sábado, 16 de dezembro de 2017

OS  BÁRBAROS  GERMÂNICOS  NA  EUROPA


  A chegada dos povos germânicos
Os gregos foram os primeiros a empregar a palavra bárbaros para denominar os povos diferentes, situados fora de sua cultura. Mais tarde, já bastante influenciados pela cultura grega, os romanos também passaram a chamar de bárbaros os povos que não pertenciam à cultura greco-romana. A denominação se aplicava principalmente aos germânicos, hunos e celtas.

Os germânicos eram povos indo-europeus, pois falavam uma língua aparentada com o latim e o grego. Ao longo de vários séculos, deixaram suas terras de origem, na região do Báltico, e migraram para o sul, fixando-se na Europa central, nas imediações do Império Romano.


Por vários séculos, a paz e a guerra marcaram as relações entre romanos e germânicos. Mas houve um momento em que o equilíbrio se rompeu em favor dos germânicos. Eles ocuparam o lado ocidental do Império Romano e nele fundaram seus Estados.

2. Como viviam os germânicos
Há diversos registros escritos por romanos sobre os germânicos. Um deles foi elaborado por Júlio César, que teve contato com esses povos no século I a.C., quando combatia os gauleses (no território que hoje corresponde à França). Outro foi produzido por Cornélio Tácito, autor da obra Germânia, publicada em 98 d.C., em que o historiador romano escreve sobre moradia, vestuário, casamento, guerra e diversos outros aspectos da sociedade germânica.

Guerreiros bárbaros germânicos. Note o uso da calça.  Essa
foi uma das contribuições dos germânicos para
o vestuário europeu.


Segundo o relato de Tácito, os germânicos misturavam a vida nômade com o sedentarismo. Embora vivessem basicamente da criação de gado e da caça, a agricultura ganhava importância cada vez maior, com base no cultivo do trigo e da cevada. Também praticavam a cerâmica, a tecelagem e, principalmente, a metalurgia. Seus instrumentos e armas de ferro eram de excelente qualidade.
Isso não impedia que, de tempos em tempos, transferissem sua morada para outro local.

Organização social dos germânicos
Ainda de acordo com o relato de Tácito, os germânicos viviam em tribos, compostas por vários clãs. Esses clãs eram grupos de famílias aparentadas entre si – uma espécie de grande família. Também eram considerados membros do clã indivíduos que, mesmo não fazendo parte da família, dependiam dela. O mesmo acontecia com os escravos, geralmente prisioneiros de guerra. Cada clã dominava um território com limites bem definidos. Os bosques e as áreas de pastagens eram de uso coletivo. Eram bens da família apenas o rebanho e a moradia, considerada templo dos deuses domésticos e local de veneração dos antepassados.
Os germânicos davam grande importância à família. Era considerada a base da sociedade e fora dela o indivíduo perdia sua identidade. Na família, o pai tinha total autoridade sobre a esposa e os filhos. Em caso de infidelidade da esposa, ela podia ser repudiada e até morta pelo marido.
Os filhos só se livravam do poder do pai quando se tornavam guerreiros, por volta dos 15 anos de idade. As filhas permaneciam sob a autoridade do pai até o casamento, quando então passavam a obedecer ao marido. Entretanto, as mulheres tinham o direito de tomar parte, com os irmãos, na partilha da herança dos pais.
Tudo isso funcionava de acordo com os costumes, pois os germânicos não possuíam leis escritas.
A isso se denomina direito costumeiro ou direito consuetudinário – sistema jurídico com base no n. Uma das características do direito germânico era o ordálio, uma forma de julgamento que consistia em submeter o acusado a uma prova dolorosa, por meio do fogo ou da água. Se o acusado resistisse, era considerado inocente, pois isso era interpretado como a vontade dos deuses. Após o fim do Império Romano e o início da Idade Média, o direito costumeiro germânico permaneceu como parte da cultura europeia.

Importância da guerra
A principal instituição política entre os germânicos era a assembleia dos Guerreiros, que reunia os chefes de família e os demais homens livres da tribo. Ela  deliberava sobre as questões mais importantes (a guerra, por exemplo) e escolhia o rei, cujo poder dependia de sua capacidade de comando nas guerras.
Os germânicos guerreavam com frequência. As guerras tinham claro objetivo econômico, pois era uma forma de obter riquezas, terras e escravos.
Os guerreiros que tomavam parte nas expedições faziam um juramento de lealdade ao rei. Caso este morresse em combate, os membros do grupo deviam vingá-lo ou sucumbir. Assim, a lealdade ao grupo e a morte em combate se revestiam de um caráter sagrado.
Tácito usou a palavra latina comitatus para designar esse relacionamento entre guerreiros, baseado na lealdade. Tornou-se posteriormente um dos elementos que caracterizaram as relações entre suserano e vassalo no feudalismo.

