sábado, 29 de agosto de 2015





O Brasil durante a República Velha (1889-1930), era um país basicamente agrário. Assim, os chefes políticos de cada localidade geralmente eram grandes proprietários de terras. O mais comum era esses fazendeiros serem chamados de “coronéis”.  Era um título que geralmente se dava aos grandes proprietários de terras, mesmo que nunca tivessem prestado serviço militar. O coronel dominava a política local, principalmente nas cidades menores, agindo como se fosse autoridade e praticavam muitos abusos. 
Como forma de resposta às injustiças dos coronéis, no Nordeste brasileiro, surgiu o cangaço. A palavra vem de “canga”, nome da peça que é colocada no pescoço do boi e que o prende ao carro ou arado. O cangaceiro era assim chamado porque o armamento pesado que levava sobre os ombros assemelhava-se a uma canga.  

O cangaço apareceu no Nordeste por volta de 1870, época em que a região vivia os efeitos da grande seca. Os cangaceiros agiram em quase todos os estados nordestinos.

Além da revolta contra as injustiças sofridas pelos pobres, o cangaceiro era, muitas vezes, motivado pelo desejo de vingança. Foi o que ocorreu no caso dos dois mais famosos cangaceiros: Antônio Silvino e Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Silvino tinha 21 anos quando seu pai foi assassinado. Resolvido a fazer justiça com as próprias mãos, foi autor de alguns crimes antes de ingressar no cangaço. Seu bando chegou a contar com 60 homens armados. Em 1914, foi ferido e preso. O nome verdadeiro de Silvino era Manoel Batista de Moraes.

Lampião, o "rei" do cangaço
O mais famoso foi Virgulino Ferreira da Silva. Ele havia nascido em 1900, em Vila Bela (atual Serra Talhada), no estado de Pernambuco. Quando tinha 20 anos, também para vingar a morte do pai assassinado, ingressou no cangaço, acompanhado de dois irmãos. Dois anos depois, já era o chefe do bando, ao qual deu nova organização e impôs disciplina rigorosa.
Seu bando chegou a contar com cerca de 200 cangaceiros e se dividia em grupos menores, que podiam agir simultaneamente em diferentes lugares. Lampião dominou o sertão nordestino durante cerca de duas décadas. Ele fazia alianças com alguns coronéis, protegendo os que eram seus aliados e perseguindo seus opositores. 

Os cangaceiros agiam com grande crueldade. Apesar das perversidades que cometia, Lampião conseguiu a admiração de muitos sertanejos por sua valentia e coragem para enfrentar poderosos coronéis. Virgulino morreu metralhado em junho de 1938; Corisco, amigo de Lampião, foi liquidado dois anos depois. A morte dos dois cangaceiros pôs fim ao cangaço.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

ALBERT SCHWEITZER

Existem personalidades que são com frequência homenageados, como Nelson Mandela, Albert Eistein e outros. Mas há aqueles que também deixaram uma marca importante de sua passagem entre nós e são quase desconhecidos da maioria das pessoas. Um deles foi Albert Schweitzer, que se notabilizou como humanista cristão. Falemos um pouco dele.

Nascido na Alemanha, diplomou-se simultaneamente em Teologia e Filosofia, e tornou-se professor da própria universidade em que estudara. Paralelamente, dedicava-se à música erudita, destacando-se como organista e exímio intérprete de Bach.

Não satisfeito com tudo isso, aos trinta anos, em 1905, começou a estudar medicina, motivado pela situação de penúria dos habitantes das colônias europeias na África, particularmente carentes de assistência médica. Como médico, poderia atuar mesmo sem poder usar as palavras.

Seis anos depois, já formado, partiu para Lambaréné, no Gabão, para trabalhar num missão evangélica, que havia aberto um posto de saúde e necessitava de médicos.

Ali, deparou-se com absoluta falta de recursos, mas não desanimou: improvisou um consultório num antigo galinheiro! Apesar do clima, da falta de higiene, das dificuldades com o idioma, da carência de remédios e de instrumentos de trabalho, ele continuou atendendo seus clientes, numa média de 40 por dia. E ainda sobrava tempo para ensinar o Evangelho para os habitantes locais!

Schweitzer na África em foto de 1933

Durante a Primeira Guerra Mundial, Albert Schweitzer e sua família foram levados para a França, como prisioneiros de guerra (França e Alemanha estavam em campos opostos). Com o final da guerra, Schweitzer circulou por diversos países da Europa, realizando palestras e dando concertos, com o objetivo de angariar fundos para retomar sua obra na África. Tornou-se conhecido em muitos círculos intelectuais do continente europeu.

