quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

TEMPO  HISTÓRICO


 O  que  é  o  tempo? 

 A  resposta  varia,  dependendo  da  sociedade.

Atrase uma hora no Brasil e ninguém nem irá se importar muito. Mas, na Suíça, deixe alguém esperando mais que cinco ou dez minutos e terá muito a explicar. Em algumas culturas o tempo é elástico, em outras, monolítico. De fato, o modo como membros de uma cultura percebem e usam o tempo reflete as prioridades da sociedade e até sua visão do mundo.
Cientistas sociais registraram grande diferença no ritmo de vida em vários países e em como as sociedades percebem o tempo: se como uma flecha penetrando o futuro ou como uma roda em movimento, onde passado, presente e futuro giram sem parar. Algumas culturas combinam tempo e espaço: o conceito dos aborígenes australianos do “tempo de sonhos” abrange não só o mito da criação, mas também o método de selocalizar no campo. Mas algumas visões de tempo interessantes, como o conceito de ser aceitável uma pessoa poderosa manter alguém de status inferior esperando, parecem desconhecer diferenças culturais. Elas são universais.

Gavin Hellier Corbis; Bart omeu Amengual age Fotostock;
Johnny Stockshooter Aurora Photos; Oscar Okapi Aurora Photos

O estudo de tempo e sociedade pode ser dividido em pragmático e cosmológico. Do ponto de vista prático, nos anos 50, o antropólogo Edward T. Hall escreveu que as regras de tempo social compõem uma “linguagem silenciosa” para determinada cultura. As regras nem sempre são explícitas, analisou ele, mas “subentendidas... Ou são cômodas e familiares, ou erradas e estranhas”.
Em 1955, ele descreveu na Scientific American como percepções diferentes de tempo podem levar a mal-entendidos entre pessoas de culturas diversas. “Um embaixador que espera um visitante estrangeiro mais que meia hora deve entender que se este último ‘mal murmura uma desculpa’ isto não é necessariamente um insulto”, exemplifica. “O sistema de tempo no país estrangeiro pode ser composto de unidades básicas diferentes, então o visitante não está tão atrasado quanto parece. Deve-se conhecer o sistema de tempo do país, para saber a partir de que ponto as desculpas são realmente necessárias... Culturas diferentes atribuem valores diversos para as unidades de tempo.”
A maioria das culturas do mundo agora usa relógios e calendários, unindo a maior parte do globo no mesmo ritmo geral de tempo. Mas isso não significa que todos acertem o mesmo passo. Algumas pessoas se estressam com o ritmo da vida moderna e o combatem com o movimento “slow food” enquanto em outras sociedades as pessoas sentem pouca pressão no gerenciamento do tempo.
“Uma das curiosidades do estudo de tempo está no fato de ele ser uma janela para a cultura”, avalia Robert V. Levine, psicólogo social na California State University em Fresno. “É possível obter respostas sobre valores e crenças culturais: uma boa ideia do que importa para as pessoas.”
Levine e seus colegas fizeram estudos do “ritmo de vida” em 31 países. Em A geography of time, publicado pela primeira vez em 1997, Levine descreve a classificação dos países usando três medidas: velocidade para andar nas calçadas urbanas, rapidez de um funcionário do correio em vender um simples selo e a precisão dos relógios públicos. Baseado nessas curiosas variáveis ele concluiu que os cinco países mais rápidos são Suíça, Irlanda, Alemanha, Japão e Itália e os cinco mais lentos, Síria, El Salvador, Brasil, Indonésia e México. Os Estados Unidos ocupam a 16º lugar, próximo ao mediano.
Kevin K. Birth, antropólogo no Queens College, examinou a percepção de tempo em Trinidad. Seu livro, Any time is Trinidad time: social meanings and temporal consciousness, de 1999, se refere à desculpa comum dada para atrasos. Naquele país, observa Birth, “se você marcar um encontro para as 18h00, as pessoas aparecem às 18h45 ou 19h00 e dizem: ‘Qualquer hora é hora em Trinidad’”. Quando se trata de negócios, porém, esse enfoque informal do tempo só se aplica para os poderosos. Um chefe pode chegar tarde e usar o refrão, mas é esperado que subalternos sejam mais pontuais. Para eles, “horário é horário”. Birth acrescenta que a paridade tempo-poder existe em muitas outras culturas.
A natureza obscura do tempo pode dificultar a tarefa dos antropólogos e psicólogos sociais. “Não se pode simplesmente chegar numa sociedade, se aproximar de alguém e perguntar: ‘Qual é a sua noção de tempo?’”, adverte Birth. “As pessoas não terão resposta. Então, tente outros meios para descobrir isso.”
Birth tentou descobrir o valor do tempo para os trinitinos, explorando a proximidade entre o tempo e o dinheiro na sociedade. Avaliou populações rurais e descobriu que fazendeiros, cujos dias eram ditados por eventos naturais, como o nascer do sol, não reconheciam o provérbio “tempo é dinheiro”, “economizar o tempo” ou “gerenciar o tempo”, embora tivessem TV por satélite e estivessem familiarizados com a cultura popular ocidental. Já os alfaiates das mesmas áreas tinham essa noção. Birth concluiu que o trabalho assalariado alterou o ponto de vista dos alfaiates. “As ideias de associar tempo a dinheiro não são globais”, esclareceu ele, “mas atreladas à profissão e à pessoa que a exerce.”
A forma de lidar com o tempo no cotidiano não está relacionada ao conceito de tempo como entidade abstrata. “Muitas vezes há uma separação entre como uma cultura encara a mitologia do tempo e como as pessoas pensam a respeito do tempo em suas vidas,” relata Birth. “Não pensamos sobre as teorias de Stephen Hawking do mesmo modo que sobre a rotina diária.” 
Algumas culturas não distinguem claramente passado do presente e do futuro. Os aborígenes australianos, por exemplo, acreditam que seus ancestrais rastejaram para fora da Terra na época do tempo dos sonhos. Os ancestrais “cantaram” o mundo para criá-lo, nomeando cada característica e ser vivo, o que os fez existir. Mesmo hoje uma entidade não existe a menos que um aborígene a “cante”.
Ziauddin Sardar, autor e crítico britânico muçulmano, escreveu sobre o tempo e culturas islâmicas, especialmente a seita fundamentalista wahhabista. Os muçulmanos “sempre carregam o passado consigo”, afirma Sardar, editor da revista Futures e professor convidado de estudos pós-coloniais da City University, em Londres. “No Islã o tempo é uma tapeçaria que incorpora o passado, o presente e o futuro. O passado é sempre presente.” Os seguidores do wahhabismo, muito difundido na Arábia Saudita e entre os membros da Al Qaeda, buscam recriar os dias idílicos da vida do profeta Maomé. “A dimensão mundana do futuro foi suprimida” por eles, segundo Sardar. “Eles romancearam uma visão particular do passado. Tudo o que fazem é tentar repetir o passado.”
Sardar afirma que o Ocidente “colonizou” o tempo ao divulgar a expectativa de que a vida deveria se tornar melhor conforme o tempo passa: “Ao colonizar o tempo, se coloniza o futuro. Acreditando- se que o tempo é uma flecha, então o futuro seria o progresso, seguindo uma direção. Mas pessoas diferentes podem desejar futuros diferentes.”
[http://www2.uol.com.br/sciam/artigos/relogio_das_culturas.html]