3. Religião e mitologia dos povos germânicos
Como tantos outros povos da Antiguidade, os germânicos praticavam uma religião politeísta. Não tinham templos: o culto era celebrado a céu aberto. Adoravam muitos deuses, que em geral representavam elementos da natureza (trovão, Sol, raio, mar, fertilidade etc.). A divindade mais importante era Odin. Considerado o protetor dos guerreiros e dos poetas, estava associado ao conhecimento, à sabedoria e à magia. Montado num cavalo de oito patas, levava sempre consigo uma lança infalível. Morava numa fortaleza. Nela ficava o valhala, uma espécie de paraíso, para aonde eram levados os guerreiros mortos em combate. Segundo as crenças germânicas, ele e racasado com Frigga, deusa do lar e da fertilidade. Odin e Frigga tinham um filho, Thor, deus da tempestade e do trovão, que simbolizava a força da natureza. Era representado com cabelos vermelhos e barba. Como arma, portava um martelo mágico, que, quando lançado, nunca errava o alvo e retornava às suas mãos. Os anglo-saxões deram o nome de Thor ao quinto dia da semana, thursday – ou seja, dia de thor. Thor tinha um irmão, Loki, uma figura de índole maligna, traiçoeira. Seu destino seria liderar o exército do mal na batalha final contra os deuses, na qual ele seria morto.


Deuses germânicos.
As crenças germânicas admitiam diversas outras divindades. Sendo uma sociedade guerreira, um lugar de destaque cabia às valquírias. Eram divindades menores, representadas por mulheres jovens, armadas de lança e escudo, que sobrevoavam os campos de batalha montadas em cavalos brilhantes. Recolhiam os guerreiros mortos em combate e os levavam para o Valhala, onde eles eram recompensados por sua coragem.

Essa religião tradicional dos povos germânicos começou a desaparecer no século IV, dando foi substituída pelo cristianismo.

4. Fronteira: local de encontro entre civilizações
Os romanos fizeram várias tentativas para conquistar a Germânia, e todas resultaram em fracasso. Uma dessas tentativas, ocorrida no ano 9 da Era Cristã, três legiões romanas foram aniquiladas por uma aliança de povos germânicos na Batalha da Floresta de Teutoburgo, em que foi morto o próprio comandante romano. Depois disso, os romanos desistiram de conquistar a Germânia e adotaram a seguinte estratégia: fortalecer a fronteira (limes) do Império na Europa, fixada nos rios Reno e Danúbio, e ali concentrar poderosos exércitos que pudessem conter as investidas dos germânicos.
Por muito tempo, a estratégia funcionou: salvo uma ou outra incursão, esses povos foram mantidos à distância. Isso, entretanto, não quer dizer que romanos e germânicos fizessem guerras entre si todo o tempo. Ao contrário: os contatos amistosos entre os dois lados intensificaram-se com o passar do tempo.
O governo de Roma reconhecia o valor guerreiro dos germânicos. E, desde Diocleciano, que reinou de 284 a 305, o governo romano passou a admiti-los com frequência cada vez maior no exército imperial. Diversos chefes germânicos ocuparam elevados cargos no exército romano.
Além disso, algumas tribos foram autorizadas a se estabelecer no interior das fronteiras. Tornavam-se então “federados”, quer dizer, “associados” de Roma, com direito a preservar sua organização social e política. Recebiam terras para cultivo e criação de gado. Em troca, deviam ajudar na defesa do Império. O resultado desse intercâmbio foi a gradativa “germanização” do exército romano.

5. Os germânicos também mudam seu modo de vida
Muita coisa mudou também na vida dos germânicos. De fato, os arqueólogos têm encontrado nos assentamentos germânicos moedas e muitos outros objetos de origem romana. Isso comprova que o comércio devia ser algo comum na fronteira que separava os dois povos. Com as mercadorias, seguiam também influências culturais. No campo religioso, o cristianismo estava rapidamente fazendo seguidores entre os germânicos e chegou a ser adotado por vândalos, visigodos, ostrogodos, suevos, burgúndios e lombardos. Eles, porém, seguiam uma versão do cristianismo chamada arianismo, que era combatida pela Igreja Católica. Mas o fato de serem cristãos já os tornava mais próximos da cultura romana.

6. Causas das invasões germânicas
No século IV, uma combinação de fatores favoreceu a invasão do Império Romano pelos germânicos. Sabemos que esse desejo de ocupar as terras do Império Romano já era antigo, e aumentava à medida que crescia a população entre as tribos germânicas. Essa pretensão foi contida enquanto o Estado romano se manteve forte. Porém, a defesa das fronteiras ficou cada vez mais difícil, em virtude da crise que enfraquecia o Império.
A situação se agravou rapidamente a partir do século IV com a chegada dos hunos à Europa. Os hunos eram notáveis cavaleiros e pastores provenientes de uma região da Ásia localizada ao norte da China.