E após sete anos de permanência na Europa, em 1924, partiu novamente para Lambaréné. Dessa vez, levava consigo médicos e enfermeiras, uma das quais era sua própria esposa. Construíram um hospital. Contando, agora, com a colaboração de uma equipe de profissionais, Schweitzer pôde dedicar parte de seu tempo a escrever livros, fazer palestras e dar concertos, cuja renda servia para manter o hospital.

Em 1952, recebeu o Pêmio Nobel da Paz, como homenagem a uma intensa vida inteiramente dedicada ao propósito de servir ao bem comum. Faleceu em Lambarené, no Gabão, aos 90 anos de idade.


O PERONISMO  NO  PODER  NA  ARGENTINA

A partir da década de 1940, surgiram no cenário político da América Latina diversos governos que foram rotulados de populistas. Numa definição simplificada, podemos dizer que o populismo é uma forma de governar em que o governante utiliza de vários recursos para obter apoio popular.
Entre os líderes populistas da América Latina, um dos mais importantes foi o argentino Juan Domingo Perón. Em 1943, ten. do tomado parte num golpe militar bem sucedido, Perón assumiu a Secretaria do Trabalho e Previdência do governo argentino. Esse cargo lhe permitiu promover uma estratégia de conquista de apoio popular, no que foi auxiliado por Eva Duarte, ou Evita, com quem se casou.
Perón adotou uma política de benefícios sociais, voltada para os setores mais novos do proletariado urbano e para as camadas inferiores das classes médias. Por exemplo, foram aprovadas leis sociais, tais como direito a férias remuneradas, 13o salário, indenização por demissão e assistência médica. Com isso, conquistou o apoio popular e se elegeu presidente da República em 1946. No governo, Perón implementou um programa social denominado justicialismo, do qual se originou um partido político Partido Justicialista), um bloco feminino e um conjunto de organizações sindicais que formaram o chamado movimento peronista. O próprio Perón definia o Justicialismo como uma alternativa ao capitalismo e ao comunismo e se inspirava claramente nos movimentos autoritários surgidos na Europa na década de 1930.

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Domingo Peróm e sua mulher Evita.
Atrelamento dos sindicatos ao Estado
Como Vargas fez no Brasil, na Argentina também Perón oficializou os sindicatos e os atrelou ao Estado e concedeu-lhes poder político. Dessa forma, integrou sindicatos e trabalhadores à esfera oficial da política argentina. A força do peronismo se tornou tão forte que atraiu não apenas a massa trabalhadora, mas também a burguesia nacional e gerou um movimento de migração de comunistas, socialistas e nacionalistas em direção ao peronismo.
Paralelamente, Perón procurou fortalecer também os órgãos de repressão política. Combateu os sindicatos livres (não atrelados ao Estado), promoveu a melhoria salarial concedeu amplos benefícios sociais aos trabalhadores. Seu governo estimulou a industrialização, através da promoção da indústria nacional (pequena e média) e favorecimento da política de empregos. E nacionalizou empresas estrangeiras: o intervencionismo de Perón foi radical. Estradas de ferro, transporte urbano, empresas de capital alemão e o comércio exterior do país foram estatizados.

A crise econômica
No início, o governo peronista gozava de uma situação econômica confortável, decorrente das exportações de carnes e de cereais para os países envolvidos na Segunda Guerra Mundial.
A partir de 1949, porém, os preços desses produtos caíram no mercado internacional. Logo a crise atingiu o país, com a diminuição das atividades produtivas, desemprego e alta da inflação. Não demorou para que surgissem manifestações de descontentamento. Em resposta aos protestos, o governo partiu para a repressão dos manifestantes.

O segundo governo de Perón
Em nova eleição, em 1951, Perón foi reeleito por ampla maioria. Antes disso, contudo, a Constituição nacional tinha sido reformulada para possibilitar sua segunda candidatura. No segundo mandato, o governo peronista defrontou-se com sérias dificuldades:
a) a morte de Evita Perón (a primeira e mais destacada mulher de Perón, dada sua participação e influência na vida política e sindical da Argentina), em julho de 1952;
b) o clima econômico, que não era mais aquele que prevaleceu na primeira presidência;
c) a escassez de divisas; d) a queda na produção agropecuária e os limites do orçamento estatal que acabaram por reverter a política nacionalista em direção à busca de capital estrangeiro.
Em termos da situação internacional, a conjuntura também era outra, diferente do primeiro governo peronista. A Guerra Fria dividia o mundo em capitalismo e comunismo, o que também delimitava os rumos dos fluxos de capitais. E, para piorar, Perón não era bem visto pelos Estados Unidos, por que ele havia se declarado neutro e se proclamado uma terceira via.

