terça-feira, 2 de setembro de 2014

GETÚLIO VARGAS 


Nas memórias de infância de de um escritor



A  figura onipresente do ditador, leis trabalhistas, o Brasil na Segunda Guerra, reportagem sobre torturasa história do Brasil em um turbilhão de lembranças da infância do escritor Ivan Ângelo.

“– Trabalhadores do Brasil!”
Getúlio Vargas era apenas uma voz no rádio. Aquela saudação, com o “l” alongado do final, acompanhava-me desde antes de eu aprender a falar. Em casa, crescemos com ela. O sentido do que a voz dizia nos escapava, era coisa de adultos [...]. Trabalhadores do Brasil! E Getúlio mudou o dinheiro, um mil-réis valia um cruzeiro. O perfil de Getúlio na moeda de dez centavos. No nosso mundinho, um tostão, ou cem réis, valia um getulinho. Duzentos réis, o duzentão, dois getulinhos. No rádio, a música como ele queria: “Quem trabalha é que tem razão,/eu digo e não tenho medo de errar;/O bonde de São Januário/leva mais um operário/sou eu que vou trabalhar”.
A propaganda procurava mostrar Getulio como o "pai dos pobres".
Leis novas para o trabalhador e um lema se espalha: é o pai dos pobres. Trabalhadores do Brasil! O “Brasilllll” vai entrar na guerra. A cobra vai fumar (...). Nosso mundinho ampliava-se, e o Getúlio que era só voz ia ganhando cara e corpo nas revistas do barbeiro (baixinho gordinho de charuto entre os dedos nas caricaturas da revista Careta) e nos jornais entrevistos nas bancas, até que um dia apareceu na minha primeira matinê de cinema maravilha! no jornal da tela. A imagem mais marcante ficou sendo a da escola pública, foto oficial vista todo o dia, três anos seguidos. [...] Voltavam os soldados da guerra, ia-se embora o Getúlio. Ia mesmo? Trabalhadores do Brasil! “Queremos Getúlio! Queremos Getúlio!” gritavam eles nas ruas. Foi. O retrato oficial sumiu da parede da escola. Eleições [...] Os carrascos nazistas são julgados em Nuremberg horrores! e condenados à forca. “Falta alguém em Nuremberg”, acusa a reportagem em O Cruzeiro: horrores brasileiros sob a ditadura: testículos esmagados, afogamentos, espetos sob as unhas, arames em brasa na uretra, estupros. Uma paródia da marchinha de carnaval Pirata da perna de pau virou o maior sucesso: “Eu sou o Getúlio, já fui ditador,/com o voto dos trouxas/eu sou senador./Minha galera/em quinze anos de navegação/trouxe a miséria/o câmbio negro e a inflação”. 
Ângelo, Ivan. Lembranças de Getúlio.In: Caldeira, Jorge.
Brasil: a História contada por quem viu. São Paulo: Mameluco, 2008..


 BOMBA ATÕMICA E O HOLOCAUSTO

 

 O recursos de uma “guerra total”


Na Segunda Guerra Mundial não bastava derrotar militarmente o inimigo e submetê-lo a um acordo de paz. Era necessária uma rendição incondicional e uma submissão total. Esta foi uma das
características da maior carnificina da História.

  
A Segunda Guerra Mundial foi uma guerra total no sentido lato da palavra. A política nazista de destruição dos judeus (a “solução final”) contava com sofisticada organização de busca, seleção, transporte, concentração e assassinato nos campos de extermínio (o chamado Holocausto), para onde também foram enviados ciganos, oposicionistas e até prisioneiros de guerra. Já em 1945, os americanos jogaram bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, ameaçando o mundo com nova tecnologia de morte em massa. Essa foi a guerra total no último conflito mundial. Daí a mobilização de recursos simplesmente fabulosos.
Cogumelo formado pela explosão da bomba atômica.

A imensa capacidade industrial dos Estados Unidos, considerado “o arsenal da democracia”, foi percebida pelo almirante Yamamoto, o mais importante estrategista naval do Japão. Ele conhecia bem os Estados Unidos e disse, logo depois do ataque a Pearl Harbor: “Podemos crescer sem freios por seis meses a um ano, mas, depois disso, os poços de petróleo do Texas e as fábricas de Detroit darão os meios para uma contraofensiva irresistível dos americanos no Pacífico”.
A devastação causada pela bomba atômica em Hiroshima.

[...]
A Segunda Guerra Mundial teve como característica determinante o fato de que os países em conflito visavam pretensões ilimitadas. Em outras palavras, tinham como objetivo a submissão absoluta do adversário. Se na Primeira Guerra Mundial o objetivo das nações em combate era a derrota do inimigo no campo de batalha e a imposição de paz, isso não era exatamente válido para a Segunda Guerra Mundial.
Mortos em campo de concentração nazista.