Guerreiros hunos.


No caminho, encontraram os godos, povo germânico dividido em duas grandes tribos: ostrogodos e visigodos. Os primeiros a enfrentar os hunos foram os ostrogodos. Derrotados, bateram em retirada e invadiram o território de seus vizinhos e parentes, os visigodos. Estes, então, pediram e obtiveram autorização do Império Romano para atravessar a fronteira e se estabelecer ao sul do Rio Danúbio.
O relacionamento entre os romanos e os visigodos, porém, não foi nada pacífico. Estes reclamavam que eram maltratados pelos funcionários romanos. A situação acabou provocando uma revolta dos visigodos. Em 378, eles derrotaram o exército romano na Batalha de Adrianópolis, na qual o próprio imperador Valente perdeu a vida. Apesar dessa vitória, os visigodos ainda permaneceram na região por alguns anos. Depois, sob a liderança de Alarico, avançaram em direção à Península Itálica.
Em 410, tomaram e saquearam Roma, de onde seguiram para a Gália e a Espanha. Ali se fixaram e, mediante um acordo, tornaram-se aliados de Roma.

7. A ocupação do Império pelos germânicos
Na mesma época em que os visigodos tomavam o rumo da Itália, outras tribos germânicas atravessavam as fronteiras romanas, às vezes, sem encontrar resistência, em virtude do enfraquecimento geral do Império.
Os vândalos, acompanhados dos alanos e suevos, passaram pela Gália e ocuparam a Espanha (antes da chegada dos visigodos). Os suevos estabeleceram-se na Lusitânia (parte do atual território de Portugal).
Os alanos se dividiram: alguns ficaram na Península Ibérica e outros seguiram os vândalos na invasão do norte da África. Nas imediações da antiga Cartago, os vândalos fundaram um grande reino. Nos anos seguintes, conquistaram a Sicília e outras ilhas do Mediterrâneo. Em 455, tomaram Roma. A cidade foi submetida a um saque que durou 14 dias seguidos. Da ação destruidora desse povo derivou a palavra vandalismo, usada para designar atos de destruição.
Alamanos e burgúndios estabeleceram-se na Gália. Também os francos escolheram a Gália para morar e ali se fixaram. Os francos foram aliados dos romanos, e por algum tempo ajudaram Roma a combater seus inimigos. A expansão de seus domínios permitiu que o reino fundado pelos francos viesse a ter grande importância nos séculos iniciais da Idade Média.
Em meados do século V, anglos e saxões desembarcaram na Grã-Bretanha, que havia sido abandonada alguns anos antes pelos romanos. Venceram a resistência da população local, formada por celtas e bretões, e ocuparam a ilha: os saxões estabeleceram seu reino no sul da ilha e os anglos se fixaram no centro e no norte. Os idiomas falados por esses invasores iriam dar origem ao inglês.


8. O fim do Império Romano do Ocidente
O Império Romano, que se julgava invencível e eterno, ia rapidamente sendo dominado pelos povos germânicos. Diversos imperadores se sucederam no poder em Roma, mas nenhum conseguia reunir forças sufi cientes para impedir o declínio do Império. 

Por fim, em 476, Odoacro, um chefe germânico que tinha se tornado general do exército romano, destronou o último dos imperadores: era um menino de apenas 12 anos que carregava o pomposo nome de Rômulo Augusto. Odoacro enviou os símbolos do poder imperial (coroa e cetro) ao imperador do Oriente e se proclamou rei. Seu reinado durou até 493, quando todo o Império Romano no Ocidente caiu em poder de outro povo germânico, os ostrogodos.
Quando o século V terminou, toda a parte ocidental do Império Romano estava tomada pelos reinos germânicos. Entre eles, os mais importantes eram o dos vândalos, no norte da África; o dos visigodos, na Espanha; os reinos dos anglos e dos saxões, na Grã-Bretanha; o dos francos, na Gália; e o dos ostrogodos, na Itália.
A queda do último imperador, em 476, assinalou o fim do Império Romano do Ocidente. Posteriormente, os historiadores escolheram essa data para marcar o fim da Antiguidade e o começo da Idade Média.