sábado, 26 de dezembro de 2015

A   UNIFICAÇÃO  DA  ITÁLIA


Apesar  de  “Itália”  ser  o nome pelo qual era conhecido o território correspondente à atual Itália, o país não existia.

Havia importantes diferenças culturais em cada região da Itália. Seus habitantes falavam (e ainda falam) dialetos bastante diferentes uns dos outros. Ainda hoje, alguém que mora em determinada região italiana pode não entender o dialeto falado em outra. Havia também grandes rivalidades entre os nascidos nas diferentes regiões. Contudo, grande parte dos habitantes da península italiana acreditavam fazer parte de um único povo, o italiano.

Os habitantes da Itália estavam distribuídos em vários Estados:

1. O Reino Lombardo-Veneziano, que pertencia ao imperador da Áustria.
2. Os ducados de Módena e Toscana, governados por príncipes Habsburgos.

Resultado de imagem para unificação da italia3. O Reino das Duas Sicílias, com capital em Nápoles e governado por um ramo da família Bourbon.
4. O ducado de Parma, também governado por um membro da família Bourbon.
5. Os Estados Pontifícios (incluindo Roma), subordinados ao papa.
6. O Reino do Piemonte-Sardenha, governado pelo rei Vítor Emanuel II, da dinastia de Savoia.


A Itália antes da unificação
Vimos que grandes agitações revolucionárias sacudiram boa parte da Europa na primeira metade do século XIX. Em 1820, 1830 e, principalmente, em 1848, já se havia tentado unificar a Itália. Um líder que se destacou nessa luta foi Giuseppe Mazzini, que dedicou a vida à causa da unificação da península italiana.

O lema de Mazzini era: “Nem papa nem rei. Somente Deus e o povo nos abrirão o caminho do futuro”. Ele acreditava que uma revolução popular iria derrubar os governantes estrangeiros e criar um Estado unificado, sob a forma de uma república democrática.

Mazzini e a unificação da Itália

Discurso de Mazzini durante a campanha pela unificação italiana:

“Somos um povo de 21 a 22 milhões de homens designados, há muito tempo, sob o nome de povo italiano, encerrados dentro dos limites naturais mais precisos que Deus já traçou: o mar e as montanhas mais altas da Europa. Falamos a mesma língua, temos as mesmas crenças, os mesmos costumes, os mesmos hábitos; orgulhamo-nos do mais glorioso passado político, científico, artístico conhecido na história europeia.
Não temos bandeira, nem nome político, nem posição entre as nações europeias. Estamos desmembrados em oito Estados, todos independentes uns dos outros, sem aliança, sem unidade de objetivos, sem ligação organizada entre si. Não existe liberdade de imprensa, nem de associação, nem de palavra, nem de petição coletiva, nem de introdução de livros estrangeiros, nem de educação: nada. Um desses Estados, que compreende um quarto da península, pertence à Áustria; os outros dela seguem, cegamente, a influência.” (MAZZINI, Giuseppe. A Itália, a Áustria e o papa. 1845)

Mas o sonho de Mazzini não se realizou. A unificação tinha dois fortes opositores: a Igreja, que dominava os Estados Pontifícios; e uma família real: os Habsburgos, que governavam vários territórios da Itália e à qual pertencia o imperador da Áustria.

O movimento pela unificação foi dirigido pelo Reino do Piemonte-Sardenha. Isto se deu porque, em primeiro lugar, este era o único Estado da península governado por uma dinastia genuinamente italiana. Essa condição dava mais legitimidade a seus governantes para falar em nome dos italianos. Em segundo lugar, porque possuía uma economia diversificada, comparando-se a outras regiões da Itália. Além da agricultura, da pecuária, do comércio e da produção artesanal, havia se iniciado um processo de industrialização na região. Essas atividades econômicas produziam bastante riqueza, que permitia ao Estado arrecadar um grande volume de impostos e se fortalecer.

O Reino do Piemonte-Sardenha era governado pelo rei Vítor Emanuel II, mas quem comandou o movimento de unificação foi seu primeiro-ministro, o conde Camilo di Cavour.