A Alemanha de Hitler, por exemplo, pretendia dominar a Europa e transformar os países do Ocidente em estados vassalos. O plano nazista para o lado oriental era reduzir a União Soviética à condição de colônia e transformar sua população em serviçais dos “senhores” germânicos. Do lado dos Aliados, isto é, da Grã-Bretanha, Estados Unidos e União Soviética, os objetivos não eram limitados: só a rendição incondicional é que valeria. Não se aceitaria uma paz negociada, não haveria condições. O inimigo seria combatido até a última bala.
[...]
Esse esforço de guerra exigiu o máximo de criatividade no sentido de aumentar a eficiência produtiva. Por isso os métodos de produção e engenharia mecânica tiveram notáveis avanços, que foram úteis depois para os tempos de paz. Ganhou a guerra quem venceu a batalha da produção.
Tota, Pedro. Segunda Guerra Mundial. In: Magnoli, Demétrio (Org.).
História das guerras. São Paulo: Contexto, 2008. p. 356.

CONTRA  A  DEMOCRACIA  E  O  LIBERALISMO


 A ideologia do fascismo


Neste texto, Henri Michel analisa ponto por ponto tudo o que o fascismo rejeita no liberalismo, na democracia e no socialismo marxista, oferecendo uma visão sintética da ideologia adotada por líderes como Mussolini e Hitler.

O que o fascismo rejeita a priori e totalmente é a sociedade liberal do século XIX, inspirada pela “filosofia das luzes”, transposta politicamente na Revolução Francesa [...]. Essa condenação global dá origem a algumas rejeições.
Mussolini e Hitler, os principais líderes fascitas na Itália e na Alemanha.

Rejeição da democracia, considerada “podre” porque, sendo um regime de fraqueza dominado pelos grupos de pressão, é incapaz de salvaguardar o interesse nacional; o sistema parlamentar não passa de um jogo estéril, de um verbalismo alheio às realidades da nação: o pluralismo dos partidos apenas gera divisões e discussões inúteis; a escolha, pelo povo, dos dirigentes políticos é uma nociva quimera;
Crianças fazem a saudação fascista diante do professor.

Rejeição, por conseguinte, do individualismo, dos direitos do homem, da “dignidade da pessoa humana”; porque o indivíduo não tem nenhum direito; apenas existe pela comunidade na qual se integra; precisa ser enquadrado e comandado;
Rejeição da sociedade liberal, porque a liberdade degenera em licença, e a licença em enfraquecimento da coesão do grupo; o grupo tem o direito de punir aqueles que se recusam agregar-lhes; a justiça não tem como objeto defender sanções àqueles que a prejudicam;
Rejeição de um comportamento comandado pela razão, que abafa o impulso vital; o fascismo é uma reação anti-intelectualista, uma desforra do instinto; prega o culto da ação, proclama a virtude da violência.
Uma das primeiras providências do fascimo, como de todo regime
autoritário é o controle dos meios de comunicações. Isso, aliado à
propaganda do regime se encarregam de alienar a população.

Ao mesmo tempo, o fascismo combate o “socialismo marxista”, porque este é fundado na luta de classes e conduz à divisão e enfraquecimento do corpo social; não crê no esquema marxista do caráter irreversível da história. Censura também a liberdade econômica, o laissez-faire, que permite aos fortes esmagar os fracos, em detrimento da coletividade e, muitas vezes, esconde o domínio de um povo pobre por outro mais rico. Às internacionais comunista e capitalista, o fascismo procura contrapor o seu “socialismo nacional”.

Michel, Henri. Os fascismos. In: Marques, Adhemar; Berutti, Flávio; Faria, Ricardo.
História contemporânea através de textos. São Paulo: Contexto, 2003.


“OU A CHIBATA É ABOLIDA OU ANIQUILAMOS A PÁTRIA”

  Era a ameaça dos marinheiros revoltados

Em tempos de modernização, inclusive da própria Marinha, que adquirira da Grã-Bretanha dois encouraçados e um cruzador, a preservação de um código disciplinar arcaico, que previa chibatadas como punição, estava fora de época e provocou a revolta dos marinheiros.
Reproduzo a seguir a mensagem enviada pelos revoltosos ao Presidente da República, Hermes da Fonseca.

Rio de Janeiro, 22 de Novembro de 1910.
Ilmo. e Exmo. Sr. Presidente da República Brasileira.
Cumpre-nos comunicar a V. Excelência como Chefe da Nação Brasileira:
Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podendo mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira, a falta de proteção que a Pátria nos dá; e até então não nos chegou; rompemos o negro véu, que nos cobria aos olhos do patriótico e enganado povo.
João Cândido, o líder dos marinheiros na Revolta da Chibata.