O nascimento da Europa medieval

A queda do Império Romano do Ocidente ocorreu menos pela força dos invasores do que pelo enfraquecimento das forças romanas, provocado por uma crise que já durava mais de dois séculos.
Essa crise levou ao declínio do trabalho escravo, das cidades, da economia mercantil e monetária, e também ao colapso da proteção que o Estado romano devia oferecer à população.
A chegada dos germânicos acentuou essas tendências e ainda acrescentou novos elementos à realidade europeia. Entre eles estava, por exemplo, a ideia de obrigações recíprocas entre o chefe e seus guerreiros.
Nesse universo em transformação, um papel especial coube à Igreja Católica, praticamente a única instituição que conseguiu sobreviver intacta. Ela preservou um importante aspecto da cultura romana, a língua latina, que os germânicos aprenderam a falar; e conseguiu, em meio a muitas dificuldades, converter os germânicos à versão oficial do cristianismo.
Em síntese, as tendências da sociedade romana, somadas às instituições trazidas pelos germânicos e ao papel desempenhado pela Igreja, lançaram as bases de uma nova sociedade que se formou na Europa da Idade Média – a sociedade feudal.



O CIRCO ROMANO


“A  mais  difundida  das  paixões populares, as lutas de gladiadores, teve sua origem em um costume religioso. Os etruscos, um povo que vivia no norte de Roma e que ocupou quase toda a Itália nos séculos VII a V a.C., introduziram o costume de sacrificar prisioneiros de guerras nos funerais dos seus próprios guerreiros – prisioneiros inimigos – até a morte servia como uma espécie de sacrifício aos deuses em honra aos soldados vencedores que haviam perecido [...].

Com o passar do tempo, a luta passou à arena e adquiriu outras conotações religiosas. A morte dos gladiadores passou a representar a supremacia dos vivos, os espectadores, que, mesmo sendo muito ou escravos, podiam beneficiar-se do sacrifício humano. [...].

Tal caráter mágico da luta de gladiadores não significa porém que não houvesse nela um lado de diversão e que não fosse utilizada pelos governantes para dominar a grande massa. Mas como era uma luta de gladiadores?


Em um anfiteatro, dois lutadores por vez, armados de capacetes, lanças, escudos, espadas, redes e garfos, pelejavam até que um deles caísse ao solo e ficasse em posição de ser morto pelo adversário. 

Nesse momento, o público devia manifestar-se, levantando ou abaixando os polegares, para decidir se o perdedor devia ser morto ou poupado para as lutas futuras. Caso houvesse lutado bravamente seria preservado. Caso contrário, era morto e retirado por Carum. [...]

As lutas faziam parte, portanto, de um conjunto de festas religiosas financiadas pelos políticos. Por que eram tão populares? [...].

A explicação para a popularidade das lutas encontra-se na associação entre religiosidade e manutenção da ordem social que esses espetáculos encerravam. O sacrifício humano a deuses específicos em festas cívicas patrocinadas pelas autoridades representava uma maneira de escravos e pobres superarem as mazelas e os sofrimentos do seu dia a dia. [...]

Isso demonstra bem como os jogos de gladiadores cumpriam um papel fundamental de manutenção da ordem social, e seu abandono só ocorreria com a sua substituição por algo que mantivesse, os menos no plano das ideias, a noção de sacrifício pela comunidade.“ FUNARI, Pedro Paulo A. Roma: vida pública e vida privada. São Paulo: Atual, 1993. p. 40-43. (História Geral em Documentos).
Dia a Dia na História
Vista exterior do Panteão romano, edifício circular construído no século I da Era

Cristã. Foto de 2014.
O  LEGADO  ROMANO


Herança romana na atualidade

Os romanos assimilaram muitos aspectos da cultura dos povos vencidos, principalmente dos gregos. Dotados de notável senso prático, souberam reelaborar essas influências, nas quais introduziram inovações que levaram à formação de uma cultura original. Com isso, acabaram por legar às gerações futuras várias contribuições nas mais diversas áreas.




De seu idioma, o latim, derivaram diversas línguas modernas, como o português, o francês, o espanhol e o italiano. Sua criação mais original, entretanto, foi o Direito, que ainda hoje inspira muitos sistemas jurídicos.

2. Literatura e filosofia

Herdeira das formas literárias criadas pelos gregos, a sociedade romana foi um centro de difusão cultural, reunindo poetas, fi lósofos, juristas, teatrólogos e historiadores.

Um de seus mais notáveis escritores foi o poeta Virgílio, autor da Eneida, poema épico que narra a história de Eneias, herói proveniente da cidade de Troia, ancestral lendário dos fundadores de Roma.

Além dele, também Horácio destacou-se na poesia. Era um poeta lírico, que viveu no tempo de Augusto, cujas realizações enalteceu. Sua poesia está impregnada dos valores característicos do estoicismo e do epicurismo, correntes filosóficas de seu tempo. Escreveu Odes, Sátiras, Epístolas e outras obras, combinando virtuosismo métrico e sobriedade de expressão.