O terceiro mandato
Em 1955, no auge das tensões, Perón foi deposto por um golpe militar. O líder justicialista deixou o país e passou então a viver no exílio. Porém, mesmo estando distante, conseguiu manter alto índice de popularidade. Em 1973, Perón voltou à Argentina e foi novamente eleito presidente da República. Porém, sua terceira gestão foi curta, Perón faleceu no dia 1º de julho de 1974Diga-se de passagem que o Partido Justicialista ainda é, em nossos dias, o mais influente partido da Argentina.



quarta-feira, 26 de agosto de 2015

REVOLUÇÃO  BOLIVARIANA



Bolivariano foi o nome que o presidente venezuelano Hugo Chávez deu ao seu projeto de promover mudanças políticas, econômicas e sociais em seu país. Ele foi eleito para a presidência da República, em 1998. Depois que assumiu o poder, no ano seguinte, Chávez se autodenominou bolivariano e seguidor das ideias de Simón Bolívar (1783-1830).
Por sua vez, Bolívar foi um general venezuelano que comandou a luta pela independência em grande parte da América do Sul nas primeiras décadas do século XIX. Por esse seu papel é chamado nos países sul-americanos de O Libertador.
Os seguidores do bolivarianismo se apoiam em alguns documentos deixados por Bolívar, principalmente o Manifesto de Cartagena (1812), a Carta de Jamaica (1815) e o Discurso de Angostura (1819). Os ideais de Bolívar podem ser resumidos em dois pontos: 1) a promoção da educação pública gratuita e obrigatória e 2) a união dos países latino-americanos, como forma de impedir a dominação econômica estrangeira nas nações americanas.

O governo de Hugo Chávez

Desde que chegou ao poder, Chávez foi muito além dos ideais de Bolívar, passando a defender ideias radicais de esquerda. Por exemplo: declarou sua oposição ao imperialismo, ao capitalismo e, especialmente, aos Estados Unidos.
Entre as ações de Hugo Chávez, inspiradas no bolivarianismo, estão a aprovação, em 1999, de uma nova Constituição, chamada de Constituição Bolivariana, e a mudança do nome do Estado para República Bolivariana da Venezuela. E em outros atos, tais como a criação e promoção de escolas e universidades com o qualificativo ´bolivariana´, como foi o caso das Escolas Bolivarianas e a Universidade Bolivariana da Venezuela.
Chávez implementou políticas de inclusão social e transferência de renda. Fortaleceu organizações populares, estabelecendo, dessa forma, uma forte aliança com as classes mais pobres. Tudo isso lhe rendeu enorme popularidade e permitiu que ele ampliasse seus poderes, que poderiam ter se prolongado indefinidamente se ele não tivesse falecido em 2013, aos 59 anos de idade, vitimado por um câncer.
Todas estas mudanças se enquadram no que Chávez denominou de Revolução Bolivariana. A partir de 2005, ele começou a utilizar, também, o conceito de Socialismo do século XXI e, no ano seguinte, fundou Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), reunindo todos partidos que apoiavam o Bolivarianismo.

Equívoco histórico

O qualificativo de revolucionário e, mais ainda, de socialista atribuído ao bolivarianismo por Chávez e outros se deveu a um profundo desconhecimento da história. Bolívar foi um personagem complexo, cujas ideias políticas evoluíram com o tempo, desde o Congresso de Angostura, onde seu conservadorismo ainda se misturava ao liberalismo. Essa ideologia perdurou por cerca de dez anos, até 1828. Depois desta data, o liberalismo desapareceu do pensamento de Bolívar, restando apenas um profundo conservadorismo.
Além disso, alguns críticos argumentam que a longa ditadura que Bolívar exerceu sobre a Grã-Colômbia (1819-1830) não produziu mudanças significativas, que tivessem trazido prosperidade aos povos dessa República e aos povos dos países que surgiram do desmembramento da Grã-Colômbia, a saber: Colômbia, Equador, Panamá e Venezuela.
Em seus últimos dias, revelou um amargo pessimismo em relação ao futuro dos países que ele havia ajudado a formar. Eis algumas frases significativas: 1) A América é ingovernável para nós. 2) Quem serve a uma revolução ara no mar. 3) A única coisa que se pode fazer no América é emigrar.

Origens históricas do bolivarianismo chavista

O processo da Revolução Bolivariana teve origem em 1957, quando Douglas Bravo liderava um movimento político, como braço armado do Partido Comunista da Venezuela. Na década de 1980, Chávez conheceu Douglas Bravo e aderiu ao seu ideal de uma Revolução Bolivariana. Essa relação se manteve até 1991, quando então Chávez rompeu com o mestre. Outro que influenciou ideologicamente Chávez foi Norberto Ceresole, um cientista político argentino, ligado ao peronismo. E não se pode esquecer a influência poderosa de Fidel Castro.
Em 1992, Chávez comandou um golpe de Estado, que fracassou e ele foi preso. Ao ser libertado dois anos depois, abandonou a carreira militar, dedicando-se apenas à vida política.

