domingo, 7 de agosto de 2016

Ava, a mulher de 3.700 anos



Essa é Ava e, apesar de parecer uma mulher comum, viveu há pelo menos 3.700 anos na Escócia. Seu crânio foi encontrado nos anos 80 e, com a reconstituição digital mais exata da história da arqueologia, conseguiram obter o que seriam suas feições.
De acordo com os cientistas, Ava teria cerca de 1,67 m de altura e algo entre 18 e 22 anos quando faleceu. A moça era integrante da cultura Beaker, uma civilização que viveu na Idade do Bronze, entre 2.900 A.C. e 1.900 A.C.
A moça foi encontrada mais precisamente em 1987 em uma cova escavada em rocha dura, algo incomum para este povo que costumava enterrar seus mortos na terra com uma pedra ou estaca servindo de lápide.

domingo, 31 de julho de 2016

LEMBRAR  E  ESQUECER  OU  A  VIDA  ENTRE  DORY  E FUNES


A  memória  é  um  conceito  complexo.  Quase todos a associam a lembrar-se de um determinado dado quando necessário. A partir de certa idade, quando começamos a ter dificuldades no acesso imediato, surge a preocupação: será que eu estaria com Alzheimer?
Leandro Karnal, 31 Julho 2016 |

Você já se deu conta de que nossa civilização é o culto à reminiscência? Nossas ruas e praças, nossas datas e agendas existem a serviço da evocação. Discutimos o valor político da memória ao questionar se determinada pessoa deve continuar sendo homenageada batizando uma via pública. O elevado Costa e Silva transformou-se em João Goulart, em São Paulo. Para os usuários comuns, nem o presidente e nem o general: apenas Minhocão... A metáfora da forma suplanta o debate político. Lutamos para controlar a recordação. Esquecer datas é algo perigoso no nosso código afetivo. Lembrar é valorizar. Esquecer é desprezar.
Para um historiador, a memória é uma construção. Ela não significa trazer um fato à tona, mas como eu, hoje, construo minha relação com o fato pretérito. Nunca se trata de recriar o passado, ou como queria Leopold von Ranke, descrever as coisas tal como “realmente foram”. Hoje, é mais usual dizer que o especialista em memória (o historiador) estuda como são lembrados ou esquecidos os fatos históricos. Sob este enfoque, toda história seria história contemporânea.
No romance Incidente em Antares, Érico Verissimo fala de um naturalista francês que indica a estrela que dá nome à cidade. A ideia foi substituída pela afirmação de que o nome da cidade, Antares, derivava da abundância das antas na região... Pensei nisto quando vi plantadas araucárias em áreas reurbanizadas de Pinheiros, em São Paulo. Imaginei que, em 100 anos, quando estas árvores estivessem frondosas, alguém diria: o nome do bairro surgiu daqui, da existência destes pinheiros. Confundiriam a causa com a consequência e, em não havendo outra fonte, a versão seria vitoriosa. Seria como o balcão de Julieta em Verona: a lenda criou o fato concreto.
Aprofundo o tema com uma ficção. Uma jovem de 15 anos faz seu baile de debutante e passa o dia seguinte ao celular narrando detalhes da noite. Depois, aos 25, a mesma jovem observa as fotos e acha tudo “cafona”. Por fim, a personagem observa as fotos aos 70 anos de idade e enfatiza como era bonita. Qual das três narrativas contém a memória verdadeira? A dos 15, 25 ou 70 anos? Voltamos ao valor histórico: o fato deve ser relembrado dentro do contexto novo da mulher que ressignifica o resgate da festa.
Jorge Luis Borges criou uma personagem: Funes, el memorioso. Ele é incapaz do esquecimento. A personagem sofre de hipermnésia: memória absoluta. Funes morreu jovem e não conseguia mais pensar, porque, como disse Borges, refletir seria esquecer diferenças, generalizar e abstrair. Quem lembra tudo, nada pensa. Repetir dados não é inteligência. Situação oposta: Macondo, a mítica aldeia deCem Anos de Solidão, sofre por se esquecer de tudo. Só a poção do cigano Melquíades salva o povo na imaginação de Gabriel García Márquez.
O que lembramos? Quando lembramos? Quais as coisas que desejamos esquecer? A memória é uma construção permanente. Estamos todos mais ou menos próximos de Dory, a simpática peixinha que tem memória deficitária. Dory é o anti-Funes e parece mais feliz.
Esquecemos de forma aleatória e recordamos a partir de critérios pouco claros. Para evitar estas irregularidades, foi inventada uma arte mnemônica: conjunto de técnicas para que tudo venha à tona quando necessário. Este exercício fez a glória da Giordano Bruno e da escola jesuítica (aliás, hoje é dia de Santo Inácio de Loyola). Para recordar argumentos, estabelecia-se o “palácio da memória” com salas e armários concatenados, tentando organizar as informações. O clássico da inglesa Frances Yates (A Arte da Memória, ed. Unicamp) foi traduzido muito tardiamente no Brasil, mas ainda é um excelente estudo sobre esta arte quase perdida. É leitura obrigatória para quem deseja estudar o conceito de memória.
Em tempos de memória de computador e celular com todos os números, estamos cumprindo de forma absoluta a maldição do deus Tot do Egito. Quando inventou a escrita, ele lançou uma praga-advertência para os humanos: Tudo o que vocês escreverem, esquecerão” (sic). Os celulares cumprem, integralmente, a profecia do deus babuíno do Nilo.
Quando os Bourbons foram restaurados no trono após Napoleão I, dizia-se na França uma frase irônica em função dos traços autoritários que permaneciam com a família, mas acompanhados de sede de vingança contra revolucionários: “Os Bourbons não aprenderam nada, mas não se esqueceram de nada”. Esta é uma grande lição. Para viver temos de lembrar de algumas coisas e esquecer de outras coisas. Funes e Luís XVIII são exemplos bons: é impossível viver bem sem esquecer. O erro de nada lembrar é a amnésia, vestíbulo de uma morte. O erro de nada esquecer é o divórcio, a perda dos amigos e a dor permanente... Viver é selecionar memórias, como fazemos com as fotos do aparador: aquelas são as imagens da família que eu desejaria ter. Também ocupam um espaço fantasmagórico as fotos que não estão ali: os momentos que desejo obliterar para sempre. Felicidade está no equilíbrio do binômio lembrar/esquecer. Bom domingo a vocês!