Na oratória e no pensamento político, Cícero foi o nome mais importante. Entre os historiadores distinguiram-se Tito Lívio e, principalmente, Tácito, cuja obra mais importante são os Anais, que tratam da história romana durante o período que se estende da morte de Augusto até o governo de Nero. Tácito foi um dos primeiros escritores não cristãos a registrar a  crucificação de Jesus Cristo.

No âmbito do pensamento filosófico, tornaram-se populares o epicurismo e o estoicismo, duas correntes já abordadas no Capítulo 8. O estoicismo foi mais difundido e teve no filósofo, advogado e escritor Sêneca e no imperador Marco Aurélio seus principais adeptos.

3. Artes plásticas

Do mesmo modo que em outros campos do conhecimento, a grande fonte de inspiração e referência das artes romanas foi a Grécia. Mas, também como nas outras áreas, os romanos colocaram na escultura, na pintura e na arquitetura seu próprio temperamento e sua visão de mundo.

Assim, a escultura romana procurava reproduzir de modo realista a fisionomia dos indivíduos retratados, sobretudo dos grandes personagens públicos.

A pintura romana teve seu estilo consolidado no século I, quando se afastou da influência grego-helenística. Seu uso era generalizado e usado tanto para fins decorativos e privados quanto para fins públicos.

Na arquitetura, a colunata e o frontão do templo grego foram conservados, mas os romanos imprimiram a esses elementos proporções grandiosas, que refletiam sua própria experiência imperialista.


Aqueduto romano, do século I d.C. Tem 813 m de extensão.
              Sua função era levar água à cidade de Segóvia, Espanha 


Ao mesmo tempo, introduziram novos elementos arquitetônicos, como o arco redondo e a cúpula. 

Com as novas técnicas, edificaram templos, casas de banho, anfiteatros, pontes, arcos de triunfo, aquedutos e monumentos, muitos dos quais sobrevivem até hoje.


4. Direito romano

A mais notável contribuição romana à cultura ocidental ocorreu no campo do Direito. De fato, os Códigos de Leis romanos permanecem até hoje entre os fundamentos do Direito contemporâneo. Como quase tudo em Roma, as leis surgiram para dar uma solução prática aos problemas criados pelas lutas entre os grupos sociais e pelas guerras de conquista. Afinal, Roma dominava um vasto e variado mosaico de povos, unidos por vínculos econômicos, políticos e culturais. Criar normas jurídicas que permitissem a coexistência de tão diferentes costumes e tradições tornou-se uma necessidade.

O Direito romano desenvolveu-se gradualmente, tendo como ponto de partida a Lei das Doze Tábuas (450 a.C.). Posteriormente aprimorou-se com as leis votadas pelas assembleias e com os decretos do Senado e teve sua completa sistematização no Período do Império. Compunha-se de três grandes ramos:

• O jus civile (Direito civil), aplicável apenas aos cidadãos de Roma.
• O jus gentium (Direito das gentes ou dos estrangeiros), conjunto de normas comuns ao povo romano e aos povos conquistados.
• O jus naturale (Direito natural), que representava o aspecto filosófico do Direito. Baseava-se na ideia de que o ser humano é, por natureza, portador de direitos que devem ser respeitados.

5. Religião

Durante quase toda a sua história, os romanos mantiveram a crença numa série de deuses. Era uma religião sem doutrinas ou dogmas. Entre os deuses e os seres humanos estabelecia-se um único compromisso: aqueles davam proteção e estes retribuíam com oferendas.

A princípio, os deuses não tinham formas definidas. A partir do contato com os gregos, contudo, eles passaram a ser identificados com as divindades do Olimpo e ganharam fisionomia e paixões humanas. Assim, o deus supremo da mitologia grega,


Arquitetura romana. Panteão, em Roma, dedicado a todas as divindades.

Zeus, chamava-se Júpiter entre os romanos; Hermes, protetor do comércio na Grécia, tinha em Roma o nome de Mercúrio; Ares, deus grego da guerra, era Marte para os romanos; Afrodite, deusa do amor na Grécia, em Roma era Vênus, entre outros. 

Além da influência grega, os romanos incorporaram influências de cultos orientais, como os de Ísis e Osíris, do Egito, e o de Mitra, proveniente da Pérsia. Todos esses deuses foram admitidos no Panteão romano – templo dedicado ao culto de diversas divindades.


6. A vitória do cristianismo

De acordo com as narrativas do Novo Testamento, Jesus teria nascido em Belém, na Judeia, província do Império Romano. Profetas hebreus haviam anunciado a vinda de um messias (ou cristo, em grego), que libertaria esse povo da dominação do inimigo e reinaria em seu lugar.