Influência do bolivarianismo no exterior


A influência do bolivarianismo de Hugo Chávez ultrapassou as fronteiras da Venezuela. Declaram-se bolivarianos os presidentes Evo Morales (da Bolívia), do Rafael Correa (do Equador) e Daniel Ortega (da Nicarágua). Até no Brasil, há quem acuse Lula e o PT de serem bolivarianos. As organizações políticas identificadas como bolivarianas se agrupam no Congresso Bolivariano dos Povos, iniciativa criada pela Venezuela para reunir os partidários da Revolução Bolivariana no âmbito continental. 

quarta-feira, 19 de agosto de 2015







UNIFICAÇÃO DA ALEMANHA

Até meados do século XIX, a Alemanha estava desmembrada em nada menos que 39 Estados. Eles eram politicamente autônomos e estavam reunidos numa entidade chamada Confederação Germânica. Desses Estados, os mais fortes eram a Prússia e a Áustria, governados por dinastias rivais. O rei da Prússia era da família Hohenzollern; o imperador da Áustria era um Habsburgo. Mas havia, por parte dos povos de língua alemã, um desejo muito grande para que vivessem num país unificado. A tentativa de alcançar esse objetivo no meio das revoluções de 1848 tinham fracassado.

Como era a Alemanha antes da unificação
A Prússia reunia as melhores condições para liderar um movimento de unificação. O Estado prussiano vinha obtendo um rápido crescimento econômico, beneficiando-se de um acordo de livre-comércio firmado em 1834 pelos diversos Estados que compunham a Confederação. O acordo eliminava a cobrança de tarifas alfandegárias entre os Estados alemães. Sem as tarifas, o intercâmbio comercial foi estimulado, e a maior circulação de mercadorias tornou as economias dos Estados mais interligadas. A integração econômica foi vista como um forte motivo para que os Estados alemães também se unissem no âmbito político.


A Áustria não fazia parte do acordo de livre-comércio, o que dificultava sua liderança no movimento unificador.

A Prússia era governada pelo rei Guilherme I. Como ocorreu na Itália, quem dirigiu o movimento pela unificação não foi o rei, e sim o primeiro-ministro, Otto von Bismarck. Para ele, a unificação da Alemanha passava pela exclusão da Áustria da Confederação Germânica. A Áustria, rival da Prússia, tinha grande influência sobre os demais Estados da Confederação. Por isso, o Estado austríaco era um grande obstáculo ao objetivo de Bismarck de unificar a Alemanha sob a direção da Prússia.

Para obter a saída da Áustria da Confederação, Bismarck decidiu recorrer à guerra. Com esse objetivo, procurou fortalecer o exército prussiano e mandou construir uma extensa rede ferroviária, que permitisse o rápido deslocamento das tropas de uma parte a outra do território. No plano externo, pôs em prática uma habilidosa diplomacia em busca do apoio de outras nações.

Bismarck, o arquiteto da unificação
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Otto von Bismarck
Para levar à frente seu projeto de unificação, Bismarck acabou provocando três guerras. Primeiramente, atraiu o governo da Áustria para uma guerra contra os dinamarqueses, em 1864. O pretexto era separar da Dinamarca dois ducados de população majoritariamente alemã, os quais, na visão de Bismarck, deveriam fazer parte da Confederação Germânica. A guerra de fato ocorreu e a Diamarca foi rapidamente derrotada. Com a derrota  da Dinamarca, os ducados foram distribuídos entre os dois Estados vitoriosos.

A guerra contra a Áustria era desejada por Bismarck, pois este achava que derrotando esse país, ele poderia colocar a Confederação Germânica sob a liderança da Prússia. Para garantir o sucesso do empreendimento, Bismarck obteve a neutralidade da França e estabeleceu uma aliança com o Reino da Itália. Na guerra que se seguiu, a Áustria foi facilmente derrotada, pois teve de lutar em duas frentes: ao sul, contra a Itália, e ao norte contra os prussianos.

Em seguida à vitória, Bismarck organizou a Confederação Germânica do Norte, que reunia a maior parte dos Estados germânicos, sob a liderança da Prússia. Dessa forma, para completar-se a unificação da Alemanha ficava, pois, faltando os Estados do Sul. 