Achando-se todos os navios em nosso poder, tendo a seu bordo prisioneiros todos os Oficiais, os quais têm sido os causadores de a Marinha Brasileira não ser grandiosa, porque durante vinte anos de República ainda não foi bastante para tratar-nos como cidadãos fardados em defesa da Pátria, mandamos esta honrada mensagem para que V. Excelência faça aos Marinheiros Brasileiros possuirmos os direitos sagrados que as leis da República nos facilita, acabando com a desordem e nos dando outros gozos que venham engrandecer a Marinha Brasileira, bem assim como: retirar os oficiais incompetentes e indignos de servir a Nação Brasileira. Reformar o Código Imoral e Vergonhoso que nos rege, a fim de que desapareça a chibata, o bolo, e outros castigos semelhantes; aumentar o nosso soldo pelos últimos planos do ilustre Senador José Carlos de Carvalho, educar os marinheiros que não têm competência para vestir a orgulhosa farda, mandar pôr em vigor a tabela de serviço diário, que a acompanha.
Tendo V. Excelência o prazo de 12 horas para mandar a resposta satisfatória, sob pena de ver a Pátria aniquilada – Bordo do Encouraçado São Paulo, em 22 de Novembro de 1910.
Nota: não poderá ser interrompida a ida e volta do mensageiro.
Marinheiros.

Alves Filho, Ivan. Brasil. 500 anos em documentos.
Rio de Janeiro: Mauad, 1999. p. 312.


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A  ECONOMIA  CAFEEIRA  E  A  CHEGADA  DOS  IMIGRANTES


  Na industrialização de São Paulo


No final do século XIX o café era um produto agrícola de exportação, como
antes fora o açúcar e o algodão. Mas seu financiamento, produção e comercialização se deram em condições diferentes. Assim, a dinâmica da
economia cafeeira, em vez de reforçar a economia agroexportadora,
lançou as bases para a industrialização de São Paulo.

O crescimento industrial paulista data do período posterior à abolição da escravatura, embora se esboçasse desde a década de 1870. Originou-se de pelo menos duas fontes inter-relacionadas: o setor cafeeiro e os imigrantes. Os negócios do café lançaram as bases para o primeiro surto da indústria por várias razões: em primeiro lugar, ao promover a imigração e os empregos urbanos vinculados ao complexo cafeeiro, criaram um mercado para produtos manufaturados; em segundo, ao promover o investimento em estradas de ferro, ampliaram e integraram esse mercado; em terceiro, ao desenvolver o comércio de exportação e importação, contribuíram para a criação de um sistema de distribuição de produtos manufaturados. Por último, lembremos que as máquinas industriais eram importadas e a exportação do café fornecia os recursos em moeda estrangeira para pagá-las.
"Café". Pintura do artista brasileiro Candido Portinari.

Membros da burguesia do café tornaram-se investidores em uma série de atividades. Um exemplo significativo é o do senador Lacerda Franco, fazendeiro e fundador de uma empresa corretora de café. Proclamada a República, obteve a concessão para criar um banco de emissão e iniciou uma grande fábrica de tecidos em Sorocaba. Mais tarde, fundou outra menor em Jundiaí, uma companhia telefônica, e foi diretor da Companhia Paulista de Estradas de Ferro.
Trabalhadores estrangeiros chegando à Hospedaria
do Imigrante, em São Paulo.


Os imigrantes surgem nas duas pontas da indústria, como donos de empresas e como operários. Além disso, vários deles foram técnicos especializados. A história dos trabalhadores estrangeiros é parte da história dos imigrantes que vieram “fazer a América” e viram seus sonhos se desfazer na nova terra. Eles tiveram papel fundamental nas empresas manufatureiras da capital de São Paulo, nas quais, em 1893, 70% de seus integrantes eram estrangeiros. Na indústria do Rio de Janeiro a porcentagem era menor, mas, mesmo assim, muito expressiva: 39% em 1890.
Fausto, Boris. História do Brasil. 6. ed.
São Paulo: Edusp; FDE, 1999. p. 287.


EM  PLENA  REVOLUÇÃO


  Os  russos  enchem  os  cafés  para  ouvir  poesia


 Em 1918, o povo da Rússia quebrava as rotinas cotidianas e avançava
rumo ao desconhecido. Nesse contexto, poesia e política se misturavam
como matéria-prima de um novo futuro.