Aos 30 anos, Jesus iniciou suas pregações, afirmando ser o Messias (o mesmo que Cristo, na língua grega). Despertou com isso a desconfiança das autoridades locais e, também, romanas: tanto o Grande Conselho dos hebreus como os romanos viam nele uma ameaça ao poder constituído. Jesus acabou preso, condenado e crucificado. Após sua morte, os ensinamentos de Jesus passaram a ser divulgados por seus seguidores. Surgia assim o cristianismo. A nova crença se difundiu principalmente entre as camadas pobres da população. Como os cristãos se recusavam a reconhecer o caráter divino do imperador romano, foram duramente perseguidos pelo governo de Roma.

Cristianismo, uma fé para os oprimidos
Os pobres, os oprimidos e os escravos foram, em particular, atraídos pela vida e pelo exemplo de Jesus Cristo. A nova fé ensinava que o valor das pessoas não dependia de seu nascimento, talento ou posição social.

As autoridades romanas sempre haviam sido tolerantes com as religiões dos outros povos. Mas o cristianismo apresentava características que pareciam suspeitas e ameaçadoras para o Império. Os cristãos faziam reuniões secretas, desprezavam a hierarquia social, rompiam radicalmente com a tradicional religião romana, recusavam-se a prestar o serviço militar e negavam-se a cultuar os imperadores.

Local de culto dos primeiros cristãos.


Isso inquietava os responsáveis pela manutenção do Estado e das tradições de Roma. Com o imperador Nero, tiveram início as perseguições. Os cristãos passaram a ser detidos, queimados vivos ou usados para proporcionar diversão nas arenas dos anfiteatros, onde eram estraçalhados por animais.

A firmeza com que os seguidores de Cristo enfrentavam o sofrimento, porém, dava mais força aos que permaneciam fiéis, além de atrair novos seguidores.

A propagação do cristianismo se acentuou no século III, quando teve início o enfraquecimento do Estado romano, particularmente afetado pela crise do escravismo. Foi nesse contexto que o imperador Constantino assinou, em 313, o Edito de Milão, concedendo liberdade religiosa aos cristãos. Finalmente, entre 380 e 392, o imperador Teodósio reconheceu o cristianismo como religião oficial do Império Romano e proibiu o culto aos antigos deuses romanos.


Vista noturna da Via di

Coli

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

O  IMPÉRIO  ROMANO



De república a império
A crise das instituições republicanas e a polarização entre a aristocracia e a plebe favoreceram o surgimento de novos personagens na cena política: os líderes militares. Eram indivíduos que, além de terras e de vitórias contra os inimigos, conquistavam prestígio perante a população.

Contando cada vez mais com o apoio popular, esses líderes logo passaram a cobiçar o poder. Aos poucos, o Senado iria perder sua influência e o poder político se concentraria nas mãos de alguns dos chefes militares. 



Esse período ficou marcado como um momento de transição entre a república e o império. 
Após uma época turbulenta, pontuada por revoltas populares, guerras civis e assassinatos, teve início o Império Romano, com Otávio. 
Nesse período, Roma atingiria o apogeu e dominaria por vários séculos grande parte do mundo antigo.


2. Os irmãos Graco e a questão agrária
A concorrência dos produtos vindos das regiões conquistadas, que tinham preço mais baixo, e a produção dos latifúndios, com base no trabalho escravo, foram as principais razões que levaram os pequenos proprietários rurais a partir para a cidade. Praticamente expulsos da terra e sem meios para sobreviver, grande número de plebeus chegava a Roma, onde recebiam alimentos, estratégia adotada pelo governo para atenuar os conflitos sociais.
Na segunda metade do século II a.C., esse cenário tornava a questão agrária um problema premente e de difícil solução.
Em 133 a.C., o nobre Tibério Graco foi eleito tribuno da plebe. Sensível à grave situação social, o novo tribuno propôs a Lei Agrária. Essa lei instituía que as terras incorporadas a Roma durante as conquistas fossem distribuídas entre a plebe. Tais terras haviam sido ocupadas ilegalmente pelos patrícios. A proposta causou revolta entre eles, e Tibério foi assassinado.
Dez anos depois, o projeto de reforma social seria retomado e ampliado por Caio Graco, irmão de Tibério, também eleito tribuno da plebe. Além da reforma agrária, Caio Graco propôs a extensão dos direitos políticos aos povos aliados da Península Itálica e reduziu o preço do trigo destinado à plebe romana.



Patrícios e senadores, determinados a não perder privilégios, opuseram-se violentamente às reformas e eliminaram Caio Graco e seus adeptos. Sem solução, os conflitos sociais iriam continuar por longo tempo, acirrando as disputas políticas na cidade.


