos tiveram de esperar durante um ano pela continuidade das negociações. Por fim, depois de concluir um programa de rearmamento naval, a França se considerou pronta para selar um acordo com os delegados americanos. Em 14 de dezembro de 1777, Franklin e os outros dois delegados americanos se reuniram novamente com o ministro francês, que concordou finalmente com o pleno reconhecimento dos Estados Unidos e com a assinatura dos tratados de comércio e aliança. Havia uma ressalva, porém: a França precisava da aprovação da Espanha, pois os dois países haviam se comprometido a agir de comum acordo. Vergennes enviou um mensageiro a Madri e prometeu aos americanos que eles teriam uma resposta em três semanas.
Enquanto isso, os britânicos enviaram um emissário a Paris. Paul Wentworth chegou em meados de dezembro e enviou uma carta sugerindo um encontro com os delegados americanos.
Apenas Silas Deane compareceu ao encontro com Wentworth. E ouviu dele uma proposta de reconciliação entre a Grã-Bretanha e as colônias americanas. De acordo com a proposta, a América teria seu próprio Congresso, estaria sujeita ao Parlamento somente em questões de política e comércio externo, e seriam revogadas todas as leis ofensivas aprovadas desde 1763. Posteriormente, Franklin também se reuniu com Wentworth e ouviu uma proposta semelhante, mas considerou que ela chegara um pouco tarde demais.
Nesse ínterim, chegou a resposta da Espanha à proposta da França de uma aliança com os americanos. Surpreendentemente, o rei espanhol rejeitou o plano e declarou que a Espanha não via nenhuma razão para reconhecer a América. Caberia, pois, à França agir sozinha.
Com a Espanha de fora, Franklin aumentou a pressão sobre os franceses. Nos primeiros dias de 1778, ele deixou vazar para a imprensa que os emissários britânicos estavam na cidade e que poderiam chegar a um entendimento com os americanos se os franceses não assinassem um acordo imediatamente. Esse pacto, diziam as matérias, poderiam até incluir o apoio americano aos esforços britânicos para capturar ilhas da França nas Índias Ocidentais.
Ele esperava que os britânicos concluíssem que os americanos estavam próximos de um acordo com a França. Por outro lado, era de seu interesse que os franceses descobrissem que os americanos estavam se reunindo com um emissário britânico. A estratégia teve resultados imediatos.
Poucos dias depois, o secretário de Vergennes disse que os franceses estavam prontos para negociar com os delegados americanos.
Franklin escreveu pessoalmente a resposta, por meio da qual ele lembrava a proposta já feita de um tratado de amizade e comércio. A finalização imediata desse tratado, afirmou, tornaria possível rejeitar todas as proposições de paz feitas pela Inglaterra.
Em resposta, os franceses disseram aos delegados americanos que o rei daria parecer favorável aos tratados, mesmo sem a participação da Espanha. Eram dois tratados — um de amizade e comércio, outro de aliança militar. A França fazia uma exigência: no futuro, a América não poderia fazer a paz com a Grã-Bretanha sem o consentimento da França.
E assim foram conquistados os tratados com a potência que era a principal inimiga dos ingleses. Os direitos comerciais que os americanos concederam eram mútuos, mas não exclusivos, pois permitiam um sistema de comércio aberto e livre com outras nações. Os tratados com a França foram finalmente assinados no dia 6 de fevereiro de 1778. Em 20 de março, Luís XVI tornou oficiais os tratados franco-americanos, recebendo os três comissários em Versalhes.
Um espião britânico infiltrado, chamado Edward Bancroft, conseguiu cópias dos documentos e fez com que chegassem aos ministros em Londres em 42 horas. Bancroft fez mais do que isso, e aqui vai uma curiosidade: Bancroft enviou 420 libras esterlinas ao seu parceiro de negócios na Inglaterra, pedindo que investisse o dinheiro em ações de curta duração. Bancroft ganhou mil libras nas transações.
Faltava negociar o fim da guerra com os ingleses.
Negociações com a Inglaterra
Em abril de 1778, logo depois da assinatura dos tratados com a França, John Adams chegou a Paris para substituir Silas Deane no posto de delegado.
As relações entre Franklin e Adams nunca foram muito boas. A questão central que separava os dois era se se os Estados Unidos deveriam ou não mostrar gratidão, lealdade e fidelidade à França. Para Franklin, a França era uma nação generosa, amante da glória e, particularmente, da proteção aos oprimidos.
Adams, por sua vez, achava que a França apoiara os Estados Unidos para enfraquecer a Grã-Bretanha e para ganhar uma nova relação comercial lucrativa. Não havia pois, lugar para gratidão moral para nenhum dos dois lados. Entre eles prevaleceu apenas uma relação de civilidade, necessária para o bom andamento do trabalho.

As negociações com os ingleses seguiam arrastadas, porque a Inglaterra achava que ainda poderia vencer os colonos. Essa esperança, no entanto, acabou em outubro de 1781. Nessa data, o comandante das forças britânicas, general Cornwallis, havia sido encurralado na Virgínia por forças franco-americanas e teve de render. Com isso, a guerra praticamente se encerrou. Haviam se passado quatro anos desde a batalha de Saratoga e seis e meio desde o início dos confrontos.
As negociações de paz tiveram início em abril de 1782. O governo britânico esperava poder convencer os delegados a negociarem a paz em separado, sem ter de permanecerem ligados às demandas da França. A proposta foi recusada. Os delegados exigiram que os britânicos aceitassem tacitamente a independência dos Estados Unidos como precondição para as negociações.
As negociações se arrastaram ainda por alguns meses. Em meados de setembro, o governo britânico concedeu a seu negociador uma nova comissão e reafirmou que a independência americana poderia ser reconhecida como um passo preliminar para futuras discussões. As negociações oficiais, porém,  se prolongaram ainda por algumas semanas.
Na manhã de 30 de novembro de 1782, os negociadores americanos reuniram-se com os britânicos para assinar o tratado provisório que encerrou efetivamente a Guerra de Independência. Em respeito às obrigações devidas à França, o pacto não se tornaria definitivo até Grã-Bretanha e França chegarem a um acordo sobre os termos de uma paz. Isso levaria outros nove meses. Mas já o tratado definia como irrevogável a declaração de que os Estados Unidos eram “livres, soberanos e independentes”.
Epílogo
Após a assinatura do tratado de paz com a Inglaterra, os delegados americanos seguiram negociando acordos com outros países europeus. Nesse ínterim, John Jay se retirou dos trabalhos, sendo substituído por Thomas Jefferson.
Os três homens, que haviam trabalhado juntos na Declaração de Independência, agora trabalhavam juntos em Paris, preparando novos tratados e pactos comerciais com os países europeus.
“Na verdade, nesse terreno havia muitos pontos com que os três patriotas podiam concordar. Eles compartilhavam a crença no livre-comércio, em acordos abertos e na necessidade de acabar com o sistema mercantilista de acordos comerciais repressivos e esferas de influência restritivas. Adams, com generosidade incomum, observou: ‘Avançamos com maravilhosa harmonia, bom humor e unanimidade’” (ISAACSON, Walter. Benjamin Franklin, Uma vida americana. São Paulo: Companhia das Letras, p. 418. Em http://lelivros.space/book/baixar-livro-benjamin-franklin-walter-isaacson-em-pdf-epub-e-mobi-ou-ler-online/. Acesso em 7/abr/2017