Também anarquistas em potencial [...], os poetas têm fome de ritmo, de glória, de sucesso popular. Agora, os cafés e os clubes onde os poetas recitam suas obras são invadidos por uma enorme multidão, que acorre para embriagar-se com a música das palavras doces, brutais, rápidas, que se repetem em todos os lugares. De onde vem, de repente, essa nova sede de poesia que agita os russos, todos os russos, do mesmo modo que os negros são animados pelos cantos de escravidão, blues, spirituals? Vem da liberdade embriagante enfim descoberta? Vem do vento? Das estepes? Do mar? Dessas profundezas errantes, climáticas, que fazem do russo um ser ao mesmo tempo cruel, ingênuo, místico e doce?
Mayakowsky, o poeta da revolução.

O fato é que o “ritmo” e a revolução, a poesia e a tomada de consciência precipitam na rua uma multidão inumerável, arrancam do estado infantil, da passividade irresponsável, massas humanas cada vez mais numerosas, destroem a solidão, repelem o desespero, substituem a vida do lar, suprimem as paredes da casa em benefício de uma vida nova, coletiva, que se espera tão bela, tão pura, quanto a “missa poética”. E é um fato que a revolução proporciona um impulso prodigioso à poesia, que invade as praças públicas e até mesmo a abertura dos congressos. Mesmo as reuniões políticas se transformam doravante em saraus consagrados à poesia.
Marabini, Jean. A Rússia durante a Revolução de Outubro. São Paulo:
Companhia das Letras; Círculo do Livro, 1989. p. 202.


O TERRÍVEL DIA A DIA NAS TRINCHEIRAS


 Piolhos, ratos e bombas


De novembro de 1914 até março de 1918, a guerra entrou em um impasse, permanecendo os dois lados entrincheirados, com tentativas eventuais de ataque ao inimigo. O historiador Luís Felipe da Silva Neves descreve aspectos da vida infernal nas trincheiras.

Sono, cigarros, comida, bebida e mulheres: estas eram, pela ordem, as prioridades dos soldados nas trincheiras. Para isso havia os “estaminets” – mistura de bar, restaurante e bordel. A vida nas trincheiras, no entanto, era realmente infernal. Dormia-se, ou melhor, tentava-se dormir de dia, pois qualquer movimento acima do topo dos abrigos podia representar morte repentina pelos franco-atiradores. Os ratos, do tamanho de gatos – pois para eles não faltava carne humana fresca –, atazanavam a vida dos soldados. Outra praga eram os piolhos. Dizia-se que, ao chegar de uma estação sanitária de eliminação de piolhos, bastava alguém se deitar no terreno para ficar infectado novamente.
A vida terrível nas trincheiras.

Quanto às armas mais usadas, elas eram o canhão, responsável por 68% do total de baixas, a metralhadora e o instrumento básico do soldado, o fuzil de repetição. O gás, apresentado por muitos autores como uma arma terrível, mortal, foi responsável somente por cerca de 3% das baixas, a maioria passível de tratamento, como foi o caso do próprio Adolf Hitler (1889-1945).
Neves, Luiz Felipe da Silva. A guerra total. Revista de História da Biblioteca Nacional.
Rio de Janeiro, n. 37, out. 2008, p. 20.


domingo, 24 de agosto de 2014

ESTADOS  UNIDOS:  SAINDO DA CRISE


 Roosevelt e o New Deal



Franklin D. Roosevelt
Quando ocorreu a crise, os Estados Unidos vinham sendo governados pelo Partido Republicano, que não tinha um programa para tirar o país da crise. Nas eleições de 1932, o eleitorado elegeu Franklin Delano Roosevelt, candidato do Partido Democrata. Ele assumiu a presidência dos EUA no ano seguinte. Em oposição ao Partido Republicano, Roosevelt adotou um vigoroso plano de intervenção estatal na economia, baseado nas ideias do economista inglês John Maynard Keynes. Esse plano ficou conhecido como New Deal (Novo Acordo, em português). Como uma das primeiras medidas, o novo governo emitiu bilhões de dólares, para financiar um programa de investimentos em vários setores da economia.

As principais iniciativas foram as seguintes:

·                 o investimento maciço em obras públicas, tais como a construção de usinas hidrelétricas, barragens, pontes, etc., para  que gerassem emprego e demanda de serviços e produtos das empresas privadas; 
 
O New Deal adotou uma nova política econômica para
os Estados Unidos, baseada numa forte intervenção do Estado.
·                 a destruição dos estoques de produtos agropecuário produzidos em excesso, como algodão, trigo, milho e leite, e com isso conter a queda de seus preços;

·                 a diminuição da jornada de trabalho, com o objetivo de criar novos empregos.

Além disso, o governo fixou um salário mínimo, fortaleceu os sindicatos, incentivou o aumento de salários, criou o seguro-desemprego e o seguro-velhice (para os maiores de 65 anos), entre outras medidas.