Contra um inimigo poderoso, aliados poderosos

Cavour concluiu que, para unificar a Itália, era preciso, em primeiro lugar, derrotar os austríacos. A explicação para isso é a seguinte: a Áustria era a sede de um grande império, governado pelos Habsburgos; essa família estendia seu poder a diversas regiões da Europa e incluía territórios também na Itália; além do Reino Lombardo-Veneziano, diretamente subordinado ao imperador da Áustria, os Habsburgos governavam Módena e Toscana e mantinham forte influência no restante da Itália.

Com um inimigo tão poderoso para enfrentar, Cavour avaliou que precisaria de apoio externo. Entabulou negociações com Napoleão III, imperador da França, com quem fez um acordo secreto. A França daria ajuda ao Piemonte numa guerra contra a Áustria, em troca de alguns territórios.

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Cavour e Garibaldi, artífices da unificação italiana
Em 1859, Cavour e Napoleão deram início à guerra, que durou dois meses. Embora a luta tenha resultado numa vitória parcial para os dois aliados, foi suficiente para forçar a Áustria a ceder ao Piemonte a região da Lombardia e, à França, os territórios de Nice e Saboia (reveja o mapa).

A primeira vitória sobre a Áustria acabou sendo um estímulo para revoltas populares nos ducados de Parma, Módena e Toscana. Como resultado desses movimentos, os antigos governantes dessas regiões foram expulsos. Em seguida, por meio de plebiscitos, as três regiões foram unidas ao Piemonte.

Ainda em 1859, teve início uma revolta popular no Reino das Duas Sicílias. Imediatamente, o nacionalista italiano Giuseppe Garibaldi organizou um exército de voluntários, conhecido como os “Mil Camisas Vermelhas”. Partindo de Gênova, ele e seus homens desembarcaram na Sicília e, com o apoio da população local, conseguiram vencer o exército de Nápoles, a capital do reino. Por fim, com o auxílio do exército piemontês, que havia avançado pelo centro da Itália, Garibaldi tomou a cidade de Nápoles.

No início de 1861, com a reunião de todos esses territórios, formou-se o Reino da Itália, do qual Vítor Emanuel II foi proclamado rei. Cinco anos depois, o reino se ampliou, com a ocupação de Veneza, que até então estivera em poder dos Habsburgos.

Com a ocupação de Roma,  completa-se a unificação
Faltava, porém, incorporar a cidade de Roma. A tarefa era particularmente difícil por causa da resistência do papa. Desde a Idade Média, além de chefe da Igreja, o papa era também o governante de uma parte da Itália: os Estados Pontifícios, que tinham Roma como capital. O poder do papa, como governante, mantinha-se graças à proteção de um exército francês. O imperador francês, Napoleão III, protegia os Estados Pontifícios porque isso lhe trazia o apoio dos católicos da França.

Em 1870, porém, a situação dos Estados Pontifícios sofreu uma brusca mudança. Travou-se uma guerra entre a França e a Prússia, e o imperador francês, precisando reforçar seu exército, teve de retirar seus soldados de Roma. Aproveitando-se do fato, o rei italiano ordenou a ocupação da cidade, que passou a ser a capital do Reino da Itália.

A ocupação de Roma criou um sério problema nas relações entre o Estado italiano e o papa, que se considerava prisioneiro do rei da Itália. O problema seria solucionado apenas em 1929, quando foi negociado um acordo entre a Igreja e o Estado italiano, que resultou na criação do Estado do Vaticano.

O Norte industrial e o Sul dos latifúndios
A unificação eliminou as barreiras internas e favoreceu a industrialização, mas acentuou as diferenças regionais na Itália. A região Norte contava com uma agricultura intensiva e começou a se industrializar; a região Sul permanecia arcaica, apoiada em latifúndios de agricultura extensiva, longe das fontes de energia e dos grandes eixos econômicos.


A situação da população que vivia no Sul, já bastante difícil, agravava-se pelo crescimento da população juntamente com o aumento do desemprego. Para muitos italianos, a saída era a emigração em busca de melhores condições de vida. Foi assim que, a partir de 1870, os italianos, em número crescente, emigraram para a América. Muitos tomaram o rumo do Brasil, numa época em que o número de escravos existentes no país era insuficiente para as necessidades das fazendas de café.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

A REFORMA PROTESTANTE


Durante a Idade Média, a vida espiritual na Europa ocidental foi dominada pela Igreja Católica. Não se admitiam divergências sobre esse monopólio da crença. Os rebeldes e dissidentes, considerados hereges, ou se calavam ou eram simplesmente eliminados. Muitos foram queimados vivos nas fogueiras que o Tribunal do Santo Ofício, ou Inquisição, acendeu por todo o continente.

Nessa época, o poder dos reis era praticamente o mesmo que o dos senhores feudais e o Estado moderno ainda estava por ser criado. Na falta de um poder político centralizador, vigorava o conceito de Cristandade, que designava o conjunto de países católicos em oposição ao mundo muçulmano e às regiões orientais não cristianizadas.

No Ocidente, ser cristão significava ser católico, obedecer às regras e aos princípios da Igreja de Roma. Como veremos, essa unidade católica sofreria profundas transformações a partir de 1517, com a Reforma Protestante iniciada por Martinho Lutero.

A crítica à Igreja

Num período de tantas transformações, como as que se verificaram na passagem da Idade Média para a Idade Moderna, era previsível que também ocorressem mudanças nas esferas ideológica e espiritual.
No decorrer do século XV, alguns humanistas apontavam deturpações cometidas pela Igreja e criticavam a corrupção reinante em sua alta hierarquia.

Os abusos cometidos pelo clero disseminavam--se por todas as categorias eclesiásticas. Assim, desde a venda de relíquias sagradas (como pretensos pedaços da cruz em que Cristo foi crucificado), efetuada pelo baixo clero, até a intervenção política em problemas internos dos reinos pelos papas, tudo contribuía para justificar as críticas dos intelectuais humanistas.