A terceira guerra do processo de unificação foi contra a França. Pelos cálculos de Bismarck, uma guerra contra esse país fatalmente provocaria o nacionalismo dos alemães, e levaria os Estados do Sul a se juntarem à Confederação Germânica do Norte. No momento oportuno, Bismarck provocou um incidente diplomático que levou Napoleão III a sentir-se ofendido e a tomar a iniciativa do conflito.

Mais uma vez, os resultados saíram de acordo com os planos de Bismarck. Com o apoio dos alemães do Sul, o exército prussiano venceu os franceses, fazendo prisioneiro o próprio imperador Napoleão III, em 1º de setembro de 1870.

Um império foi destruído; outro foi criado
Com a vitória dos alemães, o governo francês foi obrigado a aceitar um acordo de paz, pelo qual teve de pagar uma grande soma em dinheiro e entregar à Alemanha as províncias da Alsácia e da Lorena. Muitos franceses não concordaram que o governo francês aceitasse tais condições. Entre eles, estavam os revolucionários que participaram da Comuna de Paris.

A Guerra Franco-Prussiana destruiu um império (França) e criou outro (Alemanha). No dia 18 de janeiro de 1871, o rei da Prússia recebeu o título de kaiser (imperador) da Alemanha. Estava fundado o Império alemão.

A unificação da Alemanha alterou o equilíbrio de poder na Europa
Graças à unificação, a industrialização se acelerou na Alemanha. A unificação política ampliou e reforçou a integração do mercado interno. Com um mercado consumidor maior, houve grande estímulo à produção de artigos manufaturados. A economia alemã deu um grande salto, o que aumentava a arrecadação de impostos e taxas pelo Estado.

Com a economia fortalecida e a grande quantidade de recursos à disposição do governo, a Alemanha se tornou um Estado poderoso. Com a entrada em cena desse novo “personagem”, o tradicional equilíbrio de poder entre os países do continente europeu foi profundamente alterado.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

COMO  SURGIU  A  ERA  MAUÁ

Nos  fundos  da  Baia  da  Guanabara, havia um porto que se chamava Mauá. Exatamente ali, no dia 30 de abril de 1854, realizou-se uma importante cerimônia, à qual compareceram as maiores autoridades do país, inclusive Dom Pedro II e a imperatriz Tereza Cristina. Inaugurava-se naquela oportunidade a primeira ferrovia do Brasil, um empreendimento do empresário Irineu Evangelista de Souza. 
Durante as festividades, o ministro do Império, visconde do Bom Retiro, convidou Irineu Evangelista de Souza a ir beijar a mão do imperador, que acabava de conceder-lhe o título de Barão de Mauá. O nome Mauá havia sido uma escolha do próprio imperador.
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Irineu Evagelista de Souza,
Barão de Mauá


Assim nasceu um dos títulos de nobreza mais conhecidos do Império e que acabou por designar todo um período da história do Brasil – A Era Mauá.

Rigorosamente falando, a Era Mauá durou por um curto período de apenas dez anos - de 1850 a 1860. 1850 foi o ano em que foi promulgada a Lei Eusébio de Queiroz, que acabou definitivamente com o tráfico de escravos, e 1860, a data em que entrou em vigor uma nova lei que reduzia as tarifas alfandegárias e acabava com protecionismo alfandegário, instituído 16 anos antes. (Protecionismo alfandegário é o resultado da elevação das tarifas (taxas, impostos) que incidem sobre os produtos importados. Com isso, os produtos importados ficam mais caros, induzindo os consumidores a preferirem os produtos nacionais que se tornam relativamente mais baratos.)

Com efeito, foi nesse período que se deu o apogeu do Barão de Mauá, quando ele, tendo se tornado uma potência financeira, tomou parte em praticamente todas as iniciativas empresariais ocorridas no país.

Apesar de sua breve duração, foi um período de importantes mudanças na vida do país. “(...) é nesta época que o Brasil tomará pela primeira vez conhecimento do que fosse o progresso moderno e uma certa riqueza e bem-estar material”, como bem escreveu o historiador Caio Prado Júnior no livro História econômica do Brasil (São Paulo, Brasiliense, 1982, p. 168).
QUANTO  CUSTOU  PARA  O  BRASIL  A  GUERRA  DO  PARAGUAI.

Após o término da guerra, o próprio governo imperial procurou fazer as contas dos gastos, que foram publicadas nos relatórios ministeriais, a partir de 1871. A totalização dos valores foi feita no Relatório do Ministério da Fazenda, de 1877. As despesas distribuíram-se pelos ministérios da seguinte forma:

Despesas Brasileiras com a Guerra do Paraguai:
Ministérios
Valores
Justiça
Marinha
Guerra
Fazenda

Total
412:328$577
89.014:249$060
306.214:424$519
216.270:948$503

611.911:950$659
Fonte: Relatório do Ministério da Fazenda, de 1877, p. 30.