Assim estimulada, em 1936 a economia estadunidense já havia voltado aos níveis de produção anteriores a 1929, embora a taxa de desemprego se mantivesse alta.


sábado, 23 de agosto de 2014

NA AMAZÔNIA, A BORRACHA

Uma riqueza efêmera


No final do século XIX, quando os negócios iam de mal a pior para o café, nossa balança comercial foi salva por um produto primário da Amazônia, capaz de criar importantes riquezas: a borracha. Encontrado na seringueira, planta nativa da região, o látex com que se faz a borracha já era exportado pelo Brasil desde 1827, ano em que 31 toneladas seguiram para o exterior. Mas foi só com a invenção do pneumático e sua aplicação ao automóvel, em 1895, que nossas exportações de borracha se tornaram significativas.
Entre 1891 e 1900, o Brasil era praticamente o único produtor mundial de borracha, e exportou nesse período cerca de 214 mil toneladas. De 1889 a 1918, o produto seria o nosso segundo item na pauta de exportações, superado apenas pelo café.
Seringueiros, durante o ciclo da borracha

No fim do século XIX, os ingleses conseguiram contrabandear sementes da seringueira e fazê-la germinar usando estufas, sendo posteriormente levadas para a Ásia. Lá, deram origem a grandes plantações em colônias inglesas (Ceilão, Malásia e Birmânia) e holandesa (Indonésia). Em pouco tempo, a borracha produzida na Ásia concorreria no mercado internacional em condições extremamente vantajosas em relação ao produto de origem brasileira..

A crise da borracha brasileira

Por volta de 1913, a produção asiática superou a brasileira. É interessante notar que na Ásia as seringueiras eram plantadas em série, o que permitia uma produtividade muito maior do que no Brasil, porque aqui as seringueiras se encontravam distantes umas das outras, espalhadas na floresta. Em 1927, o empresário Henry Ford tentou fazer, na Amazônia, um plantio em grande escala, semelhante ao que se fazia no Oriente, mas a iniciativa fracassou. Plantadas umas próximas das outras, as seringueiras foram atacadas e dizimadas por uma praga, o que não ocorria no Oriente.
Seringueiro extraindo o látex.

A entrada no mercado da produção asiática provocou enorme queda nos preços. Pouco depois, em 1919, nossa borracha já não tinha mais a importância econômica alcançada nas décadas anteriores. Além do ciclo que se caracterizou no final do século XIX, um outro ocorreu nas décadas de 1940 e 1950, quando, devido à guerra, o produto foi novamente solicitado. Surgiram os “soldados da borracha” deslocados do nordeste, cujos descendentes ainda hoje esperam alguma justiça e recompensa, como ocorreu com os militares que foram convocados para as lutas na Europa.
É bom lembrar que, mesmo no auge do “ciclo da borracha”, os recursos gerados pela atividade extrativa não conseguiram promover o desenvolvimento da região amazônica. Foram empregados de maneira improdutiva, e o melhor que dele restou foi o suntuoso teatro de Manaus.
Salão Nobre do Teatro Amazonas


A compra do Acre

O Acre era território boliviano, mas começou a ser ocupado por seringueiros brasileiros no final do século XIX, justamente por causa da extração da borracha. O governo da Bolívia reagiu à invasão, e cedeu a exploração do território a uma empresa formada por capitais estadunidenses, ingleses e alemães, The Bolivian Syndicate.
Sentindo-se prejudicada, a população brasileira da região, liderada pelo gaúcho Plácido de Castro, promoveu um levante armado. A revolta, iniciada em 1902, terminou no ano seguinte, com algumas vitórias dos rebeldes brasileiros. Os resultados desfavoráveis ao exército boliviano levaram o país a concordar em vender o território do Acre ao Brasil, em 1903, por 2 milhões de libras esterlinas.

ECONOMIA  BRASILEIRA  NA  REPÚBLICA  VELHA



 Industrialistas versus agraristas

Apesar das dificuldades, o parque industrial brasileiro apresentou razoável crescimento nas primeiras décadas do século XX. Segundo estimativas, entre 1900 e 1929, a indústria cresceu a taxas de 5,6% ao ano.  Os primeiros setores industriais a se desenvolver foram os ramos têxtil, de alimentação e de vestuário, cujos produtos eram largamente consumidos e sua fabricação não dependia de tecnologia sofisticada. Em 1920, esses bens representavam 68,1% da produção industrial brasileira.
 
Operários posam para fotografia, São Paulo,
final do século XIX
O Rio de Janeiro, capital da República, era, no começo do século XX, o maior centro industrial do país, o principal porto e a cidade mais populosa. Mas à medida que o café se expandiu pelo interior de São Paulo, a capital paulista passou a atrair investimentos cada vez maiores.
Mas o desenvolvimento industrial no Brasil esbarrava em muitas dificuldades.