domingo, 24 de julho de 2016


MINHA FILOSOFIA DE VIDA

QUANDO ME CONHECI DE VERDADE
Descobri que eu não tinha obrigação de salvar o mundo.
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Abandonei radicalismos e posturas ideológicas, e segui pelo “caminho do meio”, que é o caminho do bom senso.
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Tomei como resposta para minhas dúvidas essa simples frase: “Há mais mistérios entre o Céu e a Terra do que supõe nossa vã filosofia”.
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Agradeci de joelhos a meus pais por me terem dado a oportunidade de viver neste planeta maravilhoso.
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Compreendi o significado da frase “Sou humano e nada do que é humano me é estranho”.
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Entendi que o amanhecer significa o recomeço e que o entardecer é a hora do repouso e comecei a ver com outros olhos a beleza do Universo.
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Comecei a entender a língua dos pássaros, e até me peguei contando estrelas.
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Parei de ter vergonha das minhas fraquezas e deixei de dar importância às opiniões que os outros fazem de mim..
QUANDO ME CONHECI DE VERDADE,
Entendi como era importante rir de tudo, até de mim mesmo; e, então, descobri o real significado da palavra FELICIDADE.

domingo, 22 de maio de 2016

ESSAS CRIATURAS ESTÃO POR TODA PARTE, COMO OS RATOS E AS BARATAS.

