terça-feira, 5 de agosto de 2014

A UNIVERSIDADE


Uma invenção medieval



Algumas grandes instituições medievais estão ainda conosco:
a monarquia constitucional, os parlamentos, o tribunal do júri, a
Igreja Católica Romana e, sobretudo, a universidade.


A universidade foi uma criação totalmente original da Idade Média. Formou-se a partir do desenvolvimento interno das antigas escolas monásticas e catedralícias ou dos Estudos Gerais, “escolas comuns” onde todos se podiam instruir e que conferiam graus acadêmicos reconhecidos internacionalmente. Contou ainda com a valiosa contribuição do aumento do saber em virtude das traduções de obras gregas e árabes, dos novos métodos didáticos e da proteção ao ensino dispensada por papas e príncipes, fatores que geraram um impulso que tornava necessária a criação de instituições capazes de ministrar um ensino mais apropriado.
O termo universidade significava, inicialmente, apenas uma associação ou corporação de ofícios. Quando apareceu escrito pela primeira vez designava uma corporação ou guilda de professores e alunos que se consagravam, de modo organizado, ao estudo das artes liberais (trivium e quadrivium), do direito, da medicina e da teologia.

Aula numa universidade medieval

Dessa maneira, expressando o caráter gremial a que tendia a sociedade da época, os mestres e estudantes de diferentes procedências, virtualmente indefesos no novo meio, reuniram-se em busca de proteção, segurança e privilégios. Foi só posteriormente que o termo “universidade” passou também a significar uma associação de escolas ou faculdades como hoje o compreendemos, pois nos seus primórdios elas não eram locais de saber universal, mas institutos especializados em determinadas áreas do conhecimento [...].
Nas universidades encontramos os fundamentos da cultura científica de nosso mundo moderno; nelas cresceu o hábito do pensamento disciplinado, seguido pela investigação sistemática, que tornou possível o surgimento das ciências naturais e a civilização técnica necessária para as sociedades industriais. A vida do intelecto concentrava--se então em lugares determinados.
[...] a universidade possuía simultaneamente uma influência limitadora e libertadora. Como aspecto limitador, ela era baluarte da fé e da Igreja, o instrumento dos papas, reis, bispos e das ordens religiosas, que dela obtinham um novo estamento clerical formado por especialistas e oficiais academicamente treinados. Instruídos no cânone [direito religioso] e nas leis civis, tais homens tornaram-se auxiliares valiosos para o ascendente poder da Igreja e das monarquias.

A primeira Universidade do mundo Ocidental foi a de
Bolonha (1158), na Itália

Mas as universidades eram também oásis de liberdade onde todas as questões cuja discussão estava proibida em outras partes eram debatidas com o que críticos hostis consideravam “descarado atrevimento”. Seria difícil pensar qualquer problema espinhoso relativo a Deus, o mundo, a Igreja, o cristianismo, o dogma que não tenha sido discutido em tais bases nas universidades dos séculos XIII e XIV. Paris foi o campo de batalha de todos os mais importantes conflitos intelectuais da época; foi também, ao lado de Oxford, onde os pensadores da assim chamada Baixa Idade Média começavam a estabelecer alguns dos mais significativos fundamentos do pensamento científico moderno. [...]

Leitura de uma lição na Universidade de Paris.

Rapidamente as faculdades “filosóficas” (de artes) começaram a dominar a cena universitária: por volta de 1362 havia 441 mestres na Faculdade de Artes de Paris contra apenas 25 em teologia, 25 em medicina e 11 em lei canônica. Esse predomínio pode ser em parte explicado pelo fato de as faculdades de artes representarem um preliminar obrigatório para aqueles que pretendiam seguir as demais carreiras. O currículo era baseado nas sete artes liberais (trivium e quadrivium). No século XIII o interesse concentrava-se nos objetos do trivium, isto é, na filosofia e suas disciplinas auxiliares; no século XIV, porém, mudou para os objetos mais “científicos” do quadrivium, principalmente em virtude das sanções eclesiásticas ao “livre-pensar” filosófico dos “artistas”.
Como palco dos debates científicos, políticos e religiosos, as universidades tiveram um papel relevante na difusão do gosto pelos estudos superiores, reunindo milhares de estudantes e beneficiando também as escolas médias e elementares que puderam contar com mestres mais capacitados.
A organização universitária, com as frequentes assembleias, o exercício do voto, as constantes discussões e o caráter crítico do ensino, estimulavam os indivíduos a formar e sustentar opiniões próprias e a mostrarem-se hostis à obediência pacífica. Foi por isso o terreno mais fértil para que as transformações intelectuais se concretizassem, o que pode ser percebido até mesmo no processo utilizado pelos mestres para elaborar suas reflexões.

Inácio, Inês C.; Luca, Tânia Regina de. O pensamento medieval. 3. ed. São Paulo: Ática, 1994. p. 54-7.

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