3. A ascensão dos militares
Com as vitórias do exército, os chefes militares conquistaram prestígio e começaram a ganhar popularidade.
O primeiro a conseguir destaque foi Mário, que obteve projeção com a vitória sobre a Numídia, no norte da África, em 106 a.C. Eleito cônsul no ano seguinte, instituiu o pagamento de soldo aos soldados (antes, eles não recebiam pagamento regular), permitindo o ingresso de pessoas pobres no exército. Além disso, concedeu aos soldados o direito de participar dos espólios de guerra e de receber terras, após prestarem 25 anos de serviços militares.
Membro da classe equestre e líder do partido popular, Mário foi reeleito cônsul várias vezes. Suas medidas descontentaram os conservadores, liderados por Sila, outro chefe militar. Durante vários anos, os dois travaram diversos conflitos, alternando-se no poder. Em 82 a.C., após a morte de Mário, Sila, apoiado pelo Senado, impôs uma ditadura militar. Ele permaneceu no poder até 78 a.C.

César, Crasso e Pompeu
Após o governo de Sila, alguns dos territórios conquistados foram ameaçados por revoltas, exigindo grandes campanhas militares. Isso fez com que alguns generais se destacassem e disputassem o poder. Dois dos mais influentes foram Crasso e Pompeu.
O primeiro foi responsável pela vitória contra Espártaco, líder da maior revolta de escravos do mundo antigo. O segundo debelou uma rebelião popular comandada por Sertório, na Península Ibérica, entre 78 e 72 a.C.
Ao mesmo tempo, um sobrinho de Mário surgia como outro líder de prestígio, ligado ao partido popular. Seu nome: Júlio César.
Em 60 a.C., eleitos senadores, Crasso, Pompeu e Júlio César se uniram para formar um governo que seria denominado Primeiro Triunvirato.



César, com o intuito de aumentar sua popularidade, partiu para a Gália (atual França), onde ampliou e consolidou a conquista romana, derrotando o exército gaulês.

Com a morte de Crasso logo depois, César e Pompeu começaram a disputar o poder. Em meio à crise, o Senado elegeu Pompeu cônsul, outorgando-lhe plenos poderes, e ordenou a Júlio César que desmobilizasse seus exércitos. Recusando-se a acatar as ordens, César marchou sobre Roma em 49 a.C. Pompeu e seus aliados fugiram para o Oriente. César os perseguiu e derrotou-os na Grécia.
Em seguida, conquistou o Egito, que foi transformado em protetorado romano.

Júlio César torna-se ditador
Retornando a Roma em triunfo, César foi proclamado ditador perpétuo. No governo, promoveu a construção de obras públicas, reorganizou as finanças, distribuiu terras e fundou colônias.
Com a intenção de unificar o mundo romano, estendeu o direito de participação política aos habitantes das províncias conquistadas. Com o apoio da plebe urbana e do exército, Júlio César concentrava todo o poder em suas mãos. As medidas tomadas por ele caracterizavam-no como um verdadeiro monarca, o que era considerado pelos defensores da república como suprema traição.
Sua trajetória foi interrompida por uma conspiração de senadores que o assassinaram no Senado, em 15 de março de 44 a.C.

O Segundo Triunvirato
Com a morte de César, a disputa pelo poder ficou polarizada entre dois de seus herdeiros políticos: Marco Antônio, general de grande popularidade, e o jovem Otávio, sobrinho e filho adotivo de César. Após vários conflitos, os dois se reconciliaram e se uniram a Lépido, banqueiro romano, para formar o Segundo Triunvirato, que governou durante cinco anos.


Os três dividiram os domínios romanos entre si e trataram de eliminar todos os que haviam conspirado contra César.

Pouco depois, Lépido foi afastado por Otávio. Em 31 a.C., Otávio voltou-se contra Marco Antônio, vencendo- o na Batalha Naval de Ácio, na Grécia. Em seguida, conquistou o Egito e retornou a Roma, onde recebeu sucessivamente do Senado os títulos de primeiro cidadã
Senhor absoluto do poder, Otávio – ou Augusto, como passou a ser chamado – tornou-se o primeiro imperador de Roma.

4. O Império
Otávio Augusto governou Roma até a sua morte, aos 76 anos, em 14 d.C. Nesse período, acumulou os poderes civil, religioso e militar, com direito de interferir até mesmo no Senado. Ao morrer, foi considerado um deus entre os deuses romanos.

O estudo do Império Romano é, em geral, subdividido em dois períodos:
Alto Império (27 a.C.-235). Nas fases inicial (Otávio Augusto) e intermediária, contou com certa estabilidade nas instituições e relativa paz entre as províncias.
Baixo Império (235-476). Período agitado por lutas pelo poder. Somadas à crise de âmbito social e econômico, essas disputas abririam caminho para a desintegração de grande parte do Império.