Em 1877, ainda havia valores pendentes, não liquidados, e talvez seja por isso que o então ministro da Fazenda, visconde de Ouro Preto, acabe mencionando um valor um pouco maior. Diz ele:

A despesa total da guerra, conforme a liquidação feita no Tesouro Nacional, ascendeu a 613.183:262$695, quantia que com os respectivos juros deve pagar a República do Paraguai (veja informação mais adiante), e não compreende a indenização a que tem direito os súditos brasileiros, prejudicados pelos atos de depredação e violência de que foram vítimas. (Fonte: Relatório do Ministério da Fazenda, de 1877, p. 30.)

Qual foi a origem dos recursos que custearam as despesas da guerra? Peláez e Suzigan, com base em dados fornecidos por Victor Viana e Castro Carreira, fornecem o seguinte quadro das origens dos recursos:

Orígem dos Recursos Gastos na Guerra do Paraguai (em milhares de contos de réis)
Fontes dos recursos
Total (em mil contos de réis)
%
Empréstimos estrangeiros
Empréstimos internos
Emissão de dinheiro
Emissão de títulos
Imposto

49
27
102
171
265
8,0
4,4
16,6
27,8
43,2
Total
614,0
100
Fonte: PELAEZ, Carlos; SUZIGAN, Willian. História monetária do Brasil. Brasília, DF: Editora da Universidade de Brasília, 1981, p. 114.

Excetuados os empréstimos externos, que representaram de 8 a 10% do montante das despesas com a guerra, “tudo o mais forneceu o próprio país”, escreveu o visconde de Ouro Preto, “suportando sem a menor relutância a criação de impostos e a agravação dos existentes, aceitando com a maior confiança avultadas emissões de papel moeda, colocando larga parte de suas economias nos títulos de dívida interna, fundada e flutuante, e contribuindo com donativos e subscrições, para as quais coletaram-se todas as classes e funcionários, desde os mais altos até os das mais modestas categorias”.

Desde a tomada de Assunção pelas tropas aliadas, sob o comando do então marquês de Caxias, havia sido estabelecido um novo governo para o Paraguai. Foi com esse governo, o Brasil assinou um tratado de paz em separado com o Paraguai, em 9 de janeiro de 1872. Por esse tratado, foram confirmadas as fronteiras reivindicadas pelo Brasil antes da guerra, uma área de 90 mil quilômetros quadrados. E ficou garantida a liberdade de navegação no rio Paraguai, o que era de suma importância para o Brasil, pois era a única via de comunicação entre o Rio de Janeiro e a província de Mato Grosso, já que não havia estrada por terra. Este foi, na minha opinião, o principal motivo para o governo  brasileiro insistir em levar a guerra até a queda e sua substituição por um governo amistoso.
Também foi estipulada uma dívida que o Paraguai deveria pagar ao Brasil e para Argentina. Essa foi primeira dívida da história paraguaia. Mas ela nunca seria paga, e foi finalmente perdoada em 1943 pelos governos do Brasil e da Argentina.

DO TRABALHO ESCRAVO  AO TRABALHO ASSALARIADO


NOS  CAFEZAIS  PAULISTAS,  OS  'ESCRAVOS  BRANCOS'

Arquivos suíços mostram que imigrantes chegavam ao Brasil com dívidas 'impagáveis'. Jamil Chade, 
(http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,nova-noticia,1740669. Acesso em 08 Agosto 2015)

A longa transição da economia brasileira de um modelo escravagista para a abolição criou situações inesperadas aos próprios europeus que, por anos, haviam financiado e lucrado com o tráfico de africanos para as Américas: o surgimento de “escravos brancos” nos cafezais brasileiros.  

Documentos dos arquivos diplomáticos suíços obtidos pelo Estado revelam que milhares de imigrantes que chegaram ao Brasil para trabalhar nas fazendas de café acabaram se transformando, na opinião de seus governos, em “escravos”. Os casos abriram uma crise diplomática entre a Suíça e o imperador d. Pedro II, além de revoltas em algumas fazendas e a emissão de um decreto no país alpino proibindo os suíços de emigrarem para o Brasil. 

A situação, porém, não foi criada apenas pelos fazendeiros brasileiros, mas também pelos governos locais na Suíça, que levaram milhares de pessoas a optar pela emigração como forma de resolver os problemas internos de pobreza que sofriam as regiões rurais do país. Para isso, fizeram empréstimos a idosos, crianças órfãs e até para cegos que, com seu trabalho no “Novo Mundo”, teriam como quitar as dívidas. 