De acordo com um desses intelectuais, Erasmo de Roterdã, era preciso que a Igreja assumisse uma posição mais humilde e desvinculada da vida material, conforme pro­punham os ensinamentos dos Evangelhos.
Nesse contexto surgiu Martinho Lutero, que propunha mudanças na Igreja de Roma. Suas propostas provocariam um intenso movimento de transformação religiosa em toda a Europa ocidental, que ficou conhecido como Reforma Protestante.

Lutero e a Reforma Protestante

Martinho Lutero (1483-1546) era de origem germânica. Note que, aqui, não seria correto falar que era alemão, pois a Alemanha não existia naquele tempo. Lutero era monge e teólogo católico. Em 1517, estava ensinando na universidade de Wittenberg, no Sacro Império, quando apareceu por ali um religioso vendendo indulgências, isto é, a absolvição dos pecados. Naquele tempo, as autoridades da Igreja difundiam a ideia de que a compra de indulgências era condição para garantir a salvação dos fiéis.
31 de outubro de 1517. Martinho Lutero divulga as 95 teses, afixando-as na porta da Igreja do Castelo
de Wittenberg, propondo uma reforma na igreja no Século XVI.

Contrário a essa prática, Lutero afixou na porta da igreja da cidade um texto conhecido como 95 teses, no qual discordava em pontos importantes dessa e de outras práticas da Igreja romana católica. Seguiu-se enorme polêmica que culminou com a excomunhão do monge pelo papa.
A situação se parecia com a de João Huss, ocorrida um século antes.

João Huss: herege ou precursor?

A situação se parecia com a de João Huss, ocorrida um século antes. Muito tempo antes de Lutero, alguns reformadores já haviam tentado renovar a doutrina e as práticas da Igreja. Foi o caso, entre outros, de João Huss, que se converteu em líder de uma revolta ocorrida no início do século XV, na Boêmia (hoje, República Tcheca).
A região fazia parte do Sacro Império, no qual a maior parte dos altos cargos da Igreja era ocupada por religiosos alemães. Professor da Universidade de Praga, João Huss pregava a reforma da Igreja, negava o dogma da infalibilidade do papa e lutava contra o predomínio dos prelados alemães.
João Huss foi preso e intimado a negar seus pontos de vista durante o Concílio de Constança. Como se recusasse, foi queimado na fogueira em 6 de julho de 1415. Sua morte radicalizou o descontentamento religioso, que se transformou numa revolta popular e se espalhou por toda a região.

A Reforma de Lutero

Diferentemente de João Huss, Lutero recebeu o apoio de um número muito grande de nobres e integrantes da burguesia. Graças a esse apoio, ele pôde enfrentar a reação da Igreja. 

Com suas propostas reformistas divulgadas rapidamente, graças à imprensa, por todo o Sacro Império, Lutero conquistava a adesão de parcela cada vez maior da população. Muitos dos príncipes germânicos, convertidos às novas doutrinas, passaram a empreender o con­fisco de terras da Igreja. Após alguns anos, as ideias de Lutero levaram os nobres a reivindicar a autonomia religiosa dos principados germânicos em relação a Roma.
Diante dos conflitos que se disseminavam pelo Império, Carlos V, imperador católico, convocou uma assem­bleia para decidir sobre as propostas de Lutero. A assembleia decla­rou que a nova doutrina poderia ser seguida apenas em alguns principados, mantendo-se a hegemonia da Igreja Católica na maior parte do território. Revoltados, nobres e burgueses protestaram violentamente contra essa decisão. A partir desse acontecimento, os se­guidores da Reforma Luterana passaram a ser chamados de protestantes
O conflito se prolongou até 1555, quando foi celebrada a Paz de Augsburgo, concedendo a cada príncipe o direito de escolher a religião de seu principado.
Ainda em 1530, auxiliado por Philip Melanchthon, Lutero redigiu a Confissão de Augs­burgo, que constituiu a doutrina da Igreja Luterana. Entre seus princípios estavam:

        a teoria do sacerdócio universal, segundo a qual qualquer pessoa pode interpretar os textos sagrados e ser “sacerdote de si mesma”, sem necessidade de um representante para intermediar sua relação com Deus;
·       a tese da salvação pela fé, que rejeita a crença católica da salvação pelas obras, especialmente as “falsas boas obras”, pagas com dinheiro;
·         a abolição do celibato dos sacerdotes;
·       a eliminação dos sacramentos, isto é, das cerimônias de bênção aos fiéis, com exceção do batismo e da eucaristia;
·      a substituição do latim pelalíngua germânica nas cerimônias religiosas;
·         a rejeição da hierarquia do clero católico (padre, bispo, arcebispo, cardeal e papa);
·         aceitação da Bíblia (ou Sagradas Escrituras) como única fonte de autoridade infalível.

Ao desenvolver seus próprios preceitos e criar uma nova prática religiosa, Lutero dividiu a cristandade, quebrando o monopólio da Igreja Católica.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015




JÚLIO CÉSAR, UM GENOCIDA?
  Arqueólogos encontram local onde o general romano exterminou mais de 100 mil germânicos

Restos encotrados no local da batalha, numa localidade hoje pertencente à Holanda.

Nos relatos pessoais de Julio Cesar a respeito da Guerra das Gálias, o comandante romano detalhou o massacre de duas tribos germânicas pelas tropas romanas em batalhas que aconteceram em 55 a.C.. De acordo com o livro deixado pelo Imperador, os grupos teriam pedido asilo a ele, que no final os exterminou, matando cerca de 430 mil pessoas, sendo a maioria mulheres e crianças.
No entanto, apesar do registro escrito, nenhuma prova de que o episódio aconteceu havia sido encontrada até alguns anos atrás. Recentemente, arqueólogos da Universidade de Amsterdã que estudaram os achados contam que eles finalmente podem relacionar evidências físicas ao extermínio que aconteceu em uma região da Holanda, próxima à cidade de Kessel.
Crâneo mostra ferimento com lança ou espada.