De fato, existem políticos que têm a incrível capacidade de se manter no poder qualquer que seja o governo. Me lembro de dois casos bem notórios, um no Brasil e outro na França.
Na pátria amada, esse é o caso de Romero Jucá, que teve seu primeiro cargo importante como presidente da FUNAI, nomeado em 1986. Deixou o cargo sob acusações de corrupção, mas ainda assim permaneceu ativo na política. No governo de José Sarney, foi nomeado para o cargo de governador do Território Federal de Roraima. Em 1994, elegeu-se senador pelo novo Estado, e chegou a ocupar a vice liderança do governo do então presidente FHC.
Em 2002, reelegeu-se senador na mesma eleição em que Lula se elegeu presidente da República. No governo do ex-metalúrgico, Romero Jucá se tornou ministro da Previdência, cargo que teve de deixar poucos dias depois, sob denúncia de corrupção. Apesar disso, foi líder do governo Lula no senado, função que também exerceu na gestão de Dilma Roussef. Em 2010, foi reeleito senador por seu Estado de adoção, Roraima (embora seja pernambucano).
No momento, mesmo sendo citado nas operações Lava-Jato e Zelotes, tornou-se ministro do Planejamento e é o homem-forte do governo de Michel Temer.
...
A trajetória desse cidadão lembra a de um bispo francês chamado Talleyrand, que participou de todos os governos da França, a partir de 1780. Nesse ano, foi nomeado Agente Geral do Clero junto ao governo da França, ainda no tempo da monarquia dos Bourbons.
Quando explodiu a grande Revolução de 1789, Talleiyrand se exilou nos EUA. Retornou oito anos depois, e foi nomeado ministro das Relações Exteriores do próprio governo revolucionário!
A Revolução acabou em 1789, quando Napoleão assumiu o poder. O bispo Talleyrand se manteve – pasmem-se! - ministro das Relações Exteriores da França do governo napoleônico.
Após a primeira queda de Napoleão, em 1814, a monarquia dos Bourbons voltou o poder na pessoa de Luis XVIII, e mais uma vez Talleyrand estava lá no cargo de ministro das Relações Exteriores. Coisa incrível!

Em 1830, ocorreu uma nova revolução na França e o novo rei, Luís Filipe de Orleans, nomeou Talleyrand embaixador na Inglaterra. Não sei se pesaram contra ele denúncias de corrupção (como é o caso de Romero Jucá), mas o fato é que o bispo se manteve no poder (ou em volta do poder) por mais de 50 anos. Faleceu em Paris, em 1838, aos 84 anos. 

terça-feira, 26 de abril de 2016


POR DIOGO BERCITO
Poder, tudo pode.
Mas a pergunta tem um quê de filosofia, e costuma circular nas listas de não sei quantos mapas que vão te surpreender (como estes compilados pelo espanhol “El Confidencial”). Nós estamos habituados a ver a América do Norte, bem, no norte, e a do Sul, no sul –mas essa representação não é natural, e nem é a única que foi registrada durante a história.
Segundo um artigo de Nicole De Armendi publicado no “St Andrews Journal of Art History and Museum Studies”, a orientação dos mapas “afirma posições de poder, traça certas redes globais e estabelece relações hierárquicas entre as nações e os continentes”. Não por acaso diversas das contestações políticas a esse sistema vieram da América Latina. Por exemplo, a ilustração do artista uruguaio Joaquín Torres García em 1943, “O Mapa de Ponta-Cabeça”, abaixo:
 :

Ilustração de Joaquín Torres García. Crédito Reprodução

Ilustração de Joaquín Torres García. Crédito Reprodução


A argentina Mafalda, desenhada por Quino, também indagou-se sobre a razão de estarmos sempre abaixo da Europa e da América do Norte. Ela diz: “Você não vê que os países desenvolvidos são justamente os que vivem cabeça-acima? Por viver cabeça-abaixo, nossas ideias caem!”.