Alto Império
Após a morte de Otávio Augusto, Roma foi governada por quatro dinastias de imperadores:
Júlio-Claudiana (14-68) – Tibério, Calígula, Cláudio e Nero. Cláudio, que aperfeiçoou a administração do Império, fez talvez o melhor governo da dinastia. Governando de modo despótico, Tibério, Calígula e Nero foram responsáveis por períodos de grande instabilidade política.
Flávios (69-96) – Vespasiano, Tito e Domiciano. Governos relativamente tranquilos em que se verificou um reequilíbrio da economia e das instituições.
Antoninos (96-192) – Nerva, Trajano, Adriano, Antonino Pio,
Marco Aurélio e Cômodo. Sob essa dinastia, Roma conheceu grande prosperidade. Trajano aumentou os domínios do Império durante seu governo. Marco Aurélio promoveu um verdadeiro reflorescimento cultural.
Severos (193-235) – Septímio Severo, Caracala e Severo Alexandre.
Foi durante essa dinastia que teve início a decadência do Império, com a perda do controle econômico sobre as populações, além das crises ocasionadas pelas pressões dos povos inimigos nas fronteiras.

Baixo Império
Em 235, iniciou-se um longo processo que se estenderia pelos dois séculos seguintes e culminaria com a desagregação de grande parte do Império Romano. As principais características desse processo foram:
• crises políticas, já que não havia um critério definido de sucessão para o trono. Muitas vezes, a sucessão era marcada por guerras entre os generais mais poderosos;
• colapso do sistema escravista, causado pelo fim das guerras de conquista a partir do governo de Adriano (117-138). Com o término das conquistas, perdeu-se a principal fonte de mão de obra – os prisioneiros escravizados;


Escravos romanos servindo jarras de vinho
• problemas econômicos: para pagar suas despesas, o governo era obrigado a aumentar os impostos e a emitir dinheiro, gerando inflação e descontentamento;
• dificuldades para proteger e manter as inúmeras fronteiras do Império. Sem dinheiro para pagar os soldados, extensas áreas ficaram desprotegidas, o que facilitou a invasão de povos inimigos, sobretudo os de origem germânica;
• difusão do cristianismo, que pregava valores contrários à manutenção do trabalho escravo e à divinização dos imperadores.

Esses aspectos provocaram o enfraquecimento do comércio e da produção em todo o Império.
Aos poucos, a população abandonaria as cidades para se abrigar no campo, onde encontraria maior proteção contra a invasão de povos inimigos, chamados “bárbaros” pelos romanos.

Reformas para salvar o Império
Ao longo do Baixo Império, alguns imperadores tentaram introduzir reformas para superar a crise.
Diocleciano (284-305) promoveu uma reforma monetária e instituiu um sistema político de quatro governantes, a tetrarquia. Por esse sistema, o Império foi dividido em duas partes: uma ocidental e outra oriental. Cada parte passaria a ser governada por um imperador, chamado Augusto, auxiliado por um César. Após vinte anos, os Césares deveriam assumir o poder e nomear outros Césares.


Tetrarquia romana


Com isso, Diocleciano pretendia evitar as disputas por ocasião da sucessão e facilitar a defesa dos territórios. Mas a tetrarquia foi abandonada por seus sucessores e as guerras de disputa pelo poder voltaram a agitar o Império.
Constantino (306-337) restabeleceu o poder centralizado e também efetuou reformas. Entre elas destaca-se a legalização do cristianismo pelo Edito de Milão, em 313. Após promover a reunificação do Império, transferiu a capital de Roma para Bizâncio, situada mais ao oriente, que passou a ser chamada Constantinopla.
Mais tarde, Teodósio, que governou de 378 a 395, promoveu ainda outras medidas para contornar a crise. Em 391, instituiu o cristianismo como religião ofi cial do Império. No âmbito administrativo, realizou, em 395, a divisão do Império em duas partes, uma no Ocidente, com capital em Roma, e outra no Oriente, sediada em Constantinopla.

5. A fragmentação do Império


As duas partes do Império conheceriam destinos históricos diferentes.

No Ocidente, o poder central mostrava-se impotente para conter as sucessivas invasões das fronteiras por outros povos, que passaram a controlar extensas regiões do Império ocidental. 

Entre os séculos IV e V, a situação se agravaria com a chegada dos hunos à Europa. Temido por sua habilidade na guerra, esse povo, vindo da região central da Ásia, provocava pânico entre os germânicos, que invadiam o Império para fugir de seus ataques.
Em 476, após inúmeras invasões e acordos dos germânicos com o Império Romano do Ocidente, Odoacro, rei dos hérulos, destronou Rômulo Augústulo, último imperador romano. Com esse ato, desintegrava-se o Império Romano do Ocidente, em cujo território surgiriam diversos reinos germânicos.

Enquanto isso, o Império Romano do Oriente (ou Império Bizantino), ainda que também enfrentando muitas invasões, conseguiria manter-se por quase mil anos, até 1453, quando seria conquistado pelos turcos.