Segundo todos os dados já colhidos na história, esta teria sido a primeira batalha em solo holandês, assim como a primeira invasão dos romanos no território germânico. Diversos ossos, espadas, capacetes e cintos foram encontrados por arqueólogos amadores e moradores da região de Kessel entre pesquisas realizadas de 1975 a 1995, sendo a grande maioria datada da época anterior a Cristo.
Muitos furos são vestígios claros de ferimentos de espada e lança. Além disso, os estudos indicaram que os corpos das vítimas do massacre foram recolhidos, juntamente com as suas armas, e depositado no leito do rio. O número estimado de mortos difere do revelado por César, já que pelo estudo variou entre 150 mil e 200 mil.
De acordo com o pesquisador Nico Roymans, é possível questionar se a ação não pode ser considerada genocídio. “Por mais que César não tenha explicitado a intenção de erradicar as tribos, ele deve ter pensado que a invasão levaria a isso. Na época não havia nenhum tipo de objeção moral na cultura política romana que impedisse isso, principalmente quando envolvia bárbaros”, contou o cientista.
As tribos dos Tencteros e dos Usipetes não eram originais da área, mas realizaram o processo de migração ao longo do rio Reno, de acordo com análises geoquímicas que foram realizadas a partir das arcadas dentárias encontradas.
Fonte:  https://br.noticias.yahoo.com/arque%C3%B3logos-encontram-local-onde-j%C3%BAlio-c%C3%A9sar-152948202.html  (Acesso em 22/nov/2015)




domingo, 6 de dezembro de 2015

UMA  REVOLUÇÃO  EM  PERNAMBUCO


A Revolução Praieira, de1848


Quando parecia que o país das revoltas que agitaram o Período Regencial já era coisa do passado, eis que uma nova revolta explode no Nordeste brasileiro, mais exatamente em Pernambuco, em 1848.
Entre as províncias do Nordeste, Pernambuco se destacava por sua forte economia açucareira e por longa tradição de revoltas políticas, que começaram com a luta contra os holandeses, em meados do século XVII. Em 1848, uma nova revolta eclodiu na região. De caráter liberal e federalista, o movimento ficaria conhecido como Revolução Praieira. Os líderes dos revoltosos pertenciam à facção mais radical dos liberais. Como seu ponto mais frequente de reunião era a sede do Diário Novo, localizada na rua da Praia, no Recife, o grupo passou a ser chamado de Partido da Praia, nome do qual derivaria o da própria revolução.

As causas da insatisfação dos pernambucanos

No Recife, uma das fontes de descontentamento popular era o domínio que os portugueses ainda exerciam sobre o comércio local, para muitos a causa do alto custo de vida e do desemprego urbano. A situação levava os pernambucanos a exigir a nacionalização do comércio. Além disso, a insatisfação também era crescente em relação à crise da economia açucareira, o que criava um clima de críticas generalizadas à política imperial.
Recife à época da Revolução Praieira.

A revolta contou com a participação das camadas oprimidas pela grande concentração fundiária nas mãos de poucos proprietários. Como exemplo, uma quadra popular à época, refere à poderosa família Cavalcanti:
"Quem viver em Pernambuco
não há de estar enganado:
Que, ou há de ser Cavalcanti,
ou há de ser cavalgado."

A partir de 1844, os liberais estiveram no governo da província durante quatro anos. Em 1848, os conservadores subiram ao poder no Rio de Janeiro, formando um novo gabinete. Como era praxe, nomearam conservadores para presidir as províncias. Em Per­nambuco, o presidente liberal Chichorro da Gama foi destituído e o conservador Herculano Ferreira Pena assumiu o cargo.

Principiais lideranças


A revolta contra o novo governo da Província eclodiu em Olinda, a 7 de novembro de 1848, sob a liderança do general José Inácio de Abreu e Lima, do Capitão de Artilharia Pedro Ivo Veloso da Silveira, do deputado liberal Joaquim Nunes Machado e do militante da ala radical do Partido Liberal, Antônio Borges da Fonseca. O presidente nomeado da Província,  Herculano Ferreira Pena, foi afastado e o movimento espalhou-se rapidamente por toda a Zona da Mata de Pernambuco.

Na Zona da Mata  região em que se concentravam os engenhos de açúcar. Ali, Pedro Ivo reuniu uma massa formada de boiadeiros, pequenos arrendatários, escravos libertos, caboclos e índios, ao lado de soldados profissionais. Com eles, passou a fustigar as forças do governo. Os rebeldes chegaram a ocupar parte do Recife, mas não conseguiram depor o governo conservador.



Reivindicações

Para divulgar suas ideias, no dia 1ºde janeiro de 1849 lançaram oManifesto ao mundo, no qual reivindicavam:
- o sufrágio universal,
- a nacionalização do comércio varejista,
- a autonomia provincial, a liberdade de imprensa e
- a extinção do poder Moderador.