Tirinha de Mafalda. Clique para ver uma versão ampliada. Crédito Reprodução 

Entre os posicionamentos políticos, repete-se que o mapa tem essa orientação porque foi desenhado por europeus –que, por egocentrismo, se colocaram no topo do mundo. Mas um interessante artigo publicado pela rede de TV árabe Al Jazeera contesta esse argumento com exemplos históricos. “Na verdade, o status de elite do norte na cartografia tem mais a ver com monges bizantinos e judeus de Maiorca do que a qualquer inglês”, escreve Nick Danforth.
No século 15, o mundo era mapeado a partir de diversas perspectivas. Neste exemplo, o leste está no topo. Neste outro, o sul está em cima. Mas, no século 16, cartógrafos passaram a basear-se em um mapa creditado a Ptolomeu, que viveu em Alexandria durante o século 2 d.C. A versão que circulava, à época, era a cópia feita por um monge no século 13 –com o norte no topo.
Os cartógrafos que fizeram os primeiros grandes e belos mapas do mundo inteiro, antigo e novo –homens como Mercator, Germanus e Waldseemuller–, estavam obcecados por Ptolomeu. Eles produziram cópias da geografia de Ptolomeu na recém-inventada prensa.
Segundo Danforth, a orientação do mapa-múndi é, de certa maneira, o resultado do acaso e das limitações tecnológicas das épocas passadas. Mas, apesar de o norte já estar consolidado no topo da cartografia, o autor sugere que as tentativas de inverter a imagem não sejam descartadas tão rapidamente. Afinal, “simbolizam um desejo nobre: que invertamos as injustas relações políticas e econômicas no nosso mundo tão facilmente quanto viramos um mapa nas nossas paredes”.
Os pinguins agradecem.
Ilustração publicada na revista "New Yorker". Crédito Reprodução
Ilustração publicada na revista “New Yorker”. Crédito Reprodução




quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

ABELARDO E HELOÍSA



Amor e paixão na Idade Média 


Esta história aconteceu há muito tempo, num país muito distante. Mais exatamente no século 12, na França.

O nosso herói, Pedro Abelardo, pertencia a uma família nobre e estava destinado, como seus irmãos, seguir a carreira das armas. Mas desde cedo preferiu estudar filosofia, teologia  e seguir a carreira de professor.

A educação, naquela época, era controlada pela Igreja católica. E as normas eram rígidas, tanto para professores como para os estudantes. Uma das regras era que os professores nunca poderiam envolver-se com seus alunos. O não cumprimento dessa regra era considerado crime grave e severamente punido.
Abelardo era um mestre de muito prestígio, reconhecido por seus alunos. Antes dos 30 anos, já era um brilhante professor de teologia na Catedral de Notre Dame de Paris. Não era um fiel seguidor das ideias tradicionais. Ao contrário. Questionava as ideias aceitas pela tradição e demonstrava admiração pelos filósofos não cristãos, tais como Aristóteles e Platão – uma postura inovadora para a época.
Catedral de Notre Dame de Paris

Falemos agora de Heloísa. A heroína da nossa história nasceu em berço de ouro, no ano final do século 11. Tornou-se uma bela moça, estudiosa e educada. Para continuar os estudos, ela passou a morar em Paris, ficando sob os cuidados de seu tio Fulbert, um homem muito rico. Ela teve vários professores, até que ouviu falar de Abelardo e de suas teorias polêmicas. Ela, então, dispensou seus professores e, por conta própria, começou a estudar os autores clássicos gregos e romanos.
Atraído por esse interesse de Heloísa, Abelardo procurou tornar-se amigo de Fulbert. Conhecendo o prestígio intelectual de Abelardo, o tio o contratou como o novo professor de sua sobrinha. Ela tinha, então, 17 anos, e ele 28. Em troca dos ensinamentos à sobrinha, Fulbert ofereceu hospedagem a Abelardo em sua própria residência.
O convívio entre o charmoso mestre e a bela aluna não demorou muito para fazer brotar entre os dois uma simpatia, que logo se transformou em um sentimento para além da simples amizade. Era inicialmente um sentimento platônico (que quer dizer, um sentimento puro, desprovido de paixões). Com o passar do tempo, entretanto, o sentimento entre os dois foi do amor platônico a uma incontida paixão. Heloísa ficou grávida.
Representação idealizada de Abelardo e Heloísa