1. Os importadores, por exemplo, temiam que uma política protecionista estimulasse a produção interna de artigos que eles compravam no exterior para revender no mercado, arruinando assim os seus negócios.
Operários de uma tecelagem paulistana no começo do século XX

2. Da mesma forma, grande parte dos fazendeiros não via com bons olhos a política industrialista incentivada pelo poder público, já que, como consequência, acabaria desviando recursos da atividade agrícola. Os consumidores de produtos importados também reagiam mal às propostas de aumento nas taxas alfandegárias, pois os artigos que costumavam comprar ficariam mais caros. De todo modo, a nascente indústria brasileira precisava de medidas protecionistas para concorrer com os produtos importados, como as que Alves Branco estabelecera durante o Segundo Reinado.
 
Operários tomam parte na greve geral de 1917, que
paralisou a capital paulista por vários dias.
3. A falta de capitais, de energia e de matérias-primas básicas também dificultava nosso desenvolvimento industrial, já que dependíamos da importação para satisfazer necessidades internas. Esse tipo de dificuldade se estendia às máquinas empregadas na indústria, pois não tínhamos capacidade de produzi-las internamente.

Resumindo, o país carecia das chamadas indústrias de base, ou seja, aquelas que produziam máquinas, matérias-primas e insumos para alimentar os demais setores industriais. Esses problemas seriam resolvidos apenas depois da Revolução de 1930 com a adoção, pelo governo brasileiro, de uma política de desenvolvimento industrial.
No entanto, mesmo antes, muitos homens públicos defenderam, na imprensa e no Congresso Nacional, uma política de desenvolvimento industrial para o país. Segundo eles, a industrialização criaria empregos, reduziria os gastos com as importações e garantiria a independência econômica da nação. As medidas propostas para viabilizar essa política incluíam a criação de linhas de crédito para os empreendimentos industriais, o desenvolvimento dos transportes, isenções de impostos, tarifas alfandegárias protecionistas e desvalorização cambial da nossa moeda (o mil-réis) para dificultar as importações.
Entre os que defendiam a política industrialista estavam os empresários Serzedelo Correia e Alcindo Guanabara, que fundaram, em 1882, a Associação Industrial do Rio de Janeiro. Contra seus argumentos se levantava a voz dos agraristas, que acreditavam na “vocação essencialmente agrícola do Brasil”, que ainda tem seus defensores nos dias de hoje.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

POEMA  DA  FELICIDADE


Numa manhã qualquer, sentei me na praia
E, ao lado, os quero-queros me olhavam, vigilantes.
Fiquei a observar as ondas do mar 
E, no céu, as nuvens brancas, errantes.

Senti no rosto a brisa suave, refrescante. 
No alto, o azul que tingia a imensidão. 
E, lá longe, se encontrava com o mar, 
E os dois uniam-se como amantes.

Deixei-me ficar alegremente.
Distraído, enchi as mãos com a areia,
Branca e fina, e, por entre os dedos,
Deixei que ela escorresse livremente,

Sentia o calor do sol queimar, levemente,
E estar ali naquele momento,
Fez-me tão contente,
Que orei em agradecimento.

De repente, naquela hora,
Uma ideia passou-me pela mente.
Trazida pelo vento, veio-me a pergunta:
- Pode a felicidade ser permanente?

Claro que não!, pensei: ela é feita de breves instantes.
Viver uma felicidade permanente ninguém vai,
Porque, assim como da mão escorre a areia,
De dentro de nós, a felicidade também se esvai.
(DGF)

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O  VOTO  NA  REPÚBLICA  VELHA

 Os coronéis dominam a cena



O coronelismo tem sido entendido como uma forma específica de poder político brasileiro, que floresceu durante a Primeira República, e cujas raízes remontam ao Império; já então os municípios eram feudos políticos que se transmitiam por herança – herança não configurada legalmente, mas que existia de maneira informal. Uma das grandes surpresas dos republicanos históricos, quase imediatamente após a proclamação da República, foi a persistência desse sistema, que acreditavam ter anulado com a modificação do processo eleitoral.
A Constituição Brasileira de 1891 outorgou o direito de voto a todo cidadão brasileiro ou naturalizado que fosse alfabetizado; assim, pareciam extintas as antigas barreiras econômicas e políticas, e um amplo eleitorado poderia teoricamente exprimir livremente sua escolha. Todavia, verificou-se desde logo que a extensão do direito de voto a todo cidadão alfabetizado não fez mais do que aumentar o número de eleitores rurais e citadinos, que continuaram obedecendo aos mandões já existentes.