A derrota

Não propunham, contudo, a formação de uma República e, assim como nas rebeliões de 1817 e 1824, silenciaram sobre a questão do trabalho escravo. Mas os revolucionários não conseguiram forças suficientes para vencer. No início de 1850, o governo central conseguiu sufocar a revolta, empregando tropas regulares apoiadas nas forças da Guarda Nacional. Depois de um ano e alguns meses de combate em toda a província, Pedro Ivo e outros líderes praieiros foram presos e a “paz imperial” voltou a reinar em Pernambuco. (DGF)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA

A Guerra do Paraguai, além de contribuir para difundir ideias republicanas e abolicionistas, estimulou também a formação do chamado "espírito de corpo" entre os membros do Exército. Esse "espírito" levava-os a pensar como grupo, ou como corporação dotada de qualidades e valores que a colocavam acima das ambições dos políticos profissionais, chamados depreciativamente por eles de "casacas".
Insatisfeitos com a política do Império, os militares passaram a se considerar mais preparados que os civis para cuidar dos interesses da nação. A partir daí, nascia a ideia de "missão salvadora" a que o Exército estaria destinado. Sob essa óptica, soldados e oficiais deixavam de ser meros instrumentos para garantir a segurança da nação e tornavam-se "cidadãos fardados", comprometidos com o futuro da pátria. Essas ideias justificavam para eles a intervenção militar na vida política do país.
Reforçada pelo positivismo, essa evolução ideológica colocava setores cada vez maiores do Exército contra a Monarquia. Esta, por sua vez, já tinha sido abandonada também por parte da Igreja desde a Questão Religiosa e, a partir de maio de l888, pelos donos de escravos, em virtude da abolição sem indenização.
Na tentativa de sobreviver, em junho de l889 o governo imperial nomeou Afonso Celso de Assis Figueiredo, um político moderado do Partido Liberal, para o cargo de presidente do Conselho de Ministros. Mais conhecido pelo título de visconde de Ouro Preto, Afonso Celso apresentou a Câmara dos Deputados um amplo programa de reformas que previa, entre outras medidas, a liberdade religiosa, a autonomia para as províncias, o fim do caráter vitalício do Senado, a liberdade de ensino e o aumento de crédito para a produção. Com essas mudanças, Ouro Preto pretendia esvaziar a pregação republicana.
Para sua surpresa, a Câmara dos Deputados não aprovou as reformas. Diante disso, o imperador, valendo-se do Poder Moderador, dissolveu o Parlamento e convocou novas eleições. Esperava obter da nova Câmara, que deveria se reunir em 20 de novembro, aprovação para as reformas de Ouro Preto. A essa altura, porém, já estava em marcha uma conspiração para depor o governo imperial e proclamar a Republica, O principal líder da conspiração era Benjamin Constant.
No dia 11 de novembro, Benjamin Constant, Quintino Bocaiúva e Rui Barbosa, entre outros lideres, reuniram-se com o marechal Deodoro da Fonseca, tentando convencê-lo a aderir a conspiração. Com todo seu prestigio nos meios militares, Deodoro seria a garantia de que o Exército permaneceria unido em torno da causa republicana.
Mesmo assim, Deodoro hesitou. Enquanto isso, surgiram alguns boatos de que sua prisão tinha sido decretada e de que haveria profundas mudanças no Exército. Diante dos rumores, Deodoro decidiu liderar o movimento para depor o ministério de dom Pedro II.

"Proclamação da República", 1893, óleo sobre tela de Benedito Calixto (1853-1927)
 Acervo da Pinacoteca Municipal de São Paulo
 

Amanhecia o dia l 5 de novembro de l889. Depois de ocupar o Ministério da Guerra com suas tropas, o marechal Deodoro da Fonseca determinou a queda do Ministério. Em seguida, desfilou pelo centro da cidade a frente de seus homens, mas ele não proclamou a Republica, como se costuma dizer. Isso somente seria feito à tarde, na Câmara Municipal, quando foi, então, oficialmente proclamada a República.Nascia, assim, sem participação popular, a Republica no Brasil. Um dos lideres da conspiração, Aristides Lobo, diria mais tarde que "o povo assistiu, bestializado, a Proclamação da Republica".

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O  ROUBO  DAS  SEMENTES   DA  BORRACHA


Como o inglês Henry Alexander Wickham roubou 70 mil sementes das seringueiras da Amazônia. (*)


O látex das seringueiras (matéria prima da borracha) já era conhecida dos indígenas muito antes da chegada dos europeus. Segundo relatos, Cristóvão Colombo teria visto nativos do Haiti brincando com bolas elásticas. Fernão Cortez encontrou o mesmo jogo entre os astecas.
Em 1743, o geógrafo francês Charles-Marie de La Condamine descobriu a árvore da borracha e estudou, com os índios, o processo de extração da seiva e de fabricação da goma.
Cerca de vinte anos depois, o botânico francês Fusée Aublet, em um estudo sobre a árvore, propôs uma classificação científica. Designou o gênero como Hevea, derivado da palavra hevé, usada pelos índios para indicar a planta e a espécie como brasiliensis, em homenagem ao país no qual a árvore era abundante.

O primeiro emprego industrial da borracha foi como apagador. Em 1772, cubos de borracha começaram a ser vendidos em Londres e recebeu em inglês o nome de "India Rubber", que significa "Raspador da Índia". Em 1820, Thomas Hancock abriu, na Inglaterra, a primeira fábrica de borracha. A Inglaterra logo foi invadida por vários objetos de borracha: rolos, correias de transmissão, instrumentos cirúrgicos, etc.
O vale amazônico era o principal fornecedor mundial de borracha bruta, mas a demanda ainda era bem pequena: em 1827, o total das exportações somava apenas 8 toneladas.
A borracha, que já era usada para várias finalidades, tornou-se ainda mais útil depois de 1839, quando o norte-americano Charles Goodyear descobriu processo de vulcanização (assim chamada em homenagem a Vulcano, o deus romano do fogo). A vulcanização revelou as propriedades mais importantes da borracha: a resistência e a elasticidade.
Na floresta virgem da Amazônia, os que chegavam na frente se apropriavam de áreas enormes de floresta, tornando-se seringalistas – nome do proprietário do seringal. Nos primeiros tempos, a extração do látex era feita com mão-de-obra da população pobre da região, sobretudo indígena – chamados seringueiros.
A partir da década de 1870, os seringueiros passaram a ser principalmente nordestinos, vindos em sua maioria do Ceará, estado que atravessava um longo período de secas. Eram atraídos com muitas promessas de ganhos, mas o que eles realmente encontraram foi uma vida miserável e a exploração imposta pelos seringalistas e seus intermediários.
À medida que o século XIX avançava, a produção de borracha crescia cada vez mais, acompanhando a demanda crescente do mercado mundial. No período de apenas três décadas (1830-1860), a exportação anual de borracha subiu de 156 para 2673 toneladas. E a Amazônia era, então, a única fonte de borracha de alta qualidade. Para se ter uma ideia da importância produção amazônica, basta dizer que ela representava 95% de toda borracha extraída no mundo.
Com isso, a região Norte do Brasil, que antes era uma das mais pobres e desabitadas do país, conheceu um período de grande prosperidade. Interessadas nos lucros da borracha, empresas mercantis e bancos estrangeiros instalaram-se nas cidades de Belém e Manaus. A capital amazonense tornou-se o um grande centro econômico. Recebeu sistemas de abastecimento de água, luz elétrica, telefone, grandes construções, como o Teatro Amazonas, até hoje o principal símbolo da riqueza proporcionada pela borracha.