O centro da crise foi o sistema de parceria promovido pelo senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro. Diante da decisão do Reino Unido de proibir o comércio de escravos entre a África e a América em 1845, o preço dos escravos africanos explodiu e passou-se a buscar alternativas. Uma delas foi o sistema criado na Fazenda Ibicaba, em Limeira (SP), em que europeus foram convidados a se mudar ao Brasil para trabalhar. Eram os colonos.

Para chegar aos potenciais interessados, a empresa do senador, a Vergueiro & Cia, multiplicou escritórios pela Europa para oferecer o esquema de trabalho. Representações foram estabelecidas em Portugal, Alemanha e Suíça. A oferta parecia generosa para os agricultores em uma situação complicada na Europa: a passagem e parte dos custos seriam cobertos pelos empresários e os suíços pagariam essas despesas ao longo de meses, com trabalho.

O que rapidamente os colonos suíços descobriram é que haviam se transformado em escravos, com dívidas impagáveis. Tinham de comprar a comida dos fazendeiros, pagar pela hospedagem e eventuais remédios, além da passagem em navios até o Brasil. Além disso, a empresa que os trazia, a Vergueiro, cobrava uma taxa de juros de 6%. Não demorou para que o governo suíço pedisse esclarecimentos por parte do Brasil e até apelar ao “humanismo de d. Pedro II”.

‘Generosidade’. No dia 8 de junho de 1857, o cônsul da Suíça no Rio de Janeiro, Henri David, alertava o Itamaraty sobre a situação em uma carta com tom acusatório. “Alguns ambiciosos pensam em introduzir no Brasil a servidão dos brancos para substituir a escravidão dos negros”, atacou.

Segundo ele, foram os “próprios agentes diplomáticos do Brasil no exterior que protegeram os esforços para se obter colonos” e Berna teria “confiado na generosidade do Brasil”. Mas, de acordo com o diplomata, os suíços que optaram por emigrar estavam sendo “oprimidos em São Paulo”. 

Numa carta de 2 de dezembro de 1857, o Conselho Federal suíço – o Poder Executivo – exigiu uma solução para a crise ao ministro do Império, Pedro de Araújo Lima, o Marquês de Olinda. Lembrando que muitos dos imigrantes descobrem a “desilusão” ao chegar ao Brasil depois de terem sido convencidos por “ofertas brilhantes”, o governo suíço apelava à ajuda do Rio de Janeiro. “Ficamos emocionados com a descrição do sofrimento de nossos concidadãos”, apontou a carta. 

O texto se queixava do fato de que, apesar de pedidos feitos antes por diplomatas suíços, “os resultados ainda se fazem esperar”. “Não podemos perseverar num silêncio”, indicou. 

O governo apontava que, em três ou quatro anos de trabalho, as dívidas dos colonos dobravam. “Esse resultado diz mais que qualquer outro argumento”, afirmou. “Pedimos a intervenção poderosa do governo de Sua Majestade o imperador (d. Pedro II), para que os colonos suíços contratados pelos senhores Vergueiro et Cie sejam liberados de sua escravidão e transportados para terras do Estado”, apelava o governo suíço.

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Fazenda Ibicaba.
Naquele mesmo ano, na Fazenda Ibicaba, uma revolta dos colonos suíços deixaria claro o mal-estar e seria um primeiro sinal dos problemas que o modelo de produção poderia enfrentar.


Sem efeito. O apelo não surtiu efeito. No dia 5 de abril de 1859, o cônsul da Suíça no Pará, L. Brélaz, enviava uma nova carta ao governo em Berna para “denunciar as condições dos emigrantes suíços no Brasil”. 

“A abolição do tráfico de escravos neste império torna cada vez mais sensível a falta de braços para a agricultura e outros setores da indústria e a necessidade de buscar a imigração estrangeira”, explicou. Segundo ele, os colonos nada mais eram do que pessoas “empregadas por especuladores”.

Um ano depois, a situação ganhava contornos de uma crise diplomática sem precedentes na relação entre os dois países. Para vistoriar a situação dos emigrantes, o Parlamento suíço decidiu enviar ao Brasil o deputado Jacob von Tschudi. Ao retornar a Berna e apresentar seu informe no dia 6 de outubro de 1860, sua descrição das condições aterrorizaram a imprensa local, e obrigou o governo a impedir o fluxo de suíços ao Brasil.

Mas, para a surpresa de muitos no governo, o deputado apontaria que a culpa não era apenas do Brasil. Parte da responsabilidade seria também dos governos de cantões, como Unterwalden, Grisons e Argovie. Entre 1798 e 1850, cerca de 100 mil suíços abandonaram o país para emigrar pelo mundo. Para as autoridades, financiar a saída dessas pessoas chegava a ser mais vantajoso do que buscar soluções. “Essa medida teve para os colonos um impacto funesto”, escreveu Tschudi. 