Para impedir um escândalo, os dois amantes decidiram deixar Paris e buscar refúgio na aldeia de Pallet, situada no interior da França. Ali, Abelardo deixou Heloísa aos cuidados de sua irmã e voltou a Paris. Não querendo ficar distante da amada, resolveu falar com Fulbert, para pedir seu perdão e a mão de Heloísa em casamento.

Surpreendentemente, o tio da jovem perdoou Abelardo e aceitou que eles se casassem. Graças ao perdão de Fulbert, Heloísa deixou o filho com uma irmã de Abelardo e retornou a Paris. Os dois amantes se casaram numa cerimônia discreta, à noite, em uma pequena ala da Catedral Notre Dame.
O sigilo do casamento, entretanto, durou pouco. Logo, a sociedade altamente repressora da época ficou sabendo do casamento e começou a difamar Fulbert por não ter sabido cuidar de sua sobrinha. Nesse momento, começou o inferno para Abelardo e, por extensão, também para Heloísa. Fulbert ficou enfurecido com as críticas que recebia e reagiu da pior maneira para o casal. Primeiro, denunciou Abelardo à Igreja por não ter cumprido a regra de não se envolver com alunos. Depois, Fulbert contratou dois homens para executarem a castração de Abelardo. A mutilação ocorreu durante uma invasão noturna à residência do casal.

Depois desses trágicos acontecimentos, os dois se separaram para sempre. Abelardo buscou abrigo na Abadia de Saint Denis. Tornou-se monge e passou a dedicar sua vida aos estudos filosóficos. Heloísa, por sua vez, ingressou no mosteiro de Paraclet, tornando-se monja e depois abadessa desse convento.
Para suportarem a separação, Abelardo e Heloísa dedicaram-se a uma vida de trabalhos e estudos pelo resto de suas vidas, mas se mantiveram sempre em contato por meio da correspondência. As cartas entre eles revelam uma troca intelectual que transcendeu o tempo e representa uma autêntica busca da espiritualidade.

Abelardo morreu em 1142 e Heloísa 22 anos depois. Hoje, os restos mortais do casal estão sepultados num elegante jazigo no cemitério Père Lachaise, em Paris.

domingo, 3 de janeiro de 2016

OPERAÇÃO   CARNE   MOÍDA   (MINCEMEAT)


 Como  os  ingleses  enganaram  Hitler


No  final  de  1942, os aliados (britânicos e estadunidenses) tinham conseguido conquistar todo o norte da África, expulsando de lá as tropas alemãs e italianas. O passo seguinte era a invasão do sul da Europa. A Sicília era um ponto por demais estratégico para a navegação no Mediterrâneo, de tal forma que a invasão daquela ilha era um fato dado como certo não só pelos aliados como também por seus inimigos. Portanto, sua conquista custaria um preço muito elevado em vidas humanas. Logo, era importante enganar as forças do países do Eixo, sobretudo as alemãs, e fazê-las crer que o ataque se daria em outro ponto qualquer, e não na Sicília. Mas como fazer isso?

Foi então que um seleto grupo de oficiais ingleses se pôs a pensar numa ação capaz de ludibriar os alemães. O plano que resultou do esforço desse grupo ficou conhecido pelo nome de operação Mincemeat (carne moída), e foi desenvolvido entre o final de 1942 e o início de 1943. Seu objetivo era enganar os alemães e fazê-los acreditarem que a invasão do sul da Europa pelas forças aliadas se daria em outro ponto que não a Sicília.