As aventuras de Henry Alexander Wickham
Na segunda metade do século XIX, os ingleses estavam preocupados com o monopólio brasileiro da borracha. O fornecimento do produto, além de limitado, era incerto e o preço estava subindo, pois a oferta não acompanhava a demanda. Os ingleses viam como solução plantar a seringueira em outras partes dos domínios britânicos.
Na Amazônia, havia diversas espécies de plantas produtoras de borracha. A pessoa que chegou mais perto de identificar a verdadeira árvore da borracha, a Hevea Brasiliensis, foi o explorador inglês Richard Spruce. Ele chegou a enviar sementes da Hevea para a Inglaterra, mas seu esforço fracassou. O problema era que o óleo das cápsulas das sementes se tornava tão rapidamente rançoso que elas não sobreviviam à longa travessia do oceano. O mesmo aconteceu com outras tentativas de enviar as sementes da árvore da borracha da Amazônia para a Inglaterra.

A proeza de realizar o roubo bem-sucedido das sementes da Hevea Brasiliensis coube ao inglês Henry Alexander WickhamEle nascera em 29 de maio de 1846, no seio de uma família de classe média. Tinha apenas quatro anos, quando a morte do pai, que era advogado, rebaixou drasticamente o padrão social da família. Sua mãe, Harriette, teve de voltar para o negócio de chapelaria, sua antiga profissão.
Henry cresceu em meio a dificuldades. Ele não ia bem na escola. Não era um garoto estudioso. Além do desenho, disciplina para a qual revelava natural talento, só lhe interessavam as narrativas feitas por exploradores, algo muito comum na Inglaterra naquela época. Para uma pessoa como ele, não havia nenhuma possibilidade de ascensão social em seu país.
A seringueira, cujo nome científico é Hevea brasiliensis
é uma árvore de grande porte, podendo atingir
 30m de altura total, iniciando aos 6 -7 anos 
a produção de látex (borracha). A casca é o  principal
 componente do tronco, responsável pela produção de látex.
Animado pelas narrativas dos exploradores, começou a pensar numa viagem ao Novo Mundo. Aos 20 anos, partiu para a América, munido de um caderno de desenhos. E assim ele entrou para a lista dos exploradores-aventureiros, uma figura muito comum na Europa do século XIX.
Ele foi parar na costa leste da Nicarágua, onde os ingleses já tinham alguma presença e eram amigos dos índios da região, os misquitos. Seu primeiro objetivo era matar aves para enviar as penas para sua mãe em Londres, pois os chapéus que ela vendia ficariam mais valorizados se tivessem uma pena bonita como enfeite. Ele ficou na região quase um ano, quando então retornou à Inglaterra.
Em 1868, viajou novamente para a América, desembarcando, desta vez, na Venezuela. Adentrou o país subindo o curso do rio Orinoco. Nas cabeceiras do rio, foi atraído pela extração de borracha. Reuniu um grupo de trabalhadores e começou a coletar látex e preparar a borracha. Os resultados, porém, não foram animadores.
Cansado das doenças e das terríveis condições de vida na floresta, ele abandonou o lado venezuelano e passou-se para o lado brasileiro. Ele fez essa passagem utilizando o rio Casiquiare. Esse rio (às vezes, chamado de canal) é uma singularidade geográfica, pois faz uma ligação natural entre o rio Orinoco e o rio Negro.
Por esse “caminho”, Henry foi para Manaus, e em seguida para Belém. Nessas cidades, muitas pessoas estavam se enriquecendo com a borracha. Henry também ganhou um bom dinheiro com a borracha que havia coletado.
Nessa época, já se sabia que a melhor borracha era proveniente da Hevea brasiliensis. Mas não se sabia o local exato onde ela era encontrada, pois na verdade as seringueiras se encontravam espalhadas na extensa floresta amazônica.
Em Belém, foi convencido pelo cônsul inglês a iniciar uma plantação de serigueiras. Ele topou a proposta e resolveu ir à Inglaterra em busca de parceiros para tocar o empreendimento.
Henry viajou para a Inglaterra em 1870 e permaneceu em Londres por nove meses. Durante esse tempo, ele casou-se com uma moça chamada Violet, filha de um editor que aceitou publicar seus diários. E mais: Henry convenceu alguns parentes próximos e um certo número de trabalhadores a virem com ele para o Brasil.
O grupo chegou a Belém no final de 1871, e poucos dias depois rumou para o Oeste, desembarcando em Santarém, uma cidade localizada nas proximidades do ponto onde o rio Tapajós deságua no rio Amazonas.
O objetivo era iniciar uma plantação de seringueiras, e para isso eles seguiram por terra, selva a dentro, para um local distante cerca de um dia de viagem de Santarém.
Nesse ponto já havia um pequeno assentamento de sulistas norte-americanos, que haviam deixado os EUA após a derrota da Confederação na Guerra Civil (1861-65).
Nesses lugares remotos e desabitados da Amazônia, a terra podia ser ocupada por qualquer um que quisesse nela se estabelecer.
E foi o que Henry fez. Ergueu uma pequena casa e iniciou o plantio de mandioca, cana-de-açúcar e tabaco. Mas a terra não era apropriada e a lavoura fracassou. Também iniciou uma plantação de café, e chegou a fazer experiências com o plantio de seringueiras, que não tiveram melhor sorte. Diante desses fracassos e das dificuldades da vida na floresta, muitos de seus trabalhadores, incluindo seus parentes, o abandonaram. Três anos depois de iniciado,os depois de iniciado, o projeto de fazendeiro de Henry estava arruinado.