O relator aponta que os problemas iam além e que os governos suíços de cada um dos cantões também adotaram práticas “deploráveis”. “Para se livrar de indivíduos incapazes, eles os ajuntaram aos que iam partir e mesmo a outras famílias”, escreveu o relator.

Fortuna.  Tschudi, porém, deixa claro que os suíços que foram ao Brasil sem a carga de dívidas conseguiram se transformar em “homens ricos”. “A melhor prova de que nem todos os colonos estão fortemente endividados é o fato de que quase todos aqueles que viajaram sem empréstimo já estão livres (de seus fazendeiros) há vários anos”, indicou. 

Segundo o relator, aqueles que conseguiram trabalhar “possuem no momento presente e sem exceção uma bela fortuna, já que na Província de São Paulo todos os homens trabalhadores e que não mergulham em dívidas acham uma forma de ganhar dinheiro e fazer fortuna”. 

Até o fim dos anos 1870, o sistema havia terminado diante dos problemas e conflitos que gerava. A situação chegou a ser tratada por Sérgio Buarque de Hollanda, que indicou que o sistema pode ter fracassado por conta de os fazendeiros “não entenderem as finalidades do trabalho livre”, o que também explicava a longa tradição escravista.

O historiador brasileiro traduziu nos anos 50 uma obra de Thomaz Davatz, um líder religioso suíço, que havia feito um relato daquela situação vivida por seus concidadãos. Parte da “desilusão” dos suíços, porém, estava relacionada com o fato de a promessa de se transformarem em proprietários não ter vingado. 

Em 1933, Mário de Andrade chegou a considerar o livro de Davatz como um dos mais importantes para se entender a história social do Brasil. Para ele, a obra seria a “primeira a revelar especificamente a luta de classes e reivindicações proletárias no Brasil”.

Estimativas apontam que o senador Vergueiro e seus filhos enriqueceram importando 60 mil imigrantes. Os mesmos que fizeram parte de uma parcela da construção econômica do Brasil e da miscigenada sociedade de um País em formação naquele momento. 


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A INDUSTRIALIZAÇÃO DE SÃO PAULO

No final do século XIX o café era um produto agrícola de exportação,
Como antes fora o açúcar e o algodão. Mas seu financiamento, produção e comercialização se deram em condições diferentes. Assim, a dinâmica da
economia cafeeira, em vez de reforçar a economia agroexportadora,
lançou as bases para a industrialização de São Paulo.

O crescimento industrial paulista data do período posterior à abolição da escravatura, embora se esboçasse desde a década de 1870. Originou-se de pelo menos duas fontes inter-relacionadas: o setor cafeeiro e os imigrantes. Os negócios do café lançaram as bases para o primeiro surto da indústria por várias razões: em primeiro lugar, ao promover a imigração e os empregos urbanos vinculados ao complexo cafeeiro, criaram um mercado para produtos manufaturados; em segundo, ao promover o investimento em estradas de ferro, ampliaram e integraram esse mercado; em terceiro, ao desenvolver o comércio de exportação e importação, contribuíram para a criação de um sistema de distribuição de produtos manufaturados. Por último, lembremos que as máquinas industriais eram importadas e a exportação do café fornecia os recursos em moeda estrangeira para pagá-las.

Membros da burguesia do café tornaram-se investidores em uma série de atividades. Um exemplo significativo é o do senador Lacerda Franco, fazendeiro e fundador de uma empresa corretora de café. Proclamada a República, obteve a concessão para criar um banco de emissão e iniciou uma grande fábrica de tecidos em Sorocaba. Mais tarde, fundou outra menor em Jundiaí, uma companhia telefônica, e foi diretor da Companhia Paulista de Estradas de Ferro.

Imigrantes chegando ao Brasil

Os imigrantes surgem nas duas pontas da indústria, como donos de empresas e como operários. Além disso, vários deles foram técnicos especializados. A história dos trabalhadores estrangeiros é parte da história dos imigrantes que vieram “fazer a América” e viram seus sonhos se desfazer na nova terra. Eles tiveram papel fundamental nas empresas manufatureiras da capital de São Paulo, nas quais, em 1893, 70% de seus integrantes eram estrangeiros. Na indústria do Rio de Janeiro a porcentagem era menor, mas, mesmo assim, muito expressiva: 39% em 1890.
Fausto, Boris. História do Brasil. 6. ed.
São Paulo: Edusp; FDE, 1999. p. 287