A base da antiga estrutura eleitoral se alargara, porém os chefes políticos locais e regionais se mantiveram praticamente os mesmos, e continuaram elegendo para as Câmaras, para as presidências dos Estados, para o Senado, seus parentes, seus aliados, seus apaniguados, seus protegidos. De onde a exclamação desiludida de muito republicano histórico: “Esta não é a República dos meus sonhos!”.

Queiroz, Maria Isaura P. de. O coronelismo numa interpretação ociológica.
In: Holanda, Sérgio B. de; Fausto, Boris (Orgs.). História geral da

civilização brasileira. 5. ed. São Paulo: Difel, III, vol. 1, 1989. p. 155.

A  REVOLUÇÃO  RUSSA:  DO  SONHO  AO  PESADELO


O totalitarismo stalinista


Depois da morte de Lenin e do afastamento de Trotski, o poder soviético caiu nas mãos de Josef Stalin. A revolução perdeu suas características iniciais, que apontavam para um regime socialista-comunista, conforme as previsões do marxismo.
Da esquerda para a direita: Stalin, Lenin e Trotski, os três principais
líderes da Revolução Russa..

O governo de Stalin foi marcado pela repressão política aos opositores, incluindo os dissidentes comunistas. E, na esfera da economia, a novidade stalinista foram os planos quinquenais, instituídos a partir de 1928 para substituir a NEP. Esses planos estabeleciam metas e mobilizavam os recursos da nação para atingi-las no prazo estipulado de cinco anos. Isso implicava rígida planificação central e alto controle do Estado sobre a economia.
O Plano Quinquenal era um plano de governo, de longo prazo, que procurava mobilizar todos os recursos da nação na busca de objetivos pré-fixados. Com a adoção do plano, a União Soviética estava inaugurando a técnica da planificação central da economia, que significa submeter, em alto grau, a economia nacional ao controle do Estado.
Propaganda de  Stalin, que havia se tornado o senhor
do poder na  URSS, 

O primeiro plano quinquenal entrou em vigor em 1928 e tinha como metas a rápida industrialização e a completa coletivização das terras (fim da propriedade individual). Essa linha de orientação foi seguida também pelo segundo plano quinquenal (1933-1938) e pelos que vieram depois.
Entre 1928 e 1940, a produção industrial cresceu 8,5 vezes, mostrando os bons resultados dos planos quinquenais nesse setor da economia. O crescimento ocorreu principalmente na área de produção de máquinas e equipamentos. O setor de bens de consumo, porém, foi relegado a segundo plano. E no campo, além de o êxito ter sido relativo, os resultados negativos da planificação burocrática se fizeram sentir de modo intenso. Aí, o governo stalinista impôs a coletivização das terras e dos rebanhos por meio da violência, assassinando em massa os camponeses que resistiam à medida. Quando finalmente a resistência foi vencida, as pequenas propriedades desapareceram para dar lugar a cooperativas de produção — os kolkhoses — e a fazendas estatais — os sovkhoses.
Os planos quinquenais deram preferência à indústria pesada em vez de
bens de consumo. A indústria soviética cresceu rapidamente,
mas custou muito sofrimento para  a população.

No plano político, o governo de Stalin se caracterizou pelo esmagamento dos sovietes como órgãos de representação operária e pela violenta perseguição aos que esboçavam qualquer oposição a seu poder. Entre as vítimas dessa política estavam antigos líderes bolcheviques, como Zinoviev,  Kamenev e Bukharin, além de Trotski e outros, acusados dos mais variados crimes contra o regime. No período de 1936 a 1944, cerca de 7 milhões de pessoas foram presas e milhares de comunistas que reivindicavam um processo democrático acabaram condenados à morte nos “processos de Moscou”, como ficaram conhecidos os julgamentos montados pelo governo stalinista.
Repressivo e totalitário, o socialismo estatal-burocrático de Stalin na prática foi a negação dos ideais de Marx e dos primeiros pensadores socialistas. Mas não temos como saber como se comportaria o próprio Marx se ele tivesse assumido a chefia de um Estado.



quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A  DIALÉTICA  DO  IMPERIALISMO


  Extermínio da  população e  organização  da  infraestrutura


 O texto discute algumas das contradições do complexo fenômeno chamado de imperialismo. Os países imperialistas exterminaram populações e ocidentalizaram regiões inteiras das colônias; organizaram redes de infraestrutura e trocaram os benefícios de curto prazo  pelo cálculo estratégico.