O roubo das sementes
Justamente nessa época - final de 1875 -, ele recebeu de Londres uma proposta para coletar sementes de seringueiras e enviá-las para a Inglaterra. E esse passou a ser seu próximo projeto, o qual, se fosse bem-sucedido, podia tirá-lo da Amazônia e da pobreza.
Em fevereiro de 1876, ele, a mulher e um ajudante subiram o rio Tapajós, até a vila de Boim, numa viagem que durou três dias. Lá chegando, instalou-se na casa de um norte-americano confederado que vivia na região há muitos anos.
Heny já sabia, então, que as melhores sementes eram encontradas nos terrenos mais altos, e não nas margens dos rios. E se lançou ao trabalho: no período que vai do começo de março a meados de maio, ele se dedicou em tempo integral à coleta das sementes. Trabalhava com um ajudante e, além das sementes que colhia, ele comprava de outros as sementes traziam para ele. Por sorte ou por cálculo, a verdade é que Henry coletou as melhores sementes que existiam.

Para embalar as sementes coletadas, Henry usou folhas de bananeira e contou com a ajuda das mulheres de uma aldeia indígena, que teceram para ele grandes cestos.
A mercadoria devidamente embalada, com peso superior a uma tonelada, foi embarcada clandestinamente no porão do navio inglês Amazonas, que havia subido o Tapajós e estacionado próximo à vila de Boim.
Em Belém, ele convenceu as autoridades brasileiras a liberar a carga com o argumento de que estava transportando “amostras botânicas extremamente delicadas [...] e especialmente selecionadas para entrega no Jardim Botânico Real em Kew, de propriedade de sua majestade Britânica”, escreveu Joe Jackson. (P. 215)
Naquela época, a legislação brasileira era bastante liberal e não proibia a saída de produtos destinados a fins científicos. As sementes, obviamente, não se destinavam a “fins científicos”, mas como nenhuma autoridade se deu ao trabalho de conferir, o contrabando passou.
Amazonas fez escalas em Lisboa, Le Havre e finalmente aportou em Liverpool em junho de 1876. Daí, as sementes foram levadas em um trem especial para Kew e cinco dias depois todas as 70 mil sementes já estavam plantadas em uma grande estufa. Começaram a germinar quadro dias depois. Ao todo, germinaram 2.700 sementes, que em poucos dias atingiram 45 cm de altura.

O cultivo das seringueiras no Oriente e suas consequências para o Brasil
Elas foram enviadas às ilhas de Colombo, Ceilão (atual Sri Lanka), Cincapura, entre outras regiões controladas pelos ingleses no Oriente. Heny se ofereceu para acompanhar as mudas e orientar o plantio, mas seus serviços foram recusados, sob o argumento de que ele era apenas um amador. Foi uma decisão errada.
De fato, nas duas décadas seguintes, o cultivo das seringueiras se deu lentamente devido em parte a erros nas formas de plantio. Havia também outra razão: os fazendeiros orientais estavam mais interessados em outros cultivos que ofereciam resultados mais rápidos.
Esses problemas atrasaram em vinte anos a produção em grande escala de borracha no Oriente. Em 1900, as plantações orientais contribuíram com apenas 4 toneladas de borracha, e isso era quase nada, quando comparadas às 26.750 toneladas exportadas pela Amazônia.
Mas as coisas estavam prestes a mudar. A entrada em cena da eletricidade, da bicicleta e do automóvel aumentou rapidamente a demanda de borracha. E os produtores orientais responderam, intensificando o cultivo de seringueiras, plantando-as umas próximas das outras. Lá isso era possível porque não havia a praga que atacava as seringueiras da Amazônia, e que podiam passar de uma árvore para a outra se fossem plantadas umas perto das outras.  
O efeito foi rápido. Em 1913, as exportações do Oriente superaram as da Amazônia em mais de 8 mil toneladas. Plantadas de forma racional no Extremo Oriente, as seringueiras proporcionaram significativo aumento da produtividade e puderam ser vendidas a preços mais baixos. Em 1915, a borracha era vendida por um quinto do valor registrado dois anos antes.
Para a economia da Amazônia, isso significou a ruína total.
A façanha de Henry Wickham deu à Grã-Bretanha o monopólio de um recurso estratégico, mas ele mesmo não participou da riqueza que trouxe para seu país.
Pela venda das sementes aos Reais Jardins Botânicos de Kew, ele foi recompensado com 700 libras. Muitos anos depois, ele foi presenteado por um grupo de milionários com um cheque no valor de mil libras. Em 1920, por seus serviços, foi nomeado Cavaleiro, e tornou-se então sir Henry Wickham. Apesar de tudo isso, ele não ficou rico; pelo contrário: viveu sempre lutando com dificuldades financeiras até sua morte, em 1928.

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(*) Este texto foi escrito tendo por base, principalmente, o livro de Joe Jackson O ladrão do fim do mundo. (Rio de Janeiro: Objetiva, 2011).