A ideia dessa operação tinha partido de ninguém menos que Ian Fleming, que durante a Segunda Guerra Mundial trabalhava na Inteligência Naval Britânica e que posteriormente seria o criador do agente James Bond. Ele havia criado para o governo inglês uma lista com 51 sugestões de truques para enganar os inimigos, sendo a operação Mincemeat a sugestão de número 28.



A ideia consistia em “arranjar um cadáver, disfarçá-lo como oficial do estado-maior e deixá-lo transportar documentos do Alto-Comando revelando que vamos atacar em algum outro lugar. Não precisamos lançá-lo sobre a terra, porque o avião pode cair no mar, em voo para a região do Mediterrâneo. O cadáver com os documentos poderá aparecer numa praia da França ou da Espanha, não importa qual delas. Provavelmente a Espanha será melhor, porque os alemães não terão muito tempo para examinar o cadáver, mas haverá certeza de que receberão cópias dos documentos." (1)

A sugestão foi aprovada e o grupo começou a trabalhar sigilosamente. Primeiramente, foi preciso conseguir o corpo de uma pessoa que tivesse falecido recentemente, e que convencesse os peritos alemães de que se tratava de uma pessoa que tivesse morrido em um desastre de avião no mar, e não por uma outra causa qualquer. Em seguida, o grupo decidiu que o corpo seria levado por um submarino e lançado ao mar nas imediações da cidade espanhola de Huelva, aproveitando um momento em que a correnteza arrastasse o corpo para a praia.

Mas antes que isso pudesse acontecer era preciso tomar uma série de providências. Por exemplo: era preciso vestir o corpo com a farda e acessórios adequados a um oficial de posto médio. E dar-lhe um nome. Foi assim que nasceu o “major Willian Martin”. Era preciso também redigir os documentos que, esperava-se, as autoridades espanholas repassassem para os alemães, pois, embora a Espanha fosse um país neutro, mantinha boas relações com a Alemanha.

Também era necessário providenciar os documentos pessoais do “major”, com direito a uma fotografia (tirada de uma pessoa parecida), e várias outras coisas que poderiam estar nos bolsos de uma pessoa normal qualquer, tais como bilhetes de teatro, recibo de hotel, carta e fotografia de uma suposta noiva, isqueiro, um maço de cigarros e algum. Por último, foi presa ao corpo uma pasta, a qual continha os tais documentos importantes. Eram basicamente cartas endereçadas aos generais Eisenhower (estadunidense) e Henry Wilson (inglês), baseados no norte da África.

Devidamente acondicionado num recipiente refrigerado, o “major” viajou para o Mediterrâneo num submarino e foi lançado ao mar no dia 30 de abril de 1943, às 4h30, a 1.600 metros da praia; as correntes marinhas se encarregaram do restante.

Relatórios capturados depois da guerra confirmaram o sucesso da operação: os documentos realmente chegaram às mãos do inimigo. Os chefes alemães, incluindo Hitler, foram induzidos a crer que os alvos dos aliados eram realmente a Grécia e a Sardenha, e não a Sicília, o que os levou a deslocaram forças para os pontos que seriam atacados. Ainda assim, permaneceu um grande número de soldados alemães e italianos na Sicília quando a invasão começou.

Quanto ao “major”, ele foi devidamente sepultado, na cidade de Huelva. [...] “Quando morreu, solitário e cercado pela névoa úmida da Inglaterra, no fim do outono de 1942, jamais pensou que descansaria para sempre sob o céu ensolarado da Espanha, depois de um funeral com todas as honras militares, nem que prestaria, após a morte, um serviço aos aliados, serviço que salvou várias centenas de vidas inglesas e americanas. Em vida, pouco fizera pela pátria; depois de morto, fez mais do que poderia fazer durante uma vida inteira dedicada à carreira das armas.” (2)
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(1) MONTAGU, Ewen. O homem que nunca existiu. Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército, 1978, p. 21.
(2) Idem, p. 13.