A conquista dos imensos territórios coloniais foi possível graças à superioridade militar, econômica e tecnológica dos europeus, e foi obtida pela guerra e pela exploração das rivalidades existentes entre os povos destas regiões. Civilizações inteiras foram destruídas, com suas populações sendo reduzidas à apatia, e alguns grupos foram praticamente exterminados. Em muitos lugares houve intensa resistência, raramente bem-sucedida a longo prazo. Do ponto de vista macro-histórico é importante considerar que este fenômeno produzia uma espécie de ocidentalização do mundo, às vezes superficial, outras vezes profunda. Também convém salientar que a dinâmica do desenvolvimento social e nacional dessas regiões ficava abafada, pelo menos momentaneamente. Contudo, as administrações coloniais criaram redes de infraestrutura, saneamento e introduziram modernas estruturas econômicas em algumas áreas conquistadas, obviamente na tentativa de maximizar a exploração econômica destas.
Caricatura satiriza a partilha da China.

Há também outro problema importante a destacar. A dinâmica imperialista poucas vezes obedecia a um cálculo de custo-benefício de curto prazo. A maioria das colônias era deficitária inicialmente, o que levou grupos conservadores metropolitanos a opor-se ao imperialismo, com a finalidade de equilibrar o orçamento doméstico. Contudo, isto não significa que a expansão das potências da época tenha constituído um fenômeno irracional ou apenas motivado por uma política de prestígio. A concorrência entre os polos desenvolvidos havia adquirido tal intensidade, que era necessário preparar o futuro. Não ocupar uma região por ser relativamente pobre era deixar espaço para outra potência, que posteriormente poderia aí descobrir recursos importantes.
Visentini, Paulo G. Fagundes; Pereira, Analúcia Danielevicz. História do mundo contemporâneo: da Pax Britânica do século XVIII ao Choque das Civilizações do século XXI. Petrópolis: Vozes, 2008.


A   ERA  MEIJI

  O início da modernização do  Japão,


Hoje,  a terceira maior economia do mundo, o Japão já foi uma “semicolônia” dos Estados Unidos no século XIX. O projeto de modernização desenvolvido durante a Era Meiji, porém, permitiu uma abertura para o Ocidente
que fortaleceu o Japão, ao invés de enfraquecê-lo, como
ocorreu com o Império Otomano, o Egito e a China.

Império Otomano, Egito, China são três exemplos dessa forma de penetração que amplia a colonização [europeia], obtendo todas as suas vantagens, isentas de riscos e encargos.
Idêntico processo havia sido iniciado no Japão, com a diferença de que a iniciativa, ao invés de vir da Europa, vem dos Estados Unidos. Mas a diferença é pequena em relação ao Extremo-Oriente, porque sempre se trata de ocidentais, de brancos. Os Estados Unidos exigem que o Japão abra alguns portos a seu comércio.
Esquadra norte-americana chega ao Japão para exigir
a abertura comercial do país.

A operação se desenrola em dois tempos: em 1854, os navios americanos se apresentam, exigem a abertura; pede-se-lhes paciência. No ano seguinte, o Japão cede. É a abertura do Japão, mas o processo não chegará a termo. A aproximação entre China e Japão é, a esse respeito, muito esclarecedora, revelando uma divergência que põe a descoberto a originalidade da história do Japão.


Súditos se ajoelham à passagem do imperador, tido como uma
divindade pelos japoneses
A partir de 1868, a revolução japonesa, a chamada revolução Meiji ou das Luzes, irá dar um rumo diferente às relações entre o Japão e o Ocidente. Um jovem imperador, que se comporta como um déspota esclarecido, mais ou menos como Pedro, o Grande, ou os soberanos do século XVIII, compreendeu que a superioridade da Europa estava ligada a causas técnicas, econômicas, políticas. E que, se o Japão não assegurasse para si a disposição desse apoio, ele seria reduzido ao papel de colônia da Europa, e que convinha, portanto, reformar-se.
Imperador japonês recebendo as homenagens do 
representante  inglês  por  ocasião  da  assinatura  de  
um tratado de comércio, em 1906.

Entre o nacionalismo ligado ao culto do passado, reduzido à impotência e a explosões de xenofobia, e o nacionalismo voltado para o futuro e o progresso, o Japão escolheu o segundo caminho: a independência pela reforma. 

Ele é o único país, no século XIX, que o fez claramente, deliberadamente, e com espírito de continuidade. Se na Turquia, por diversas vezes, uma elite liberal teve intenções semelhantes, ela nunca conseguiu fazer com que o sultão adotasse seu ponto de vista, enquanto que no Japão é o imperador quem toma a iniciativa do movimento, vencendo forças reacionárias: empreendendo a modernização do país, ele pode livrá-lo da tutela da Europa ou dos Estados Unidos.
Rémond, René. O século XIX: 1815-1914.
 São Paulo: Cultrix, 1989. p. 196.